terça-feira, 19 de junho de 2012

Projeto 99-222 - parte 47

Aproximadamente dois dias haviam se passado desde que Dourado se despedira de Berilafa - era impossível saber ao certo, já que sempre é noite durante o Pesadelo. O meio dragão dormia quando se cansava, sempre em cima de alguma pedra para evitar ser engolido pela areia. Ele já caminhava sem dificuldade, de modo que dispensara a bengala algumas horas antes, atirando-a contra uma estrutura óssea que brotava da areia, formada por inúmeras vértebras e costelas. A visão o fez perceber uma leve, porém persistente dor em suas costas.
    - Por isso se chama Terra dos Ossos - disse para si mesmo, referindo-se aos exóticos totens ósseos cada vez mais comuns na paisagem desértica.
    Dourado decidira partir no momento em que os habitantes do oásis lhe trouxeram a notícia de que Devdas e Anidro estavam mortos, mas não deixou a área antes de fazer uma visita ao covil do dragão da areia e procurar seus cadáveres. Encontrou o monstro, mas não os corpos dos amigos, de modo que escolhera não acreditar que tivessem morrido.
    Não havia rastros a seguir e nem pessoas a quem pedir informações e por isso seguia o rumo que seu instinto indicava. As provisões que Fabrak fornecera seriam suficientes para um longo período de busca e a roupa de couro de verme da areia fornecia boa proteção contra o frio, mas sentia falta de sua armadura de placas e da espada motosserra, perdidas no desastre aéreo em que perdera a vida. Felizmente fora ressuscitado por Nernufi no oásis.
    Parou atraído pela bela e terrível visão de um unicórnio esqueleto algumas dezenas de metros adiante. Mesmo morto e desprovido de carne e crina, o animal conservava uma majestade macabra em seu trote, e o chifre permanecia firme no crânio, iluminado pela luz vermelha que emanava das órbitas vazias.
    Decidido a conseguir a montaria, Dourado apertou o passo e foi na direção da criatura, mas logo descobriu que não seria nada fácil aproximar-se o suficiente para montar. Passou horas tentando cercar o animal, mas o único contato que conseguiu foi um coice.
    - Você não pode montá-lo - disse uma voz rouca e vagamente infantil.
    Virando-se, Dourado notou um pequeno vulto negro encapuzado sobre um totem de osso. Logo percebeu que havia um crânio sob o capuz, possivelmente humano.
    - Por que não me disse antes? - quis saber o meio dragão, levantando-se e tirando o excesso de areia das vestes. As costas doíam terrivelmente por causa da queda. - Ele só carrega mulheres virgens?
    - Aquele unicórnio tem as vértebras frágeis por causa do acidente que o matou... Assim como você. Ele sabe que o peso de um cavaleiro poderia quebrá-lo ao meio.
    - Minhas costas, hein? - refletiu Dourado, virando-se para pegar suas coisas no chão. - De qualquer forma, obrigado por me ajudar a não perder mais tempo. Por acaso você viu alguém passando por aqui esses dias?
    O esqueleto apontou na direção em que havia ainda mais ossos brotando do chão e confirmou ter visto uma mulher e um menino alguns dias atrás. Dourado se despediu com um aceno e decidiu seguir em frente apesar da vontade de perguntar como o esqueleto sabia sobre seu acidente no deserto. Era sabido que mortos vivos costumam ser malignos e aquele poderia estar querendo enganá-lo de alguma forma, mas não podia deixar de seguir a única pista que tinha sobre seus companheiros. Por isso seguiu o caminho indicado e não olhou para trás.
    As luas pareciam cada vez mais próximas e a noite cada vez mais escura, o que fez nascer uma semente de desespero diante da possibilidade do sol nunca mais surgir. Logo as criaturas terminariam de descer as escadarias lunares, as pessoas se esconderiam em suas casas e o mundo seria engolido pelo caos.

[Leia a próxima parte]

Nenhum comentário: