[Leia
a parte anterior] [Leia
do começo]
O povoado onde vivia Fabrak era um grande oásis cercado por construções que, apesar de simples, davam um ar suntuoso devido à arquitetura cheia de curvas e colunas, típica do sul de Lushma. Uma vegetação de proporções exageradas, permeava os espaços entre as belas casas. Panos coloridos serviam como cortinas e toldos, e a luminosidade noturna das luas dava um aspecto misterioso ao local.
O carro chegou quebrando o clima calmo, os faróis iluminando a estrutura aberta e cheia de colunas quebradas que parecia servir de ponto de encontro dos moradores às margens do lago. A luz forte revelou que uma grande aglomeração ouvia atentamente as palavras de um homem de meia idade com uma barba branca, densa e cheia de tranças.
Tímidos por causa da súbita atenção conquistada, Anidro e Devdas permaneceram atrás de Fabrak quando saíram do veículo. O menino tinha a impressão de que aquelas pessoas estavam prestes a atacá-los, possuídas por criaturas lunares que teriam chegado ali antes deles, através das escadas. Mas felizmente isso não aconteceu.
- Meu pai, bons ventos! - disse Fabrak, abrindo os braços e caminhando na direção do homem que estava cercado por todas aquelas pessoas. O senhor, por sua vez, levantou-se da cadeira ornamentada e abraçou o filho.
- Você os encontrou onde eu mandei procurá-los? - perguntou o homem de pele bronzeada e muitas marcas de expressão no rosto. Sua voz era convicta e bela, e um grande turbante ornava sua cabeça.
- Sim, pai, na direção onde avistamos a aeronau caindo. Ah - exclamou Fabrak, virando-se para os convidados que terminavam de tirar as coisas do carro - deixem-me apresentá-los à minha família. Este é Berilafa, meu pai, e estas são Effara, Unalah - e assim continuou por vários minutos, dizendo o nome de cada pessoa. Eram algumas dezenas, todas com laços familiares. E várias das mulheres eram esposas de Berilafa.
Após as boas-vindas e uma rápida conversa, Anidro, que nunca tinha visto alguém com tantas esposas, comentou:
- O senhor deve ser muito viril.
As mulheres deram risadinhas e Berilafa tirou um pequeno frasco de uma das dobras de seu manto.
- Não tenho mais a vitalidade de quando eu era mais jovem, mas este óleo que trouxe da capital facilita minha tarefa. Aliás, se vocês me dão licença, preciso satisfazer minhas mulheres. Podem ficar naquela casa e conversaremos depois que vocês desacansarem.
A multidão então se dispersou e Devdas ficou muito constrangida com a naturalidade com que Berilafa falava de sua vida sexual, de modo que saiu apressada fingindo um bocejo. Ela não deixou de reparar que vários rapazes a observavam com nítido interesse e começou a pensar em Ceowulf, o marujo que os havia levado à Ilha Sauria. Parecia que havia se passado uma eternidade desde então, mas apesar disso ela conseguia se lembrar perfeitamente do rosto do capitão.
Alodia ficou muito feliz ao reencontrar suas amigas Estra e Edana e as três permaneceram perto do lago, onde a ex-capitã aceitou as bebidas oferecidas por um grupo de rapazes envoltos por largas túnicas. Ela logo se enturmou e descobriu que suas ex-tripulantes já haviam encontrado namorados e provavelmente se casariam em breve.
A falta do sol parecia ter mexido com a rotina do povoado. Vários foram dormir, outros participavam de um banquete e alguns poucos ficaram simplesmente sentados ali mesmo, na praça, encostados nas colunas de pedra aparentemente sem pensarem em nada.
Devdas acordou com a aproximação de um pequeno vulto com olhinhos brilhantes. Era Anidro, e ele parecia impressionado por algum motivo.
- O que foi? Espera aí, você ficou um tempão lá fora, não ficou? - quis saber a irmã, com aquela estranha sensação de quando se acorda em um lugar estranho. Fazia muito tempo que ela não dormia em lugares familiares, mas ela nunca deixou de ter aquela sensação.
- Eu vi uma coisa muito estranha, mas não quero comentar. É o Berilafa com as esposas, e aquele óleo...
- Você foi espionar?! - gritou Devdas, logo em seguida baixando o tom e se certificando de que ninguém lá fora havia escutado. - Eu não quero saber o que você viu, e quantas vezes preciso falar dessa sua curiosidade? Lembra-se do que a mamãe dizia?
- O que foi visto não pode ser desvisto - disse o menino, em tom monótono. - Mas aquele óleo faz cre...
- Não quero saber - cortou ela. - Agora vai dormir. Pelos deuses, nem parece um paladino!
Devdas voltou a se virar no colchão de penas, lembrando-se de quando conheceram os paladinos de Villia assim que chegaram em Aldetoron, logo após atravessarem involuntariamente as brumas. Eles disseram que o menino era um prodígio, mas tudo aquilo parecia, agora, mais um sonho do que uma memória.
- Reitero as boas-vindas, pois bons ventos os trouxeram! - disse Berilafa, sentado na extremidade de uma longa mesa ao ar livre. Havia outras mesas, e algumas estruturas em volta indicavam que geralmente aquele lugar ficava coberto por muitos panos, provavelmente por causa do sol, agora ausente.
- Agradecemos pela hospitalidade - disse Devdas, que comia avidamente os pães e carnes com temperos exóticos.
- Não pretendemos demorar, partiremos logo e não os incomodaremos mais - apressou-se em explicar a guerreira.
- Imagine! Lembre-se que pedi ao me filho que os buscasse, e isso não foi à toa.
- Então... temos algum assunto a tratar? - perguntou Anidro.
- Consultei os espíritos de meus ancestrais e eles me disseram que vocês derrotaram bandidos, diabos e gigantes. E por isso achei que vocês pudessem nos ajudar em troca de nossa hospitalidade e nosso ouro.
- Bem... - começou Devdas, meio sem jeito, mas foi interrompida.
- Nernufi, meu primo, é um excelente curandeiro e ele foi capaz de devolver a vida ao seu amigo meio-dragão - disse Berilafa, apontando um homem de bigodes negros e enrolados.
- Sim - disse Nernufi, com um sorriso vitorioso no rosto. - A essência dele estava muito próxima do corpo, o que é muito raro, e foi uma tarefa rápida fazer com que voltasse à vida. Mas ele está muito ferido e fraco, recebendo cuidados especiais.
- E onde ele está? - peguntou Anidro, levantando-se bruscamente e com a voz ligeiramente descontrolada.
- Em minha casa - respondeu Berilafa, calmamente. - E vai permanecer lá, sem falar com ninguém até ficar melhor.
Devdas teve a impressão de que estavam sendo chantageados, mas tentou manter a expressão calma. E depois de pensar por alguns segundos, terminou de mastigar e disse:
- Então vamos esperar ele ficar bom para realizarmos a tarefa que você vai nos dar. Afinal, ele possui habilidades indispensáveis ao grupo.
Berilafa concordou, para o espanto da moça, e começou a dar detalhes da situação:
- Um dragão da areia mora aqui perto, em uma caverna. Ele exige oferendas.
- Que tipo de oferendas? - perguntou Anidro, percebendo que o homem ficou algum tempo em silêncio. Devdas deu um leve tapa de "presta atenção" no irmão e fez sinal para que respeitasse os sentimentos dos outros.
- Mulheres - disse afinal, causando murmurinhos em volta da mesa.
- Um maldito dragão tarado? - gritou Devdas, indignada, logo percebendo a reação que causara. - Desculpem, fiquei transtornada...
Devdas pensava em como um dragão poderia manter relações íntimas com uma humana, e ficou ruborizada por causa da imagem que sua imaginação concebeu.
[Leia a próxima parte]
O povoado onde vivia Fabrak era um grande oásis cercado por construções que, apesar de simples, davam um ar suntuoso devido à arquitetura cheia de curvas e colunas, típica do sul de Lushma. Uma vegetação de proporções exageradas, permeava os espaços entre as belas casas. Panos coloridos serviam como cortinas e toldos, e a luminosidade noturna das luas dava um aspecto misterioso ao local.
O carro chegou quebrando o clima calmo, os faróis iluminando a estrutura aberta e cheia de colunas quebradas que parecia servir de ponto de encontro dos moradores às margens do lago. A luz forte revelou que uma grande aglomeração ouvia atentamente as palavras de um homem de meia idade com uma barba branca, densa e cheia de tranças.
Tímidos por causa da súbita atenção conquistada, Anidro e Devdas permaneceram atrás de Fabrak quando saíram do veículo. O menino tinha a impressão de que aquelas pessoas estavam prestes a atacá-los, possuídas por criaturas lunares que teriam chegado ali antes deles, através das escadas. Mas felizmente isso não aconteceu.
- Meu pai, bons ventos! - disse Fabrak, abrindo os braços e caminhando na direção do homem que estava cercado por todas aquelas pessoas. O senhor, por sua vez, levantou-se da cadeira ornamentada e abraçou o filho.
- Você os encontrou onde eu mandei procurá-los? - perguntou o homem de pele bronzeada e muitas marcas de expressão no rosto. Sua voz era convicta e bela, e um grande turbante ornava sua cabeça.
- Sim, pai, na direção onde avistamos a aeronau caindo. Ah - exclamou Fabrak, virando-se para os convidados que terminavam de tirar as coisas do carro - deixem-me apresentá-los à minha família. Este é Berilafa, meu pai, e estas são Effara, Unalah - e assim continuou por vários minutos, dizendo o nome de cada pessoa. Eram algumas dezenas, todas com laços familiares. E várias das mulheres eram esposas de Berilafa.
Após as boas-vindas e uma rápida conversa, Anidro, que nunca tinha visto alguém com tantas esposas, comentou:
- O senhor deve ser muito viril.
As mulheres deram risadinhas e Berilafa tirou um pequeno frasco de uma das dobras de seu manto.
- Não tenho mais a vitalidade de quando eu era mais jovem, mas este óleo que trouxe da capital facilita minha tarefa. Aliás, se vocês me dão licença, preciso satisfazer minhas mulheres. Podem ficar naquela casa e conversaremos depois que vocês desacansarem.
A multidão então se dispersou e Devdas ficou muito constrangida com a naturalidade com que Berilafa falava de sua vida sexual, de modo que saiu apressada fingindo um bocejo. Ela não deixou de reparar que vários rapazes a observavam com nítido interesse e começou a pensar em Ceowulf, o marujo que os havia levado à Ilha Sauria. Parecia que havia se passado uma eternidade desde então, mas apesar disso ela conseguia se lembrar perfeitamente do rosto do capitão.
Alodia ficou muito feliz ao reencontrar suas amigas Estra e Edana e as três permaneceram perto do lago, onde a ex-capitã aceitou as bebidas oferecidas por um grupo de rapazes envoltos por largas túnicas. Ela logo se enturmou e descobriu que suas ex-tripulantes já haviam encontrado namorados e provavelmente se casariam em breve.
A falta do sol parecia ter mexido com a rotina do povoado. Vários foram dormir, outros participavam de um banquete e alguns poucos ficaram simplesmente sentados ali mesmo, na praça, encostados nas colunas de pedra aparentemente sem pensarem em nada.
Devdas acordou com a aproximação de um pequeno vulto com olhinhos brilhantes. Era Anidro, e ele parecia impressionado por algum motivo.
- O que foi? Espera aí, você ficou um tempão lá fora, não ficou? - quis saber a irmã, com aquela estranha sensação de quando se acorda em um lugar estranho. Fazia muito tempo que ela não dormia em lugares familiares, mas ela nunca deixou de ter aquela sensação.
- Eu vi uma coisa muito estranha, mas não quero comentar. É o Berilafa com as esposas, e aquele óleo...
- Você foi espionar?! - gritou Devdas, logo em seguida baixando o tom e se certificando de que ninguém lá fora havia escutado. - Eu não quero saber o que você viu, e quantas vezes preciso falar dessa sua curiosidade? Lembra-se do que a mamãe dizia?
- O que foi visto não pode ser desvisto - disse o menino, em tom monótono. - Mas aquele óleo faz cre...
- Não quero saber - cortou ela. - Agora vai dormir. Pelos deuses, nem parece um paladino!
Devdas voltou a se virar no colchão de penas, lembrando-se de quando conheceram os paladinos de Villia assim que chegaram em Aldetoron, logo após atravessarem involuntariamente as brumas. Eles disseram que o menino era um prodígio, mas tudo aquilo parecia, agora, mais um sonho do que uma memória.
- Reitero as boas-vindas, pois bons ventos os trouxeram! - disse Berilafa, sentado na extremidade de uma longa mesa ao ar livre. Havia outras mesas, e algumas estruturas em volta indicavam que geralmente aquele lugar ficava coberto por muitos panos, provavelmente por causa do sol, agora ausente.
- Agradecemos pela hospitalidade - disse Devdas, que comia avidamente os pães e carnes com temperos exóticos.
- Não pretendemos demorar, partiremos logo e não os incomodaremos mais - apressou-se em explicar a guerreira.
- Imagine! Lembre-se que pedi ao me filho que os buscasse, e isso não foi à toa.
- Então... temos algum assunto a tratar? - perguntou Anidro.
- Consultei os espíritos de meus ancestrais e eles me disseram que vocês derrotaram bandidos, diabos e gigantes. E por isso achei que vocês pudessem nos ajudar em troca de nossa hospitalidade e nosso ouro.
- Bem... - começou Devdas, meio sem jeito, mas foi interrompida.
- Nernufi, meu primo, é um excelente curandeiro e ele foi capaz de devolver a vida ao seu amigo meio-dragão - disse Berilafa, apontando um homem de bigodes negros e enrolados.
- Sim - disse Nernufi, com um sorriso vitorioso no rosto. - A essência dele estava muito próxima do corpo, o que é muito raro, e foi uma tarefa rápida fazer com que voltasse à vida. Mas ele está muito ferido e fraco, recebendo cuidados especiais.
- E onde ele está? - peguntou Anidro, levantando-se bruscamente e com a voz ligeiramente descontrolada.
- Em minha casa - respondeu Berilafa, calmamente. - E vai permanecer lá, sem falar com ninguém até ficar melhor.
Devdas teve a impressão de que estavam sendo chantageados, mas tentou manter a expressão calma. E depois de pensar por alguns segundos, terminou de mastigar e disse:
- Então vamos esperar ele ficar bom para realizarmos a tarefa que você vai nos dar. Afinal, ele possui habilidades indispensáveis ao grupo.
Berilafa concordou, para o espanto da moça, e começou a dar detalhes da situação:
- Um dragão da areia mora aqui perto, em uma caverna. Ele exige oferendas.
- Que tipo de oferendas? - perguntou Anidro, percebendo que o homem ficou algum tempo em silêncio. Devdas deu um leve tapa de "presta atenção" no irmão e fez sinal para que respeitasse os sentimentos dos outros.
- Mulheres - disse afinal, causando murmurinhos em volta da mesa.
- Um maldito dragão tarado? - gritou Devdas, indignada, logo percebendo a reação que causara. - Desculpem, fiquei transtornada...
Devdas pensava em como um dragão poderia manter relações íntimas com uma humana, e ficou ruborizada por causa da imagem que sua imaginação concebeu.
[Leia a próxima parte]



1 comentários:
HAuHAUAhUahUAhUAh
"What is seen, can not be unseen"
HAUHAUHAuHAuHA
Postar um comentário