terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Projeto 99-222 - parte 44

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    - Podemos dizer que sim, um dragão tarado e pervertido - complementou Berilafa, arrancando mais conversas paralelas das pessoas em volta. Sua expressão era rígida e fria, como se estivesse contando um grande segredo apesar de haver tantas pessoas ouvindo. Logicamente todos ali sabiam do fato, e estavam claramente incomodados por terem que deixar os convidados saberem.
    Os músculos da face de Devdas se contorciam pela aversão à idéia. Ela detestava ter que tomar uma decisão tão repentina, mas se sentiu na obrigação de partir imediatamente para descobrir onde o tal dragão morava e como ele era. Mesmo sem Dourado.
    - E quando ele solicita... oferendas...  aonde vocês levam as moças? - perguntou afinal.
    - Pensei que quisesse esperar seu amigo ficar bom - interveio Nernufi, e Berilafa deixou escapar uma leve expressão de vitória pelos cantos da boca.
    - Vamos deixá-la fazer como quiser, primo. Se querem saber, peço ao meu filho que os leve até o lugar onde deixamos as oferendas - ofereceu o líder, usando a palavra "oferendas" a contragosto. - Não sabemos exatamente onde fica sua toca, mas não deve ser longe de lá.
    - Posso levá-los agora mesmo - ofereceu Fabrak, indicando seu espalhafatoso veículo, estacionado ali perto.
    Anidro e Devdas trocaram olhares, pegaram as mochilas e entraram no carro.

* * *

- É aqui - disse Fabrak, pisando no freio. Com a mão esquerda ele apontava, através da janela do veículo, na direção de uma duna.
    - Naquela duna? Achei que teria um altar ou coisa do tipo - confessou Anidro, incrédulo.
    - Bem, é um dragão da areia. Ele cria um ambiente cheio de ornamentos, inclusive um altar, quando chega a hora de receber oferendas. Ele molda tudo com areia.
    Devdas saiu do carro e pegou sua mochila. Suas correntes desenrolavam-se de seus braços como serpentes, enfiando-se na areia à procura de evidências de algum esconderijo subterrâneo.
    - A toca não deve ficar mais longe - sugeriu a guerreira. - Afinal, ele deve morar perto do oásis para garantir seu suprimento de água. Aliás, não duvido que encontremos algum túnel que leve diretamente para baixo do lugar onde vocês moram - concluiu ela, olhando sombriamente para Fabrak.
    - Você acha que o dragão vive embaixo dos pés do meu povo?
    - Ele precisa de água, e não sinto nenhuma umidade por aqui - disse Devdas puxando uma das correntes de volta. A outra, no entanto, permanecia debaixo da areia.
    - Achou alguma coisa, mana?
    - Achei um túnel. É melhor você voltar, Fabrak, antes que ele sinta o peso do seu veículo na areia. Talvez ele possa sentir a movimentação na superfície, da mesma fora que os vermes.
    - Se você diz...
    O homem se dirigiu rapidamente para a segurança, nitidamente aliviado por não ter sido convidado a seguir com eles. Devdas havia percebido seu medo, exatamente como havia percebido o medo de todos os outros durante a refeição enquanto conversavam sobre o dragão. E ela sabia que a criatura se aproveitava da situação para conseguir o que queria.
    Mais do que isso; o dragão provavelmente havia se tornado preguiçoso pela vida confortável que tinha. Ela imaginava que seria um alvo fácil, de musculatura flácida e cérebro lento, desacostumado com surpresas. E mal podia esperar para cravar suas lâminas naquele monstro depravado.
    - Então vamos descer? - perguntou Anidro, após um longo período que passara obresvando o céu escuro cada vez mais cheio de escadas lunares. Ele se esforçou para direcionar sua atenção para o dragão, já que não havia nada que se pudesse fazer com relação às escadas.
    - Vamos. Vai ser fácil - respondeu a mestra das correntes, cutucando o chão com o pé para encontrar o início da passagem. Logo conseguiu provocar a abertura de um buraco, e a areia logo começou a invadir a abertura.
    Sem perderem tempo, os dois pularam na escuridão, forçando os braços e as pernas contra as paredes estreitas para amortecer a queda. Vários metros abaixo a passagem começava a inclinar e ficar mais larga, até que se transformou em um túnel arredondado mais ou menos horizontal.
    Batendo uma tocha mágica contra a parede de areia compactada, Anidro iluminou o lugar. Com dois metros de diâmetro, o túnel dava uma idéia do tamanho do dragão que o escavara, e as marcas de pequenos dedos por toda a extensão indicavam que as vítimas eram levadas conscientes pelo trajeto.
    Não havia bifurcações e nem objetos largados pelo longo caminho. E pela direção em que seguiam, Devdas estava convencida de que eles estavam indo parar debaixo do vilarejo de Berilafa. As paredes estavam cada vez mais úmidas, o que indicava que estavam próximos do oásis.
    Então eles ouviram um gemido baixo, seguido por um grito agudo. Anidro sugeriu que apertassem o passo, e cada passo adiante permitia ouvir os gemidos com mais nitidez. Pouco tempo depois era possível sentir um leve cheiro de podridão no ar parado.
    - Melhor começarmos a baixar a luminosidade - sugeriu Anidro. - Senão ele vai perceber que...
    Mas o paladino não conseguiu terminar a frase. Uma rajada de vento cortante, carregado de areia muito fina, os atingiu como um raio. Devdas precisou dobrar os joelhos e inclinar o corpo para frente para permanecer de pé. Suas correntes já esvoaçavam à sua volta, como uma emanação de aço.
    Uma voz gutural veio da escuridão adiante, mas nenhum dos dois entendeu o que dizia.
    - Acho que está falando em dracônico - disse Anidro, desconfiado, e em seguida começou a conjurar escudos de proteção através de preces à deusa Villia.
    - EI! - gritou a guerreira, incapaz de ver o dono da estranha voz. - NÓS VIEMOS AVISAR QUE VOCÊ NÃO VAI TER MAIS OFERENDAS!
    Novos grunhidos ininteligíveis ecoaram em resposta, mas dessa vez pareceram carregar as palavras "cheguem mais perto" sob um fortíssimo sotaque. E no instante seguinte um grande aposento se iluminou alguns metros adiante, revelando um grande divã de ouro onde se deitava um enorme réptil marrom com características peculiares - incontáveis espinhos adornavam sua cabeça, sendo que os da mandíbula lembravam barbas. As escamas do corpo eram pontudas também, e pareciam espinhos quando se eriçavam. E também havia um par de grandes membranas que possivelmente funcionavam como asas. Elas começavam na base dos chifres espinhosos, passavam  pelas costas, onde tinham o tamanho máximo, e se juntavam na cauda.
    Apesar de pétreo, o rosto tinha alguma capacidade de expressão e os olhos amarelos brilhavam vividamente, curiosos. Mas havia outras coisas naquela câmara, além do dragão. Era difícil observar o resto enquanto a presença daquela incrível e sobrenatural criatura atraía toda a atenção, mas Devdas e Anidro notaram a existência de muitas ossadas em volta dele. E em meio aos ossos, uma mulher viva.
    Devdas ainda tinha esperanças secretas de que encontrassem simplesmente um dragão devorador de carne humana, e não um estuprador de humanas. Mas a mulher nua, deitada com o rosto no chão e com as pernas escancaradas, não deixou sombras de dúvidas - principalmente porque não estava morta e nem mordida. Ela gemia incessantemente por causa dos enormes buracos ensanguentados em que haviam se transformado sua vagina e seu ânus.
    Sem precisar de mais motivos, Devdas investiu contra o monstro, tomada por uma fúria cega. Suas correntes, cujas extremidades prendiam-se a grandes facões, atacavam o inimigo em movimentos que lembravam ferroadas de escorpião. Um grito de guerra ensurdecedor preencheu cada canto daquele covil, carregado de ódio e sede de vingança.
    Os facões perfuraram os ombros do dragão, servindo a partir de então como apoios que a guerreira utilizou para executar uma manobra aérea que a levaria direto à nuca do monstro. Assim que ela chegou à altura máxima, seus pés tocaram o teto, que era mais alto ali do que no túnel, e ela conseguiu dar alguns passos enquanto descrevia u arco no ar.
    Mas o oponente não era lento e nem possuía músculos flácidos como Devdas previra. Quando percebeu o objetivo da guerreira, o dragão segurou as correntes com as poderosas garras e puxou bara baixo, derrubando a invasora. E em seguida puxou as correntes para si, trazendo Devdas com elas.
    Apesar de atordoada, enquanto se aproximava rapidamente do dragão de areia Devdas pôde ver de relance o que parecia ser o pênis dele, que naquele momento estava ereto e sujo de sangue. E no instante seguinte foi atingida no rosto por uma joelhada.
    Anidro, que mal podia acreditar que acabara de ver um dragão desferir uma joelhada (ele achava que dragões somente mordiam), concentrou-se nas preces que mantinham a irmã protegida dos violentos ataques. Infelizmente ele não podia atacar enquanto estivesse concentrado em manter escudos de proteção tão potentes.

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1 comentários:

Heitor disse...

Que bicho mais nojento. Tomara que seja estripado.