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do começo]
- Yarn! Shalkpash kun oghro perkmesh'ik? - perguntou para si mesma a viajante do deserto. A mulher usava vestes negras e largas, com um capuz, e havia corrido na direção do objeto que havia caído do céu. Olhando de perto o que ela já imaginava ser uma criatura, constatou tratar-se de um ogro morto havia algum tempo, já que o processo de decomposição deixara horrorosas marcas pelo enorme corpo. Grandes feridas espalhavam-se pelo peito e pelo abdome. Um objeto maior, de onde parecia ter vindo o ogro, descrevia uma perigosa rota aérea rumo ao chão vários quilômetrops adiante.
Se Rham pudesse ver, estaria observando uma jovem de pele muito branca com acessórios macabros. Ela usava alguns colares de ossos, inclusive com pequenos crânios de primatas e roedores. As pulseiras, os brincos e os anéis tinham a mesma cor esbranquiçada, o que indicava terem sido feitos da mesma matéria-prima.
A mulher falava o tempo todo consigo mesma, evidenciando os terríveis dentes afiados pelos quais havia trocado os próprios dentes ao longo dos anos, através de rituais sangrentos que a ensinaram a dominar a dor. Ela tinha cheiro de morte e mexia muito os dedos compridos, sob cujas unhas acumulavam-se restos de carne podre. Apesar disso, ela demonstrava graça em seus movimentos e tinha uma beleza selvagem nos traços.
- Surjes lempash, oghro - disse ela, umedecendo a pele de Rham com um óleo escuro e fedorento. A seguir ela murmurou algumas frases curtas com uma voz grave, continuando o processo manual. Quando terminou, começou a perguntar:
- Oghro, kash ti pakjat?
Rham permaneceu inerte.
- Oggro, tpav ayarvej?
Ainda nenhuma reação.
- Ogro, como se chama?
As pálpebras de Rham revelaram olhos baços e ressecados. Ele piscou muitas vezes e levou a mão à cabeça, como se estivesse com dor.
- Eu sou Rham - respondeu mecanicamente, parecendo pensativo. - Onde estão... onde estão os... como era o nome dele mesmo...?
- Rham, meu nome é Skelat e eu devolvi a sua vida - disse a moça, sem cerimônias. Ela tinha um olhar ousado sob as pálpebras semicerradas, e agora que ela havia erguido o rosto era possível ver as pinturas em sua face; traços grossos contornavam os olhos e as maçãs do rosto, das orelhas aos cantos da boca. Outros traços cruzavam a boca da altura da base do nariz até o meio do queixo, de modo que o conjunto formava a imagem de um crânio.
- Obrigado - disse Rham, sincero. - Não sei como agradecer.
Ele apalpou os bolsos como se procurasse dinheiro, e então a mão esbarrou na flor que crescia em seu umbigo. Ele a arrancou sem pensar duas vezes.
- Pegue esta lembrança. É rara... eu acho.
Skelat pegou a flor e sorriu. O ogro se assustou ao perceber dentes de cobras e coiotes naquele sorriso, mas preferiu não mencionar suas impressões.
Os dois caminharam até uma estranha formação óssea onde havia uma mochila de couro pendurada. Era uma coluna de cerca de dois metros feita basicamente de fêmures e caixas torácicas. Por trás das costelas havia crânios e tudo era rodeado por uma espécie de corda feita de vértebras e falanges. Parecia a Rham um tipo de obra de arte, ou talvez um totem, mas o que importava era a sombra que aquilo projetava.
Eles conversaram durante horas sobre o sol duplicado e o Pesadelo iminente. Também especularam sobre o passado de Rham, mas ele definitivamente não se lembrava de nomes ou detalhes de eventos, o que Skelet disse ser normal. E quando a noite caiu o ogro reparou que suas feridas estavam fechadas por uma substância acizentada, semitransparente e gosmenta. Suas costelas e órgãos internos eram visíveis através de um grande machucado cheio da substância.
- A Terra dos Ossos está cuidando de você, e é melhor que você agradeça - avisou a moça, que Rham descobrira ser uma necromante.
- Terra dos Ossos? Só por causa deste totem de osso? E eu pensei que fosse você quem tivesse me ajudado - retorquiu o ogro.
- Estamos nos limites meridionais da Terra dos Ossos, e esta aqui é uma simples amostra do que você vai encontrar mais adiante. Eu só achei a sua essência muito próxima do seu corpo, e por isso só precisei... como se diz... empurrar de volta - explicou Skelat, tirando o capuz agora que não havia mais sol. Ela tinha longos cabelos negros e lisos, presos atrás da cabeça com a ajuda de mais ornamentos ósseos. - É bem difícil a essência de alguém ficar tão ligada ao corpo, a não ser que você seja um aldeukurlos, ou seja, nativo de fora do mundo-sonho.
- Eu? Não, não nasci fora deste mundo - afirmou Rham, enfático, mas os olhos da necromante o fitavam com interesse cada vez maior.
- Tem certeza?
- Sei lá... talvez eu tenha chegado aqui muito pequeno e por isso não me lembro.
- Podemos tentar descobrir de que mundo você veio. Conheço um lich muito poderoso.
Rham foi atiçado por uma curiosidade que o impediu de negar a oferta.
- Bom... você disse que eu tenho que agradecer a Terra dos Ossos, certo? Talvez no caminho eu possa conhecer esse seu amigo lich - cogitou o bárbaro, levantando-se com a ajuda do insólito apoio esqueletal. E em seguida limpou supersticiosamente as mãos nas calças rasgadas ao perceber que havia encostado no objeto. Sua mente viajava pelas idéias decorrentes da descoberta de que poderia ter vindo de outro mundo, e por um momento sentiu um frio na espinha ao lembrar dos argumentos de Jocasius na Taverna do Amigo Morto. "Por alguns instantes tive a mesma sensação de ter morrido em um sonho", tinha dito o companheiro naquela ocasião. E era assim que Rham se sentia agora.
- Fiz você pensar, hein? - provocou Skelat enquanto pegava sua mochila e guardava suas coisas para poderem partir.
- Pra uma necromante, você até que é gente boa - soltou Rham. - Você tem dentes afiados e uma maquiagem terrível, mas não é nada má.
- Oras, Rham... Não costumo me abrir com outras pessoas. Na verdade a última conversa longa e agradável que tive com alguém foi há muito tempo. Era um menino-esqueleto chamado Astur, e por incrível que pareça vocês têm alguns trejeitos em comum.
[Leia a próxima parte]
- Yarn! Shalkpash kun oghro perkmesh'ik? - perguntou para si mesma a viajante do deserto. A mulher usava vestes negras e largas, com um capuz, e havia corrido na direção do objeto que havia caído do céu. Olhando de perto o que ela já imaginava ser uma criatura, constatou tratar-se de um ogro morto havia algum tempo, já que o processo de decomposição deixara horrorosas marcas pelo enorme corpo. Grandes feridas espalhavam-se pelo peito e pelo abdome. Um objeto maior, de onde parecia ter vindo o ogro, descrevia uma perigosa rota aérea rumo ao chão vários quilômetrops adiante.
Se Rham pudesse ver, estaria observando uma jovem de pele muito branca com acessórios macabros. Ela usava alguns colares de ossos, inclusive com pequenos crânios de primatas e roedores. As pulseiras, os brincos e os anéis tinham a mesma cor esbranquiçada, o que indicava terem sido feitos da mesma matéria-prima.
A mulher falava o tempo todo consigo mesma, evidenciando os terríveis dentes afiados pelos quais havia trocado os próprios dentes ao longo dos anos, através de rituais sangrentos que a ensinaram a dominar a dor. Ela tinha cheiro de morte e mexia muito os dedos compridos, sob cujas unhas acumulavam-se restos de carne podre. Apesar disso, ela demonstrava graça em seus movimentos e tinha uma beleza selvagem nos traços.
- Surjes lempash, oghro - disse ela, umedecendo a pele de Rham com um óleo escuro e fedorento. A seguir ela murmurou algumas frases curtas com uma voz grave, continuando o processo manual. Quando terminou, começou a perguntar:
- Oghro, kash ti pakjat?
Rham permaneceu inerte.
- Oggro, tpav ayarvej?
Ainda nenhuma reação.
- Ogro, como se chama?
As pálpebras de Rham revelaram olhos baços e ressecados. Ele piscou muitas vezes e levou a mão à cabeça, como se estivesse com dor.
- Eu sou Rham - respondeu mecanicamente, parecendo pensativo. - Onde estão... onde estão os... como era o nome dele mesmo...?
- Rham, meu nome é Skelat e eu devolvi a sua vida - disse a moça, sem cerimônias. Ela tinha um olhar ousado sob as pálpebras semicerradas, e agora que ela havia erguido o rosto era possível ver as pinturas em sua face; traços grossos contornavam os olhos e as maçãs do rosto, das orelhas aos cantos da boca. Outros traços cruzavam a boca da altura da base do nariz até o meio do queixo, de modo que o conjunto formava a imagem de um crânio.
- Obrigado - disse Rham, sincero. - Não sei como agradecer.
Ele apalpou os bolsos como se procurasse dinheiro, e então a mão esbarrou na flor que crescia em seu umbigo. Ele a arrancou sem pensar duas vezes.
- Pegue esta lembrança. É rara... eu acho.
Skelat pegou a flor e sorriu. O ogro se assustou ao perceber dentes de cobras e coiotes naquele sorriso, mas preferiu não mencionar suas impressões.
Os dois caminharam até uma estranha formação óssea onde havia uma mochila de couro pendurada. Era uma coluna de cerca de dois metros feita basicamente de fêmures e caixas torácicas. Por trás das costelas havia crânios e tudo era rodeado por uma espécie de corda feita de vértebras e falanges. Parecia a Rham um tipo de obra de arte, ou talvez um totem, mas o que importava era a sombra que aquilo projetava.
Eles conversaram durante horas sobre o sol duplicado e o Pesadelo iminente. Também especularam sobre o passado de Rham, mas ele definitivamente não se lembrava de nomes ou detalhes de eventos, o que Skelet disse ser normal. E quando a noite caiu o ogro reparou que suas feridas estavam fechadas por uma substância acizentada, semitransparente e gosmenta. Suas costelas e órgãos internos eram visíveis através de um grande machucado cheio da substância.
- A Terra dos Ossos está cuidando de você, e é melhor que você agradeça - avisou a moça, que Rham descobrira ser uma necromante.
- Terra dos Ossos? Só por causa deste totem de osso? E eu pensei que fosse você quem tivesse me ajudado - retorquiu o ogro.
- Estamos nos limites meridionais da Terra dos Ossos, e esta aqui é uma simples amostra do que você vai encontrar mais adiante. Eu só achei a sua essência muito próxima do seu corpo, e por isso só precisei... como se diz... empurrar de volta - explicou Skelat, tirando o capuz agora que não havia mais sol. Ela tinha longos cabelos negros e lisos, presos atrás da cabeça com a ajuda de mais ornamentos ósseos. - É bem difícil a essência de alguém ficar tão ligada ao corpo, a não ser que você seja um aldeukurlos, ou seja, nativo de fora do mundo-sonho.
- Eu? Não, não nasci fora deste mundo - afirmou Rham, enfático, mas os olhos da necromante o fitavam com interesse cada vez maior.
- Tem certeza?
- Sei lá... talvez eu tenha chegado aqui muito pequeno e por isso não me lembro.
- Podemos tentar descobrir de que mundo você veio. Conheço um lich muito poderoso.
Rham foi atiçado por uma curiosidade que o impediu de negar a oferta.
- Bom... você disse que eu tenho que agradecer a Terra dos Ossos, certo? Talvez no caminho eu possa conhecer esse seu amigo lich - cogitou o bárbaro, levantando-se com a ajuda do insólito apoio esqueletal. E em seguida limpou supersticiosamente as mãos nas calças rasgadas ao perceber que havia encostado no objeto. Sua mente viajava pelas idéias decorrentes da descoberta de que poderia ter vindo de outro mundo, e por um momento sentiu um frio na espinha ao lembrar dos argumentos de Jocasius na Taverna do Amigo Morto. "Por alguns instantes tive a mesma sensação de ter morrido em um sonho", tinha dito o companheiro naquela ocasião. E era assim que Rham se sentia agora.
- Fiz você pensar, hein? - provocou Skelat enquanto pegava sua mochila e guardava suas coisas para poderem partir.
- Pra uma necromante, você até que é gente boa - soltou Rham. - Você tem dentes afiados e uma maquiagem terrível, mas não é nada má.
- Oras, Rham... Não costumo me abrir com outras pessoas. Na verdade a última conversa longa e agradável que tive com alguém foi há muito tempo. Era um menino-esqueleto chamado Astur, e por incrível que pareça vocês têm alguns trejeitos em comum.
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