segunda-feira, 20 de junho de 2011

Projeto 99-222 - parte 46

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

    Devdas não podia impedir o destino insólito que ameaçava seu corpo. Prestes a ter sua intimidade violada por um réptil gigante e asqueroso, nada restava a não ser agradecer pela bênção da inconsciência.
    Anidro tentou alcançar o escudo que conseguira na ilha dos gigantes, aquele com uma cabeça reptiliana forjada no metal. Seus braços continuavam levantados por causa da posição dos ombros, e assim ele continuaria até alguém tirá-lo daquele buraco.
    Com um esforço que fazia as costas formigarem, o paladino conseguiu encostar os dedos no metal polido. A cabeça metálica magicamente viva, voltada para cima, respondeu com uma mordida no ar. Se ele conseguisse empurrar o escudo na direção do dragão, talvez as mandíbulas pudessem se fechar em uma perna do monstro, ou talvez no rabo. Qualquer coisa serviria, qualquer coisa que desviasse sua atenção daquela cena.
    A guerreira já estava completamente despida quando Anidro conseguiu pegar a borda arredondada do escudo. Os seios e a barriga da irmã estavam cobertos por uma camada da saliva que escorria pelos lábios finos e escamados do dragão da areia. A pele marrom, ainda brilhante por causa do suor da batalha, refletia a luz da tocha mágica, única fonte de luz no ambiente cavernoso. "A pele dela parece chocolate derretido", pensou Anidro, irracionalmente.
    Bastaria um empurrão bem calculado para colocar o escudo em uma posição que viabilizasse o plano. O menino apertava a borda com tanta força que o gesto parecia capaz de fazer parar o tempo, e depositou ali todas as esperanças. Com um empurrão puramente baseado nas forças do cotovelo, Anidro atirou o escudo mágico... e errou miseravelmente. Nem mesmo o estrondo causado pelo impacto do metal contra uma pilha de ossos foi suficiente para desviar a atenção da criatura.
    Desgarrado dos últimos resquícios de sanidade, Anidro começou a gritar e espernear, mas sua atitude pareceu atiçar ainda mais a lascívia do monstro, cujo apêndice viril direcionava-se perigosamente na direção da guerreira caída. Imagens fantasmagóricas, frutos da mente exausta do menino, lutavam contra o dragão e o derrotavam de maneiras violentas e sangrentas, mas nenhuma daquelas figuras era real.
    Ou seria? Dentre os vultos criados em volta do inimigo por sua imaginação, um se destacava e parecia mais real. Era o amigo Dourado empunhando a espada-serra, sem dúvida. Vestido com a inconfundível armadura pesada, William Goldblood havia retornado dos mortos, completamente recuperado e prestes a salvar o dia! Sim, a armadura completa exatamente como se lembrava, com os entalhes imitando escamas e tudo mais... a armadura que havia sido destruída durante a chuva de meteoros no deserto... que não poderia ter sido recuperada... a não ser que ele tivesse encontrado um ótimo ferreiro no caminho, talvez dentro do próprio tunel... não, ele não estava ali. Dourado não estava ali. Era só mais um truque de sua mente.
    Além de toda aquila situação, algo incomodava terrivelmente as costas. Subitamente sentindo as correntes da irmã contra o corpo, Anidro as enrolou nas mãos sem pensar e puxou para si. Devdas foi arrastada alguns centímetros, o que finalmente chamou a atenção do dragão, que a agarrou pela perna e também puxou. Muito mais fraco que o inimigo, porém muito mais motivado, o paladino continuou com o cabo de guerra, travando as correntes no antebraço com várias voltas. Felizmente a sorte estava do seu lado, pois Devdas tinha o corpo todo coberto por suor e saliva, de modo que a perna presa simplesmente escorregou pelas garras do dragão.
    Atraído pelo sexo que escapava de suas mãos, o monstro veio na direção de Anidro, mas o gigantesco corpo fez mais pressão do que podia aguentar a frágil área em volta do buraco onde o paladino estava entalado. O chão desabou em volta de seu tronco e ele estava novamente livre, caindo na direção do rio subterrâneo e preso à irmã pelas correntes. O dragão gritou e protestou, mas não havia nada que ele pudesse fazer. Os dois foram levados pela correnteza.

[Leia a próxima parte]

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Projeto 99-222 - parte 45

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

    "Que loucura é essa? Um dragão monge estuprador de humanas?", pensava Devdas enquanto buscava uma abertura na defesa da criatura. Apesar de óbvia, a constatação não deixava de martelar seus pensamentos. O réptil desferia chutes e socos em uma sequência de movimentos ao mesmo tempo hilária e terrível, que já teriam derrubado a guerreira caso as preces protetoras do irmão não estivessem ajudando.
    Movendo-se como a areia de seu habitat, o dragão continuava a castigar Devdas sem se preocupar em utilizar garras ou dentes. A Anidro aquilo parecia uma brincadeira, e ele não conseguiu evitar lembranças de sua infância, quando um gato brincara com um pardal antes de devorá-lo. Ao pássaro era uma batalha, mas ao felino não.
    - Irmã, precisamos fugir! - advertiu. Seus campos de proteção conjurados sobre Devdas faziam tremer o ar a cada impacto recebido. - Ele não está lutando de verdade!
    Mas Devdas não tinha a mesma impressão. Ela não poderia acreditar que, mesmo utilizando todas as suas forças, o inimigo não estivesse levando a situação a sério. Por outro lado, era incapaz de ignorar totalmente uma advertência do irmão, e por isso adotou uma postura mais defensiva para estudar melhor as intenções do monstro.
    - Por aqui! - Anidro estava olhando para um ponto no chão, perto de uma pilha de ossos, onde a areia deslizava em redemoinho, provavelmente escondendo um buraco. Era a única esperança, considerando que o túnel por onde vieram os transformaria em presas fáceis se decidissem dar as costas ao dragão.
    Em meio a tudo aquilo, os lamentos da mulher nua não haviam cessado, o que definitivamente não ajudava Devdas a se concentrar. Ela gritava de dor e já não havia nada que pudesse salvá-la, pois seus órgãos internos haviam rompido para dar espaço ao enorme membro viril do dragão, e a entrada heróica dos irmãos, tendo interrompido o coito, teve o efeito de uma rolha retirada de uma garrafa cheia. A hemorragia a mataria em pouco tempo.
    Com um puxão na corrente mais rápido do que o pensamento racional, Devdas desviou o curso de um ataque e o redirecionou, cravando o facão misericordiosamente na nuca da moribunda. O repentino silêncio clareou sua mente e ela tomou sua decisão.
    - Vai, vai! - gritou para o irmão, empurrando-o para o buraco. Ele não pensou duas vezes antes de enfiar uma perna no vórtice de areia, e em seguida a outra. Mas a abertura era pequena demais para o ombro, e o paladino ficou entalado com os braços idiotamente erguidos.
    Sem tempo para pensar, Devdas direcionou suas correntes vivas para a fenda, procurando envolver Anidro para puxá-lo de volta. O dragão, por sua vez, assistiu ao inútil esforço durante um curto momento antes de começar a esmurrar a guerreira, cujas correntes presas ao chão a haviam transformado em uma planta fortemente enraizada, totalmente vulnerável.
    Anidro já não conseguia manter os campos de força, pois os braços mal podiam se mexer para executar os gestos necessários. Assim, Devdas recebia os pesadíssimos socos com toda a potência, um após o outro, mas aquilo não parecia estar divertindo o monstro. Após meia dúzia de golpes a mestra das correntes caiu, com os cabelos ensanguentados grudados ao rosto.
    Com um terror crescente, Anidro observava, imobilizado, as ações do dragão. As grandes garras negras, desajeitadas para lidar com o pequeno corpo de Devdas, começavam a pinçar botões e amarras preguiçosamente. Os olhos bestiais brilhavam aquosos, com tanta intensidade que o reflexo do menino parecia estar se afogando em um poço sem fundo. E ele subitamente compreendeu que a criatura estava despindo a nova vítima. Tirando as roupas dela devagar e saboreando o contato com o tecido. O jovem paladino nunca havia aceitado por completo a ideia de lutar ao lado da irmã, pois o medo de perdê-la em combate era como uma assombração sempre presente. Mas aquilo... aquilo era ainda pior.
    A segunda naquele dia. O réptil mal podia acreditar na própria sorte e, se dando conta da própria pulsação, já sentia o próprio sangue circulando para a região da virilha.

[Leia a próxima parte]

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Morte em Aldetoron

Morte é algo bem relativo em um sonho. Não é necessariamente o fim, mas sempre representa uma experiência ruim. Há lugares em Aldetoron, principalmente aqueles em que a influência onírica é muito forte, onde os mortos podem voltar à vida como se nada houvesse acontecido. Um dano de queda é totalmente ignorado, um náufrago começa a respirar na água após pensar ter morrido e um rio de lava é simplesmente mais denso do que um rio comum (e levemente mais quente).
Mas considerando uma situação normal, em um lugar normal sem muita influência onírica, o que acontece quando alguém é trespassado por uma lâmina, cai em um abismo ou tem o crânio esmagado em Aldetoron?
Para responder, precisamos saber se o personagem está lá fisicamente ou através de um avatar onírico. Afinal, um nativo de Aldetoron ou um viajante que tenha levado seu corpo físico ao mundo-sonho corre os mesmos perigos com os quais estamos acostumados a lidar normalmente. Se ele morreu, ele morreu. Pode ser ressuscitado, mas morreu.
Se o personagem está visitando Aldetoron através de um sonho, então suas percepções e experiências acontecem através de um avatar onírico, ou seja, seu corpo real está em segurança (presume-se). Esse avatar sente dor e pode morrer como qualquer um, mas a pessoa por trás do avatar não sofre nenhum arranhão (ela somente acorda). Aquele avatar específico, no entanto, morreu, e o personagem não poderá voltar a Aldetoron naquele corpo, a não ser que seja ressuscitado.
Quando um avatar onírico morre, o corpo desaparece imediatamente, deixando para trás quaisquer equipamentos e vestimentas.
Note que a diferença é somente conceitual, pois na prática o resultado é o mesmo: o jogador faz outra ficha ou ressuscitam seu personagem. Simples assim.