segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Iniciativa 4e: Doratraks

Os posts da Iniciativa 4e são sempre conjuntos e temáticos, a serem publicados quinzenalmente. Assim, vários aspectos de um mesmo assunto serão cobertos por diferentes autores (veja os links no final do post), dando origem a um suplemento periódico.
O tema desta 23ª edição da Iniciativa 4e é Masmorras. Mas aqui será apresentada...

Mais que uma Masmorra
Após o fim do mundo, quando a vida dá espaço ao silêncio da desolação, uma mente repleta de poderosa criatividade começa a arquitetar planos para um inevitável recomeço. Mas uma paisagem cheia de restos do fim de uma era não é um ponto de partida adequado - o artista precisa de uma tela em branco.
Apesar da necessidade de um recomeço, a divindade não quer se desfazer de seu passado, pois isso seria o mesmo que destruir sua memória. Assim, uma nova camada de terra é criada por cima de tudo, apoiando-se no topo das montanhas mais altas do antigo mundo, que por sua vez havia sido construído sobre as montanhas mais altas de um mundo ainda mais antigo.
Essa "pilha de mundos", ou Onkala (mais conhecida como Doratraks) dá origem a um universo escuro, hostil, muito extenso e absurdamente complexo, habitado por criaturas inimagináveis. Sua existência, repleta de localidades e eventos próprios, passa despercebida pelos habitantes da superfície, mas oferece recompensas indescritíveis àqueles dispostos a explorá-lo.

Fatos sobre Doratraks

Um personagem obtém as seguintes informações com um teste bem-sucedido de perícia:
Exploração CD 10: Há reinos subterrâneos em nosso mundo, onde vivem anões, dragões e todo tipo de abominações. Mas dizem que há coisas abaixo desses reinos subterrâneos.
Exploração CD 15: Existem galerias subterrâneas mais profundas do que se pode imaginar, pelas quais se diz ser possível chegar a outros mundos.
Exploração CD 20: Há outros mundos abaixo deste, mais especificamente os restos deixados por todos os apocalipses pelos quais já passamos. E na parte mais profunda de Doratraks está o Poço dos Desejos, uma pequena câmara que ainda conserva a fagulha criativa primordial do gênese, capaz de realizar qualquer desejo.
Exploração CD 25: O fim do mundo é um evento certo e esperado que deixará poucos (ou nenhum) sobreviventes. E quando um novo mundo surgir por cima dele, depois de muito tempo surgirão criaturas formadas pelas memórias de seus habitantes, desprovidas de consciência racional como a conhecemos. Em vez disso, elas possuem uma inteligência incompreensível e se manifestam fisicamente sob formas variadas, geralmente perturbadoras. Por isso são chamadas Inimagináveis.
Exploração CD 30: Os Inimagináveis não são os únicos habitantes de Doratraks. Há criaturas que desceram e viveram naqueles profundezas, e que eras mais tarde deram origem a novos seres. Além disso, é grande a atividade de dragões e elfos negros.
Exploração CD 35: Os próprios deuses de mundos anteriores existem em Doratrax. Eles não conservam seus poderes, mas continuam possuindo habilidades extraordinárias e muitas vezes controlam grandes regiões.

Usando Doratraks em sua Campanha

Doratraks é uma grande masmorra com múltiplos níveis, uma extrapolação do conceito de Underdark introduzido pelo Forgotten Realms, cujo objetivo é verticalizar o mundo de jogo e criar um tipo de "masmorra definitiva".
Aqui, no entanto, a idéia dessa gigantesca masmorra está vinculado ao conceito de ciclos de criação e destruição, como na mitologia hindu. Assim, é um tipo de Underdark direcionado a mundos que de alguma forma precisam ser reconstruídos através das eras.

Para expandir essa idéia, siga a sequência das eras pelas quais o mundo já passou, "empilhando" uma era sobre a outra, as mais recentes sobre as mais antigas. O resultado será como um grande prédio, sendo cada pavimento uma versão do mesmo mundo.

Características Básicas de Doratraks

Todas as camadas de Doratraks correspondem ao mundo como ele já foi durante uma era passada. Assim, há características comuns a todas elas.

Teto
: Em média 1.000 metros de altura.
Iluminação: Escuridão total. Certos tipos de fungos brilhantes e criaturas com brilho próprio vivem no elevadíssimo teto, lembrando estrelas bizarras e multicoloridas em um céu noturno.
Vegetação: Apesar de ser uma região subterrânea, Doratraks tem uma enorme variedade de plantas únicas, com folhas adaptadas à pouca iluminação ou capazes de absorver estranhas irradiações invisíveis.
Fauna: Doratraks tem grandes regiões abertas, inclusive planícies, bem como lagos, rios e mares. Assim, uma rica fauna cobre as regiões inóspitas, muitas vezes lembrando animais da superfície. O teto elevado permite inclusive a existência de animais voadores.
Rochas: Ruínas e escombros deram origem a muito sedimento, formando cascalho nas áreas abertas. Cordilheiras se transformaram em enormes paredões em contato com o teto (que é a base para o mundo construído na camada superior), cuja necessidade de apoio originou enormes colunas de pedra com centenas de metros de altura. Complexas intersecções entre essas colunas formaram cavernas e pontes naturais, misturando-se a nuvens sólidas petrificadas pelo tempo e pela falta do sol.
Arquitetura: O fim de uma era não traz, necessariamente, a destruição total. Cidades inteiras permanecem intactas, bem como monumentos, castelos, estradas e pontes. Muitos desses lugares são encontrados abandonados, outros foram destruídos pelo próprio tempo, e outros ainda permanecem habitados por nativos de Doratrax. Existem também construções relativamente novas, erguidas por esses nativos (como mind flayers, mortos-vivos, demônios e elfos negros).

Veja a seguir um pequeno exemplo de camada:

A Camada dos Elementos
O nível mais profundo corresponde ao mundo original, como criado no gênese. É o primeiro esforço criativo de uma divindade muito jovem, ainda sem experiência. Seu centro era um lugar muito belo, onde o deus criou as coisas essenciais das quais precisava. O mundo cresceu em volta à medida que ele caminhava em sua jornada de autodescobrimento.
A princípio o deus percebeu o pulso, em sua mente, de padrões simples e básicos - os elementos primordiais. Sua consciência se dividiu para assimilar cada um desses elementos, e assim surgiram novos deuses para acompanhá-lo.
Seus habitantes atuais são escassos, em sua maioria deturpados descendentes de titãs, slaads, genasi e shalmak (o povo-salamandra).

Em Aldetoron

Conforme mencionado, Doratraks foi planejada para ser o Underdark de Aldetoron. Lá, em vez de "eras", cada período tem o nome de "ciclo".
Cada vez que acaba um ciclo, outro é iniciado e há sempre dois deuses recorrentes: aquele que representa a forma de Aldetor no mundo-sonho e Vorth - a personificação de todas as memórias dos ciclos anteriores, ou seja, aquilo que faz Aldetor aprender com seus erros. Leia aqui mais detalhes sobre ele.
Vorth é a razão pela qual Doratraks existe. É o impulso de guardar os restos dos ciclos passados, num misto de saudades e lamentação, razão pela qual surgem as criaturas chamadas Inimagináveis (os principais habitantes de Doratraks).

Trata-se do lugar mais inóspito do mundo-sonho, e seus segredos revelam toda a história de Aldetoron, como um gigantesco e perigoso museu. E a maior recompensa fica em seu nível mais profundo, na câmara onde se encontra o Poço dos Desejos. Lá, o aventureiro que atirar uma moeda poderá materializar todas as suas vontades.

Além das características básicas apresentadas a todas as camadas de Doratraks, é importante mencionar duas outras:

Influência Onírica: Apesar de ser uma característica típica de Aldetoron, a Influência Onírica pode ser renomeada e adaptada para outros cenários. Ela representa o caos natural que domina as áreas mais afastadas e isoladas, e está ligada ao fato de Aldetoron ser um mundo-sonho. Veja aqui as regras para Influência Onírica, e confira aqui as modificações nos personagens de estágio exemplar ou épico.
Efeito Esponja: Outra característica típica de Aldetoron (que você pode verificar aqui), é um fenômeno que permite seus limites planares absorverem material de outros planos, inclusive da Terra. Assim, é possível que os personagens encontrem um submarino encalhado ou um artefato mágico de outro mundo qualquer.

Artigos Parceiros da Edição 23

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Projeto 99-222 - parte 43

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

O povoado onde vivia Fabrak era um grande oásis cercado por construções que, apesar de simples, davam um ar suntuoso devido à arquitetura cheia de curvas e colunas, típica do sul de Lushma. Uma vegetação de proporções exageradas, permeava os espaços entre as belas casas. Panos coloridos serviam como cortinas e toldos, e a luminosidade noturna das luas dava um aspecto misterioso ao local.
    O carro chegou quebrando o clima calmo, os faróis iluminando a estrutura aberta e cheia de colunas quebradas que parecia servir de ponto de encontro dos moradores às margens do lago. A luz forte revelou que uma grande aglomeração ouvia atentamente as palavras de um homem de meia idade com uma barba branca, densa e cheia de tranças.
    Tímidos por causa da súbita atenção conquistada, Anidro e Devdas permaneceram atrás de Fabrak quando saíram do veículo. O menino tinha a impressão de que aquelas pessoas estavam prestes a atacá-los, possuídas por criaturas lunares que teriam chegado ali antes deles, através das escadas. Mas felizmente isso não aconteceu.
    - Meu pai, bons ventos! - disse Fabrak, abrindo os braços e caminhando na direção do homem que estava cercado por todas aquelas pessoas. O senhor, por sua vez, levantou-se da cadeira ornamentada e abraçou o filho.
    - Você os encontrou onde eu mandei procurá-los? - perguntou o homem de pele bronzeada e muitas marcas de expressão no rosto. Sua voz era convicta e bela, e um grande turbante ornava sua cabeça.
    - Sim, pai, na direção onde avistamos a aeronau caindo. Ah - exclamou Fabrak, virando-se para os convidados que terminavam de tirar as coisas do carro - deixem-me apresentá-los à minha família. Este é Berilafa, meu pai, e estas são Effara, Unalah - e assim continuou por vários minutos, dizendo o nome de cada pessoa. Eram algumas dezenas, todas com laços familiares. E várias das mulheres eram esposas de Berilafa.
    Após as boas-vindas e uma rápida conversa, Anidro, que nunca tinha visto alguém com tantas esposas, comentou:
    - O senhor deve ser muito viril.
    As mulheres deram risadinhas e Berilafa tirou um pequeno frasco de uma das dobras de seu manto.
    - Não tenho mais a vitalidade de quando eu era mais jovem, mas este óleo que trouxe da capital facilita minha tarefa. Aliás, se vocês me dão licença, preciso satisfazer minhas mulheres. Podem ficar naquela casa e conversaremos depois que vocês desacansarem.
    A multidão então se dispersou e Devdas ficou muito constrangida com a naturalidade com que Berilafa falava de sua vida sexual, de modo que saiu apressada fingindo um bocejo. Ela não deixou de reparar que vários rapazes a observavam com nítido interesse e começou a pensar em Ceowulf, o marujo que os havia levado à Ilha Sauria. Parecia que havia se passado uma eternidade desde então, mas apesar disso ela conseguia se lembrar perfeitamente do rosto do capitão.
    Alodia ficou muito feliz ao reencontrar suas amigas Estra e Edana e as três permaneceram perto do lago, onde a ex-capitã aceitou as bebidas oferecidas por um grupo de rapazes envoltos por largas túnicas. Ela logo se enturmou e descobriu que suas ex-tripulantes já haviam encontrado namorados e provavelmente se casariam em breve.
    A falta do sol parecia ter mexido com a rotina do povoado. Vários foram dormir, outros participavam de um banquete e alguns poucos ficaram simplesmente sentados ali mesmo, na praça, encostados nas colunas de pedra aparentemente sem pensarem em nada.

Devdas acordou com a aproximação de um pequeno vulto com olhinhos brilhantes. Era Anidro, e ele parecia impressionado por algum motivo.
    - O que foi? Espera aí, você ficou um tempão lá fora, não ficou? - quis saber a irmã, com aquela estranha sensação de quando se acorda em um lugar estranho. Fazia muito tempo que ela não dormia em lugares familiares, mas ela nunca deixou de ter aquela sensação.
    - Eu vi uma coisa muito estranha, mas não quero comentar. É o Berilafa com as esposas, e aquele óleo...
    - Você foi espionar?! - gritou Devdas, logo em seguida baixando o tom e se certificando de que ninguém lá fora havia escutado. - Eu não quero saber o que você viu, e quantas vezes preciso falar dessa sua curiosidade? Lembra-se do que a mamãe dizia?
    - O que foi visto não pode ser desvisto - disse o menino, em tom monótono. - Mas aquele óleo faz cre...
    - Não quero saber - cortou ela. - Agora vai dormir. Pelos deuses, nem parece um paladino!
    Devdas voltou a se virar no colchão de penas, lembrando-se de quando conheceram os paladinos de Villia assim que chegaram em Aldetoron, logo após atravessarem involuntariamente as brumas. Eles disseram que o menino era um prodígio, mas tudo aquilo parecia, agora, mais um sonho do que uma memória.

- Reitero as boas-vindas, pois bons ventos os trouxeram! - disse Berilafa, sentado na extremidade de uma longa mesa ao ar livre. Havia outras mesas, e algumas estruturas em volta indicavam que geralmente aquele lugar ficava coberto por muitos panos, provavelmente por causa do sol, agora ausente.
    - Agradecemos pela hospitalidade - disse Devdas, que comia avidamente os pães e carnes com temperos exóticos.
    - Não pretendemos demorar, partiremos logo e não os incomodaremos mais - apressou-se em explicar a guerreira.
    - Imagine! Lembre-se que pedi ao me filho que os buscasse, e isso não foi à toa.
    - Então... temos algum assunto a tratar? - perguntou Anidro.
    - Consultei os espíritos de meus ancestrais e eles me disseram que vocês derrotaram bandidos, diabos e gigantes. E por isso achei que vocês pudessem nos ajudar em troca de nossa hospitalidade e nosso ouro.
    - Bem... - começou Devdas, meio sem jeito, mas foi interrompida.
    - Nernufi, meu primo, é um excelente curandeiro e ele foi capaz de devolver a vida ao seu amigo meio-dragão - disse Berilafa, apontando um homem de bigodes negros e enrolados.
    - Sim - disse Nernufi, com um sorriso vitorioso no rosto. - A essência dele estava muito próxima do corpo, o que é muito raro, e foi uma tarefa rápida fazer com que voltasse à vida. Mas ele está muito ferido e fraco, recebendo cuidados especiais.
    - E onde ele está? - peguntou Anidro, levantando-se bruscamente e com a voz ligeiramente descontrolada.
    - Em minha casa - respondeu Berilafa, calmamente. - E vai permanecer lá, sem falar com ninguém até ficar melhor.
    Devdas teve a impressão de que estavam sendo chantageados, mas tentou manter a expressão calma. E depois de pensar por alguns segundos, terminou de mastigar e disse:
    - Então vamos esperar ele ficar bom para realizarmos a tarefa que você vai nos dar. Afinal, ele possui habilidades indispensáveis ao grupo.
    Berilafa concordou, para o espanto da moça, e começou a dar detalhes da situação:
    - Um dragão da areia mora aqui perto, em uma caverna. Ele exige oferendas.
    - Que tipo de oferendas? - perguntou Anidro, percebendo que o homem ficou algum tempo em silêncio. Devdas deu um leve tapa de "presta atenção" no irmão e fez sinal para que respeitasse os sentimentos dos outros.
    - Mulheres - disse afinal, causando murmurinhos em volta da mesa.
    - Um maldito dragão tarado? - gritou Devdas, indignada, logo percebendo a reação que causara. - Desculpem, fiquei transtornada...
    Devdas pensava em como um dragão poderia manter relações íntimas com uma humana, e ficou ruborizada por causa da imagem que sua imaginação concebeu.

[Leia a próxima parte]

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Projeto 99-222 - parte 42

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

O bárbaro e a necromante seguiram por um caminho aparentemente aleatório, mas logo Rham notou que sob seus pés havia uma larga estrada sob uma fina camada de areia, pavimentada com ossos largos e curtos como bloquetes. E quanto mais adentravam a Terra dos Ossos, Rham tinha mais certeza de que não poderia haver nome mais adequado para o lugar.
    Uma imponente cordilheira marcava os limites norte e oeste do deserto Holai-Kell, e era exatamente naquele canto da região mais árida de Aldetoron que surgira a surreal aberração óssea cuja área correspondia, não por acaso, à de uma grande cidade. O doentio branco amarelado do cálcio e da areia era a cor predominante.
    Um vento fraco, mas persistente, agitava as partes móveis das típicas estruturas osseototêmicas que brotavam por todos os lados. Mas ao observar com um pouco mais de atenção, Rham percebeu que boa parte da movimentação não era causada pelo vento, e que eles estavam cercados por uma horda de esqueletos curiosos, de vários tamanhos e formatos. O ogro identificou ali ossadas errantes que um dia haviam sido anões, humanos, shivus, haikas e até gigantescos protântilos.
    A maioria havia sido modificada para ter mais braços, caudas, cabeças extras ou membros maiores, com ossos substituídos pelos de outras raças para serem transformados em guardiões mais eficientes. Rham preferiu não pensar no que aquelas criaturas guardavam, ou nas criptas subterrâneas onde necromantes insanos possivelmente ensaiavam planos de dominação e, claro, de imortalidade.

- Mu'arsh ket Tukol - chamou Skelat, abrindo os braços para cumprimentar um desajeitado esqueleto constituído por uma cabeça de réptil, uma curta coluna cheia de costelas, duas maciças pernas e nada mais. Ele carregava uma sacola de couro protegida no interior da caixa torácica, e por isso Rham imaginou que talvez fosse algum tipo de "banco morto-vivo".
    - Então esses são os seus amigos - arriscou o ogro, forçando um sorriso enquanto observava o monstro se comportando como um cachorro feliz.
    - Só este aqui. Ainda não sou capaz de controlar muitos de uma vez - explicou ela.
    - E todos esses outros? - Rham não conseguia esconder o terror causado por toda aquela presença necrótica.
    - Pertencem a Alger, o lich que quero que você conheça.
    - Ah - confirmou o ogro, pensativo, erguendo as sobrancelhas. - E onde ele mora mesmo?
    - Naquela torre - respondeu Skelat, apontando uma estrutura óssea muito alta rodeada por nuvens trovejantes. - Demora muito ir caminhando, então vou providenciar umas montarias.
    Rham imaginou que ela fosse arranjar gigantescos e ameaçadores esqueletos quadrúpedes para que eles pudessem cavalgar, e para sua surpresa foi exatamente o que aconteceu.

* * *

Após se protegerem de imensas ondas feitas de areia e desviarem de um estranho navio que velejava pelo deserto (e cuja tripulação de homens-salamandra ignorou os acenos do grupo), Devdas, Anidro e Alodia permaneciam naquela região desolada, cuja visibilidade era possível graças à luminosidade alienígena provida pelas luas.
    Agora havia, visivelmente, algumas escadas sendo construídas pelas criaturas lunares, cujo objetivo era conectar seus planetóides à superfície de Aldetoron e permitir sua descida. À distância, as escadas pareciam pequenos apêndices, como se as luas estivessem deixando de ser "O" para se transformarem em "Q". Algumas já estavam completas, pois não precisavam ser construídas, bastando a realização de um ritual desconhecido ou simplesmente aguardar seu crescimento natural.
    - Achou alguma coisa? - perguntou Devdas ao irmão. Eles estavam procurando o corpo de Rham havia bastante tempo, e iniciavam naquele momento o sétimo descanso desde que iniciaram a busca.
    - Nada.
    Devido à noite permanente do Pesadelo, eles não tinham idéia de quanto tempo já tinham passado ali, na área onde acreditavam terem caído Rham, Estra e Edana. Nenhum dos três havia sido encontrado, o que não era de se estranhar já que as ondas de areia obliteravam rapidamente qualquer coisa que ficasse parada por muito tempo.
    - Melhor continuarmos andando - sugeriu Alodia, parecendo mais lúcida apesar dos cabelos desgrenhados e olhos abertos demais.
    - Pra você parece fácil falar! Estamos procurando duas mulheres da sua tripulação e você nem ajuda! - explodiu a guerreira de cabelos espetados.
    - Se ficarmos aqui, a areia vai nos cobrir enquanto dormimos - explicou a ex-capitã, aparentemente indiferente ao comentário de Devdas.
    - Então vamos dormir em turnos - interrompeu Anidro. - Não vou sair daqui até ter certeza de que... - e então o menino parou de falar, engasgado com um nó na garganta.
    Devdas veio abraçá-lo e Alodia fez uma careta estranha. O diabo linguarudo continuava rondando.
    Momentos depois os três perceberam um ruído ao longe e se viraram para observar. Era um objeto vermelho com brilho metálico vindo em alta velocidade, deixando um rastro esfumaçado de areia por onde passava.
    Tomando a frente e tomando postura defensiva, Devdas segurou os facões que ficavam nas extremidades de suas correntes e esperou.
    Logo era possível identificar que se tratava de um halinai, ou veículo motorizado (um carro, mais especificamente), tripulado por uma única pessoa. Tinha bancos de couro, vidros intactos, parachoque brilhante e faróis tão potentes que Devdas precisou proteger os olhos com o braço. Uma máquina incomum, mesmo nas cidades, devido ao elevado valor de sua manutenção.
    O ronco do motor e a iluminação frontal desapareceram quando o homem que o pilotava girou a chave ao lado do volante, desligando o veículo. Ele usava roupas claras e folgadas, tinha um nariz longo e encurvado e olhos pequenos, porém brilhantes e joviais.
    - Bons ventos! - cumprimentou, erguendo uma mão aberta. Ele estava sorrindo e parecia convicto de que não estava falando com pessoas hostis. Devdas não sabia se ele era muito confiante ou muito idiota.
    - Quem é você? - quis saber Devdas, desconfiada, sem baixar as armas.
    - Meu nome é Fabrak e você deve ser Revdas. E vocês devem ser Alondia e Enitro - arriscou o homem, com um forte sotaque.
    - Quase isso - disse Anidro. - Como você sabe?
    - Duas moças falaram muito de vocês. Onde estão o meio-dragão e o restante da tripulação? Ah, desculpem, esse deve ser o meio-dragão... - disse, apontando o corpo de Dourado.
    - Você encontrou duas de minhas meninas? Estra e Edana? - adiantou-se Alodia, esperançosa.
    - Sim! Venham, entrem no carro e deixem-me levá-los até a casa de meu pai - ofereceu Fabrak, abrindo a porta sob os olhares curiosos da guerreira e do pequeno paladino. A pirata entrou imediatamente.
    - Elas não falaram nada sobre um ogro, o Rham? - perguntou o menino, mesmo sabendo que provavelmente nenhuma pirata havia reparado no cadáver dentro do saco que eles havia levado a bordo.
    - Elas não falaram nada sobre ogros - disse Fabrak, franzindo a testa e abrindo o porta-malas para que colocassem a bagagem, incluindo o corpo de Dourado. - Vamos, precisamos ir porque logo os shir-nasstak vão chegar.
    E então, após uma longa troca de olhares e nenhuma palavra, os irmãos olharam mais uma vez o terreno em volta, como se fossem capazes de achar o corpo de Rham naquele instante. Depois entraram no carro lentamente, fazendo os amortecedores rangerem com o peso extra.

[Leia a próxima parte]