quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Adeus D&D (ou Ressuscitando o RPG, parte III)

Conforme comentei um tempo atrás,  meu grupo de jogo começou um esforço para ressuscitar a motivação para jogar. Iniciamos aulas de teatro e nossas esperanças pousavam na possibilidade de conseguirmos nos divertir com sessões de jogo curtas, porém densas em conteúdo.

Um mês depois comentei como foram as primeiras aulas. Minha idéia era ir colocando resumos de cada aula, mensalmente, mas achei que isso não acrescentaria nada ao leitor. Resumidamente, as aulas seguintes (até o presente) foram focadas em improvisação e interação do grupo. Passamos por análises psicológicas (realizadas pela professora), diversas cenas improvisadas e inúmeros jogos teatrais. Mas até semana passada não tínhamos jogado RPG para colocar em prática o que aprendemos. Até semana passada.

Vários meses atrás, antes de começarmos as aulas de teatro, apresentei ao meu grupo um jogo de RPG chamado Cat. Você interpreta um gato cujos inimigos são os boggins, criaturinhas que incorporam as podreiras do comportamento humano. Foi uma sessão de umas duas horinhas e todo mundo gostou (nada excepcional, mas já era algo diferente). Ali tinha uma mecânica de "dados de estilo", que permitem incluir elementos na cena ao usar pontos acumulados através de ações excepcionalmente bem sucedidas.

Recentemente, guiado por um excelente artigo do .20, encontrei outros jogos do mesmo autor: John Wick. São eles Shotgun Diaries e Houses of the Blooded. Mas antes de falar desses jogos, quero deixar claro que gostei muito desse autor. Ele gosta de D&D (como eu) mas vê grandes problemas narrativos com D&D (como eu). E assim ele decidiu escrever um RPG anti-D&D (o Houses of the Blooded) onde o conceito dos personagens é totalmente o inverso daquele que estamos acostumados. Você envelhece, já começa o jogo como um governante, normalmente é casado e, por fim, contrata pessoas para fazerem o trabalho sujo de matar monstros e resolver problemas em vilarejos. Tudo isso com uma raça antediluviana como protagonista (os ven), que possuem uma cultura muito bem detalhada no livro.

Comprei os dois PDFs, Shotgun e Houses (total: US$9,00).

Após lê-los, notei uma semelhança gritante entre o Shotgun Diaries e o Houses of the Blooded, que é uma evolução daquele conceito de "dados de estilo" do Cat. Basicamente você, como jogador, ganha o direito de narrar as ações nas quais teve sucesso. O narrador narra as que você falhar.
Fiquei com um pé atrás. Achei que pudesse dar merda deixar os jogadores com tanto controle para estragar minha trama, mas a prática me provou o contrário.
Começando pelo Shotgun, que é bem simples (role alguns d6, e se cair algum 6, você narra o que acontece), narrei uma sessão no estilo proposto pelo livro (aliás, único estilo possível): apocalipse zumbi. O sistema torna obrigatório o trabalho em equipe e faz os jogadores correrem contra o tempo atrás de suprimentos e locais seguros (a cada alguns minutos o narrador adiciona um "zombie token" na mesa, que aumenta as chances de acontecer uma tragédia).
Trinta minutos depois todos haviam morrido. Sim, foi uma sessão de 30 minutos, com começo, meio e fim e extremamente densa em conteúdo (era o que procurávamos!). O terror rondava cada jogada de dados (se não cair um 6, provavelmente você vai morrer ou ser infectado) e nos divertimos muito. Foi muito mais legal do que nossas costumeiras sessões de 6 horas!
Mais tarde um dos integrantes do grupo resolveu adaptar o sistema para mestrar Toon (você interpreta um personagem de cartoon em uma história de humor absurdo) e tivemos uma sessão de 40 minutos absolutamente divertida (sem exagero).

John Wick estava certo. É possível. Jogador passa no teste e narra o que acontece; jogador falha no teste, mestre narra (para o bem ou para o mal do personagem). Simples assim, pelo menos com o sistema de Shotgun.

E então chegou a hora de testar o Houses of the Blooded. O livro com mais de 400 páginas (comparadas às 16 do Shotgun) apresenta o mesmo estilo de narração cooperativa jogador + mestre, mas com muito mais suporte. O próprio preenchimento da ficha já te obriga a criar um defeito para cada qualidade, fazendo nascer um personagem com background automático, sem precisar escrever nada separado.
Conforme previ, a jogabilidade demorou um pouco para engrenar, mas compensou. É impressionante ver uma narrativa cooperativa florecendo diante dos seus olhos, com cada jogador adicionando elementos à história.
Utilizei a história proposta, a festa de Shara Yvarai, com alguns NPCs prontos e uma trama simples. E meus queridos jogadores transformaram uma simples festa em uma rede de intrigas em meia hora, para o meu deleite.

O ponto máximo da minha felicidade foi quando o Pedro, jogador conhecido por se distrair durante as sessões, ter deixado de ir ao banheiro para ouvir o resultado de um teste bem sucedido de outro jogador! Afinal, cada jogador cria novas coisas na história, e perder a vez de um colega significa perder uma parte da trama. O narrador vai amarrando as pontas e utiliza as ferramentas fornecidas pelo sistema para conduzir uma trama com enfoque em romance, vingança e ambição.

Assim, despeço-me do D&D sem data para revê-lo.
Despeço-me das longas preparações de tramas elaboradas, planilhas de monstros e tabelas de tesouros. Não vou mais forçar os jogadores a seguirem a MINHA trama - em vez disso vamos criar histórias das quais todos queremos participar.
Enfim, recuperamos nossa motivação.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Projeto 99-222 - parte 44

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

    - Podemos dizer que sim, um dragão tarado e pervertido - complementou Berilafa, arrancando mais conversas paralelas das pessoas em volta. Sua expressão era rígida e fria, como se estivesse contando um grande segredo apesar de haver tantas pessoas ouvindo. Logicamente todos ali sabiam do fato, e estavam claramente incomodados por terem que deixar os convidados saberem.
    Os músculos da face de Devdas se contorciam pela aversão à idéia. Ela detestava ter que tomar uma decisão tão repentina, mas se sentiu na obrigação de partir imediatamente para descobrir onde o tal dragão morava e como ele era. Mesmo sem Dourado.
    - E quando ele solicita... oferendas...  aonde vocês levam as moças? - perguntou afinal.
    - Pensei que quisesse esperar seu amigo ficar bom - interveio Nernufi, e Berilafa deixou escapar uma leve expressão de vitória pelos cantos da boca.
    - Vamos deixá-la fazer como quiser, primo. Se querem saber, peço ao meu filho que os leve até o lugar onde deixamos as oferendas - ofereceu o líder, usando a palavra "oferendas" a contragosto. - Não sabemos exatamente onde fica sua toca, mas não deve ser longe de lá.
    - Posso levá-los agora mesmo - ofereceu Fabrak, indicando seu espalhafatoso veículo, estacionado ali perto.
    Anidro e Devdas trocaram olhares, pegaram as mochilas e entraram no carro.

* * *

- É aqui - disse Fabrak, pisando no freio. Com a mão esquerda ele apontava, através da janela do veículo, na direção de uma duna.
    - Naquela duna? Achei que teria um altar ou coisa do tipo - confessou Anidro, incrédulo.
    - Bem, é um dragão da areia. Ele cria um ambiente cheio de ornamentos, inclusive um altar, quando chega a hora de receber oferendas. Ele molda tudo com areia.
    Devdas saiu do carro e pegou sua mochila. Suas correntes desenrolavam-se de seus braços como serpentes, enfiando-se na areia à procura de evidências de algum esconderijo subterrâneo.
    - A toca não deve ficar mais longe - sugeriu a guerreira. - Afinal, ele deve morar perto do oásis para garantir seu suprimento de água. Aliás, não duvido que encontremos algum túnel que leve diretamente para baixo do lugar onde vocês moram - concluiu ela, olhando sombriamente para Fabrak.
    - Você acha que o dragão vive embaixo dos pés do meu povo?
    - Ele precisa de água, e não sinto nenhuma umidade por aqui - disse Devdas puxando uma das correntes de volta. A outra, no entanto, permanecia debaixo da areia.
    - Achou alguma coisa, mana?
    - Achei um túnel. É melhor você voltar, Fabrak, antes que ele sinta o peso do seu veículo na areia. Talvez ele possa sentir a movimentação na superfície, da mesma fora que os vermes.
    - Se você diz...
    O homem se dirigiu rapidamente para a segurança, nitidamente aliviado por não ter sido convidado a seguir com eles. Devdas havia percebido seu medo, exatamente como havia percebido o medo de todos os outros durante a refeição enquanto conversavam sobre o dragão. E ela sabia que a criatura se aproveitava da situação para conseguir o que queria.
    Mais do que isso; o dragão provavelmente havia se tornado preguiçoso pela vida confortável que tinha. Ela imaginava que seria um alvo fácil, de musculatura flácida e cérebro lento, desacostumado com surpresas. E mal podia esperar para cravar suas lâminas naquele monstro depravado.
    - Então vamos descer? - perguntou Anidro, após um longo período que passara obresvando o céu escuro cada vez mais cheio de escadas lunares. Ele se esforçou para direcionar sua atenção para o dragão, já que não havia nada que se pudesse fazer com relação às escadas.
    - Vamos. Vai ser fácil - respondeu a mestra das correntes, cutucando o chão com o pé para encontrar o início da passagem. Logo conseguiu provocar a abertura de um buraco, e a areia logo começou a invadir a abertura.
    Sem perderem tempo, os dois pularam na escuridão, forçando os braços e as pernas contra as paredes estreitas para amortecer a queda. Vários metros abaixo a passagem começava a inclinar e ficar mais larga, até que se transformou em um túnel arredondado mais ou menos horizontal.
    Batendo uma tocha mágica contra a parede de areia compactada, Anidro iluminou o lugar. Com dois metros de diâmetro, o túnel dava uma idéia do tamanho do dragão que o escavara, e as marcas de pequenos dedos por toda a extensão indicavam que as vítimas eram levadas conscientes pelo trajeto.
    Não havia bifurcações e nem objetos largados pelo longo caminho. E pela direção em que seguiam, Devdas estava convencida de que eles estavam indo parar debaixo do vilarejo de Berilafa. As paredes estavam cada vez mais úmidas, o que indicava que estavam próximos do oásis.
    Então eles ouviram um gemido baixo, seguido por um grito agudo. Anidro sugeriu que apertassem o passo, e cada passo adiante permitia ouvir os gemidos com mais nitidez. Pouco tempo depois era possível sentir um leve cheiro de podridão no ar parado.
    - Melhor começarmos a baixar a luminosidade - sugeriu Anidro. - Senão ele vai perceber que...
    Mas o paladino não conseguiu terminar a frase. Uma rajada de vento cortante, carregado de areia muito fina, os atingiu como um raio. Devdas precisou dobrar os joelhos e inclinar o corpo para frente para permanecer de pé. Suas correntes já esvoaçavam à sua volta, como uma emanação de aço.
    Uma voz gutural veio da escuridão adiante, mas nenhum dos dois entendeu o que dizia.
    - Acho que está falando em dracônico - disse Anidro, desconfiado, e em seguida começou a conjurar escudos de proteção através de preces à deusa Villia.
    - EI! - gritou a guerreira, incapaz de ver o dono da estranha voz. - NÓS VIEMOS AVISAR QUE VOCÊ NÃO VAI TER MAIS OFERENDAS!
    Novos grunhidos ininteligíveis ecoaram em resposta, mas dessa vez pareceram carregar as palavras "cheguem mais perto" sob um fortíssimo sotaque. E no instante seguinte um grande aposento se iluminou alguns metros adiante, revelando um grande divã de ouro onde se deitava um enorme réptil marrom com características peculiares - incontáveis espinhos adornavam sua cabeça, sendo que os da mandíbula lembravam barbas. As escamas do corpo eram pontudas também, e pareciam espinhos quando se eriçavam. E também havia um par de grandes membranas que possivelmente funcionavam como asas. Elas começavam na base dos chifres espinhosos, passavam  pelas costas, onde tinham o tamanho máximo, e se juntavam na cauda.
    Apesar de pétreo, o rosto tinha alguma capacidade de expressão e os olhos amarelos brilhavam vividamente, curiosos. Mas havia outras coisas naquela câmara, além do dragão. Era difícil observar o resto enquanto a presença daquela incrível e sobrenatural criatura atraía toda a atenção, mas Devdas e Anidro notaram a existência de muitas ossadas em volta dele. E em meio aos ossos, uma mulher viva.
    Devdas ainda tinha esperanças secretas de que encontrassem simplesmente um dragão devorador de carne humana, e não um estuprador de humanas. Mas a mulher nua, deitada com o rosto no chão e com as pernas escancaradas, não deixou sombras de dúvidas - principalmente porque não estava morta e nem mordida. Ela gemia incessantemente por causa dos enormes buracos ensanguentados em que haviam se transformado sua vagina e seu ânus.
    Sem precisar de mais motivos, Devdas investiu contra o monstro, tomada por uma fúria cega. Suas correntes, cujas extremidades prendiam-se a grandes facões, atacavam o inimigo em movimentos que lembravam ferroadas de escorpião. Um grito de guerra ensurdecedor preencheu cada canto daquele covil, carregado de ódio e sede de vingança.
    Os facões perfuraram os ombros do dragão, servindo a partir de então como apoios que a guerreira utilizou para executar uma manobra aérea que a levaria direto à nuca do monstro. Assim que ela chegou à altura máxima, seus pés tocaram o teto, que era mais alto ali do que no túnel, e ela conseguiu dar alguns passos enquanto descrevia u arco no ar.
    Mas o oponente não era lento e nem possuía músculos flácidos como Devdas previra. Quando percebeu o objetivo da guerreira, o dragão segurou as correntes com as poderosas garras e puxou bara baixo, derrubando a invasora. E em seguida puxou as correntes para si, trazendo Devdas com elas.
    Apesar de atordoada, enquanto se aproximava rapidamente do dragão de areia Devdas pôde ver de relance o que parecia ser o pênis dele, que naquele momento estava ereto e sujo de sangue. E no instante seguinte foi atingida no rosto por uma joelhada.
    Anidro, que mal podia acreditar que acabara de ver um dragão desferir uma joelhada (ele achava que dragões somente mordiam), concentrou-se nas preces que mantinham a irmã protegida dos violentos ataques. Infelizmente ele não podia atacar enquanto estivesse concentrado em manter escudos de proteção tão potentes.

[Leia a próxima parte]