segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Projeto 99-222 - parte 41

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- Yarn! Shalkpash kun oghro perkmesh'ik? - perguntou para si mesma a viajante do deserto. A mulher usava vestes negras e largas, com um capuz, e havia corrido na direção do objeto que havia caído do céu. Olhando de perto o que ela já imaginava ser uma criatura, constatou tratar-se de um ogro morto havia algum tempo, já que o processo de decomposição deixara horrorosas marcas pelo enorme corpo. Grandes feridas espalhavam-se pelo peito e pelo abdome. Um objeto maior, de onde parecia ter vindo o ogro, descrevia uma perigosa rota aérea rumo ao chão vários quilômetrops adiante.
    Se Rham pudesse ver, estaria observando uma jovem de pele muito branca com acessórios macabros. Ela usava alguns colares de ossos, inclusive com pequenos crânios de primatas e roedores. As pulseiras, os brincos e os anéis tinham a mesma cor esbranquiçada, o que indicava terem sido feitos da mesma matéria-prima.
    A mulher falava o tempo todo consigo mesma, evidenciando os terríveis dentes afiados pelos quais havia trocado os próprios dentes ao longo dos anos, através de rituais sangrentos que a ensinaram a dominar a dor. Ela tinha cheiro de morte e mexia muito os dedos compridos, sob cujas unhas acumulavam-se restos de carne podre. Apesar disso, ela demonstrava graça em seus movimentos e tinha uma beleza selvagem nos traços.
    - Surjes lempash, oghro - disse ela, umedecendo a pele de Rham com um óleo escuro e fedorento. A seguir ela murmurou algumas frases curtas com uma voz grave, continuando o processo manual. Quando terminou, começou a perguntar:
    - Oghro, kash ti pakjat?
    Rham permaneceu inerte.
    - Oggro, tpav ayarvej?
    Ainda nenhuma reação.
    - Ogro, como se chama?
    As pálpebras de Rham revelaram olhos baços e ressecados. Ele piscou muitas vezes e levou a mão à cabeça, como se estivesse com dor.
    - Eu sou Rham - respondeu mecanicamente, parecendo pensativo. - Onde estão... onde estão os... como era o nome dele mesmo...?
    - Rham, meu nome é Skelat e eu devolvi a sua vida - disse a moça, sem cerimônias. Ela tinha um olhar ousado sob as pálpebras semicerradas, e agora que ela havia erguido o rosto era possível ver as pinturas em sua face; traços grossos contornavam os olhos e as maçãs do rosto, das orelhas aos cantos da boca. Outros traços cruzavam a boca da altura da base do nariz até o meio do queixo, de modo que o conjunto formava a imagem de um crânio.
    - Obrigado - disse Rham, sincero. - Não sei como agradecer.
    Ele apalpou os bolsos como se procurasse dinheiro, e então a mão esbarrou na flor que crescia em seu umbigo. Ele a arrancou sem pensar duas vezes.
    - Pegue esta lembrança. É rara... eu acho.
    Skelat pegou a flor e sorriu. O ogro se assustou ao perceber dentes de cobras e coiotes naquele sorriso, mas preferiu não mencionar suas impressões.
    Os dois caminharam até uma estranha formação óssea onde havia uma mochila de couro pendurada. Era uma coluna de cerca de dois metros feita basicamente de fêmures e caixas torácicas. Por trás das costelas havia crânios e tudo era rodeado por uma espécie de corda feita de vértebras e falanges. Parecia a Rham um tipo de obra de arte, ou talvez um totem, mas o que importava era a sombra que aquilo projetava.
    Eles conversaram durante horas sobre o sol duplicado e o Pesadelo iminente. Também especularam sobre o passado de Rham, mas ele definitivamente não se lembrava de nomes ou detalhes de eventos, o que Skelet disse ser normal. E quando a noite caiu o ogro reparou que suas feridas estavam fechadas por uma substância acizentada, semitransparente e gosmenta. Suas costelas e órgãos internos eram visíveis através de um grande machucado cheio da substância.
    - A Terra dos Ossos está cuidando de você, e é melhor que você agradeça - avisou a moça, que Rham descobrira ser uma necromante.
    - Terra dos Ossos? Só por causa deste totem de osso? E eu pensei que fosse você quem tivesse me ajudado - retorquiu o ogro.
    - Estamos nos limites meridionais da Terra dos Ossos, e esta aqui é uma simples amostra do que você vai encontrar mais adiante. Eu só achei a sua essência muito próxima do seu corpo, e por isso só precisei... como se diz... empurrar de volta - explicou Skelat, tirando o capuz agora que não havia mais sol. Ela tinha longos cabelos negros e lisos, presos atrás da cabeça com a ajuda de mais ornamentos ósseos. - É bem difícil a essência de alguém ficar tão ligada ao corpo, a não ser que você seja um aldeukurlos, ou seja, nativo de fora do mundo-sonho.
    - Eu? Não, não nasci fora deste mundo - afirmou Rham, enfático, mas os olhos da necromante o fitavam com interesse cada vez maior.
    - Tem certeza?
    - Sei lá... talvez eu tenha chegado aqui muito pequeno e por isso não me lembro.
    - Podemos tentar descobrir de que mundo você veio. Conheço um lich muito poderoso.
    Rham foi atiçado por uma curiosidade que o impediu de negar a oferta.
    - Bom... você disse que eu tenho que agradecer a Terra dos Ossos, certo? Talvez no caminho eu possa conhecer esse seu amigo lich - cogitou o bárbaro, levantando-se com a ajuda do insólito apoio esqueletal. E em seguida limpou supersticiosamente as mãos nas calças rasgadas ao perceber que havia encostado no objeto. Sua mente viajava pelas idéias decorrentes da descoberta de que poderia ter vindo de outro mundo, e por um momento sentiu um frio na espinha ao lembrar dos argumentos de Jocasius na Taverna do Amigo Morto. "Por alguns instantes tive a mesma sensação de ter morrido em um sonho", tinha dito o companheiro naquela ocasião. E era assim que Rham se sentia agora.
    - Fiz você pensar, hein? - provocou Skelat enquanto pegava sua mochila e guardava suas coisas para poderem partir.
    - Pra uma necromante, você até que é gente boa - soltou Rham. - Você tem dentes afiados e uma maquiagem terrível, mas não é nada má.
    - Oras, Rham... Não costumo me abrir com outras pessoas. Na verdade a última conversa longa e agradável que tive com alguém foi há muito tempo. Era um menino-esqueleto chamado Astur, e por incrível que pareça vocês têm alguns trejeitos em comum.

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Projeto 99-222 - parte 40

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Não foi fácil pegar no sono. Coisas vivas roçavam no madeirame, do lado de fora, e a estrutura toda tremia sob a violência da tempestade de fogo. Ao menos a queda havia provocado um impacto suficiente para afundar boa parte da aeronau na areia, pois do contrário eles não teriam a mínima chance de sobreviver.
    Os irmãos Ablin eram os únicos restantes de um grupo que, inicialmente, tinha cinco integrantes. Jocasius fora o primeiro a partir, quando eles ainda estavam em Gwarer. Rham tombara no combate contra o terrível gigante metamorfo, e agora eles haviam perdido Dourado para a chuva de meteoros.
    Devdas e Anidro mantinham-se abraçados, congelados perante a violência da situação. Conversaram sobre como ficavam assim, abraçados no escuro, anos atrás em seu antigo mundo. O semiplano do terror, ou Ravenloft, guardava perigos constantes e enlouquecedores que os atormentava até o dia em que desapareceram na misteriosa névoa que os levou embora. Mas nada se comparava ao que estavam passando nessas úlimas semanas.
    - Irmã... - começou Anidro, quase sussurrando.
    - O que foi?
    - Sempre me lembro daquele dia na taverna, quando o Dourado pediu aquele prato caro.
    - Sei. Parece que faz tanto tempo...
    - Pode parecer bobagem... - continuou o menino, parecendo sem forças para comentar sobre o assunto - Mas é que não lembro direito de como conhecemos o Joca, o Rham e o Dourado.
    Devdas pensou por alguns instantes e chegou à mesma conclusão.
    - Nunca parei pra pensar nisso, mas me lembro de coisas que fizemos juntos antes daquele dia.
    - Também lembro - rebateu Anidro, erguendo um pouco a voz. - Mas não consigo me lembrar de ter sentado naquela cadeira, ou de ter entrado pela porta da taverna.
    - Ah, sim, você bebeu cerveja naquele dia! - disse Devdas, com tom de reprovação. - E bebidas assim não são para crianças.
    Os dois então se calaram para poderem prestar mais atenção aos ruídos do exterior. Além disso, precisavam ao menos descansar um pouco.
    A capitã Alodia, que infelizmente acabara de perder o título devido à falta de subalternos, estava deitada em outro canto da casa de máquinas. Cada ruído desconhecido que chegava aos seus ouvidos forçava seu corpo a se contrair mais e mais, até que atingiu postura fetal. Sua sanidade ia sendo levada embora por ventos invisíveis que empurravam velas em mastros imaginários através de sonhos confusos pelos mares da nostalgia.

O súbito silêncio acordou os três ao mesmo tempo. A barulheira monótona da tempestade de fogo que embalara seus sonos finalmente havia cessado, atiçando seus cérebros a despertarem para verificar a mudança no ambiente.
    Fendas no teto deixavam passar pequenos fios de areia, e isso era um sinal de que em algum tempo o lugar estaria totalmente invadido pelos finíssimos grãos.
    A passagem por onde haviam entrado estava totalmente bloqueada por escombros, de modo que precisaram abrir uma escotilha. Logicamente o ambiente foi inundado pela areia, pois acima deles já havia se formado um grande acúmulo por causa do "mau tempo". Pela abertura era possível vislumbrar o terrível céu noturno inundado por infinitas luas. Algumas delas tinham brilho próprio, o que deixava a noite com um jeito permanente de ocaso ou crepúsculo.
    - Não acredito! - disse Alodia, a primeira a sair.
    - O que você viu? - quis saber Devdas.
    - Nada.
    - Fala pra gente! - precipitou-se Anidro, interessadíssimo.
    - Já falei, não tem nada aqui. Nem escombros, nem meteoros, nem corpos. Nada.
    Os irmãos saíram e confirmaram com os próprios olhos. Aparentemente uma tempestade de areia havia varrido qualquer evidência do ocorrido no dia anterior, como se nada tivesse acontecido.
    Anidro começou a chorar, explicando que seria impossível ressuscitar os companheiros sem os corpos, ou ao menos algum objeto pessoal deles. Então ele começou a cavar, procurando por Dourado.
    - Se você perder tempo procurando este, vai ser impossível encontrar o ogro que caiu - lembrou Alodia, com um sorriso frio no rosto e os olhos vidrados. Sua voz era baixa e monotônica - A cada instante, onde quer que ele esteja, mais areia se acumula em cima dele.
    - Por que dizer isso? - perguntou Devdas, indignada. - Por que falar assim? Você perdeu a cabeça?
    - Eu perdi tudo - confessou a pirata, soltando uma gargalhada indescritível, a não ser pelo caráter insano.
    Devdas foi ajudar o irmão a procurar pelo amigo soterrado. Poderiam levar muito tempo, e talvez precisassem voltar para o abrigo quando amanhecesse. Alodia permaneceu de pé onde estava, olhando para um estranho vulto ao longe o tempo todo. Ela balbuciava palavras ininteligíveis e parecia recuperar parcialmente a lucidez toda vez que começava a escorrer baba pelo queixo. Os dois irmãos pareciam ocupados demais para perceberem aquela presença, e a pirata tinha a impressão de que se tratava de um humanóide com vários braços caminhando bem devagar na direção deles. A cada vez que o paladino ou a guerreira olhavam para aquele lado, ele se abaixava rapidamente.
    Anidro então se lembrou que suas preces poderiam ajudá-lo, e seus campos de força poderiam ajudar a afastar a areia. E Devdas tinha suas correntes que podiam tatear pelos escombros escondidos sem a necessidade de escavar. Muito tempo se passou até que finalmente resgataram Dourado, e eles lamentaram a morte do amigo enquanto olhavam para o corpo parcialmente desconstruído. Havia muitos ossos à mostra e não havia sobrado muito de sua armadura, e antes que ficassem muito emotivos, Anidro lembrou que seria melhor buscarem as mochilas para poderem sair logo dali.
    - Acabei de me lembrar que não vai ter mais sol por um bom tempo - disse o menino.
    - Não vai amanhecer? - quis saber Devdas.
    - Durante os Pesadelos Laefel é expulso do mundo-sonho.
    - Ah, entendi... E como ele é o sol, significa que não vai amanhecer por um tempo - concluiu a guerreira. - E isso também significa que o deserto não vai esquentar, e por isso podemos caminhar pelo tempo necessário sem risco de morrermos escaldados, certo?
    Anidro confirmou com a cabeça e os dois voltaram novamente os olhares para Dourado no chão. O crânio revelava ainda mais de sua herança dracônica, e esta constatação umedeceu os olhos de Devdas. Ela o pegou e colocou sobre o ombro daquele jeito mesmo, pois não tinham nenhum saco.
    - Agora precisamos ir atrás do Rham - disse Anidro, com tristeza.
    Com a mão livre, Devdas puxou Alodia, que os seguiu silenciosa. Ela continuou olhando o estranho por mais alguns segundos, que estava mais próximo e parecia ter uma língua enorme até a cintura. Apesar de parecer bem real, a pirata decidiu que devia se tratar de uma ilusão.

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Projeto 99-222 - parte 39

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A calmaria não durou muito. Na verdade não chegou a haver calmaria.
    Instantes depois do pequeno grupo de sobreviventes ter alcançado o compartimento de carga do Evaot, sons abafados vinham do lado de fora indicando que os vermes gigantes tentavam abrir caminho pelo casco do veículo. Trovões ígneos retumbavam acima do solo, anunciando uma nova leva de meteoros.
    - O Dourado ainda está lá fora - lembrou Anidro, com olhos aflitos e lacrimejantes. Mas eram lágrimas de coragem, condensadas unicamente pelo sentimento de impotência. Não havia medo em sua voz. Nunca havia.
    - Vocês não devem sair agora - avisou a capitã Alodia. - Acho que não preciso explicar o motivo.
    - Aquela é a casa de máquinas? - perguntou Devdas, apressada.
    - É. Acha mais seguro lá dentro?
    - Acho. E também aproveitamos para descobrir o que nos fez cair neste deserto.
    A pirata concordou, pois sem dúvida eram duas ótimas razões. Anidro olhou em volta e achou suas coisas, e sem pensar duas vezes tratou de pegar seu escudo mágico mordedor, que conseguiu na Ilha Sauria. E quando se juntou às duas moças novamente, notou que Alodia observava alguma coisa. Uma expressão de espanto estampada no rosto.
    - Foi realmente sabotagem! - concluiu a capitã, balançando uma grande tira metálica dentada nas mãos. - Alguém trocou esta correia por uma corda de cipó muito resistente, que logicamente rompeu depois de algum tempo.
    - Então é possível consertar o motor, já que a correia original está inteira! - exclamou Devdas em um repentino surto de felicidade, compreendendo no momento seguinte a besteira que acabara de verbalizar. - Esquece o que eu disse - emendou.
    - Eu tenho tantos inimigos e adversários que é impossível saber quem possa ter feito isso. Mas ainda tem uma coisa que me deixa muito intrigada.
    - O quê? - quis saber o pequeno paladino, sem no entanto tirar os olhos das rachaduras no compartimento de carga, que começavam a aparecer por causa das incessantes investidas de um verme faminto.
    - Costumamos inspecionar os motores antes de decolar.
    - Alguém pode ter entrado depois da inspeção - sugeriu Anidro.
    - Ou alguma de suas piratas é uma traidora - provocou Devdas.
    - Nada disso - refutou a capitã. - Só há uma entrada para esta casa de máquinas e tenho certeza de que ninguém passou por ela depois da inspeção. Mas não acredito que alguma de minhas colegas possa...
    A frase foi interrompida por um estouro de madeira, seguido por um fluxo de areia. O verme gigante finalmente conseguiu entrar, mas não estava nada bem. Sua cabeça estava cheia de calombos por causa das batidas, que indicavam irremediáveis fraturas no crânio - se é que ele tinha um crânio. A seguir ele escorregou para dentro junto com a areia, ocupando metade do ambiente, e suas três mandíbulas tremularam algumas vezes antes dele ficar totalmente inerte.
    - Hahá! - soltou Anidro, mas logo reparou a aproximação de outro verme, que entrou guinchando em dois tons diferentes e simultâneos.
    - Podemos dar conta - disse Devdas, confiante. - Não tem espaço pra mais dois deles ali, e por isso podemos matar um a um, conforme apareçam.
    - Certo - apoiou o irmão, colocando o escudo à frente do corpo. A cabeça reptiliana metálica presa ao escudo pareceu tomar vida, como se fosse um ser vivo cromado.
    Sem nenhum grito de guerra, a guerreira movimentou suas correntes usando somente seus pensamentos, fazendo-as atacar o monstro que se espichava cegamente através da abertura no casco. A areia escorria livremente em volta dele.
    Não era nada agradável olhar para a criatura invasora. Havia muitas fileiras de pequenos cílios percorrendo todo o corpo cilíndrico, que se mexiam convulsivamente sem a presença da areia. O interior da bocarra não tinha mucosa alguma, e parecia cheia de pequenas criaturas secundárias, talvez parasitas, simbiontes ou até mesmo filhotes. A sensação era de muitas coisas se movendo ao mesmo tempo, independentes por todo o corpo, como se o perigo emanasse de todos os lados.
    A figura de Devdas era o contrário. Ela permanecia parada e concentrada. Seus músculos tensionavam nos ombros e nos braços, causando reações nas correntes que tratavam de manter contato físico com o oponente. Os facões rústicos presos nos elos finais cortavam sem piedade, fatiando o que encontrasse. Anidro foi para frente quando uma enorme língua tripartida ameaçou chicotear a irmã, e seu escudo tratou de aparar o ataque. Além disso, a cabeça cromada mordeu o objeto esponjoso, causando novos gritos de dor e fúria.
    Um terceiro verme ameaçou entrar, puxando para trás o corpo do segundo para arrumar espaço. Mas desistiu por algum motivo.
    O combate terminou tão limpo e perfeito que os irmãos se deram conta de que não eram mais as crianças indefesas que precisavam se esconder dos horrores noturnos de sua antiga vizinhança. Devdas era uma guerreira competente, e Anidro era um paladino dedicado ao seu dever.
    A capitã dirigiu a eles um olhar que agradecia, e eles entenderam que ela não podia dizer nada por causa de um nó na garganta. Sua aeronau estava destruída e provavelmente toda sua tripulação havia perecido. Os três se juntaram em um confortável abraço, cuja função era forçá-los a aceitar a calmaria que finalmente pairava no ar. Eles tinham algum tempo até o anoitecer, e por isso resolveram descansar antes de se aventurarem pelo deserto em busca de alguma cidade ou acampamento.

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Projeto 99-222 - parte 38

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Devdas foi resgatada de sua inconsciência por um calor tão insuportável que até mesmo um cadáver se sentiria impelido a procurar uma sombra. Seus olhos subitamente abertos foram temporariamente cegados pela incrível intensidade da luz solar, e sua audição dava as únicas pistas de sua atual localização. Um forte vento castigava com areia cortante, lembrando-a finalmente de que havia caído no deserto Holai-Kell junto com a tripulação da aeronau Evaot. Agora ela distinguia o som do madeirame rangendo e das cordas, velas e roldanas se chocando ao ritmo do vento.
    - Anidro? Dourado? Não consigo ver!
    Ela procurou instintivamente por uma sombra, tateando em busca de escombros que pudessem servir de barreira para o sol escaldante. Vultos disformes captados por sua visão prejudicada indicavam o caminho que ela deveria seguir.
    - Por que está tão claro? Tem alguém aí?
    As costas ardiam terrivelmente devido à exposição dos ferimentos ainda não cicatrizados adquiridos nas recentes batalhas, motivando as pernas trêmulas a trabalharem rapidamente. Suas correntes vivas pendiam entorpecidas dos pulsos, onde prendiam-se à carne, ao osso, aos nervos e às veias. E enquanto caminhava, Devdas procurava enrolá-las nos antebraços para que não ficassem arrastando na areia, já que ela podia sentir o calor nos elos metálicos como se fossem extensões de sua pele.
    Finalmente a guerreira conseguiu se agachar sob um grande pedaço da proa da aeronau destruída e, aos poucos, forçou os olhos a enxergarem a cena ao seu redor. Velas rasgadas tremulavam presas a um mastro partido e tábuas soltas, mas um forte brilho chamou sua atenção próximo aos restos do timão. Era a plataforma metálica da popa fincada na areia, refletindo e intensificando a luz do sol.
    Olhando para cima, Devdas procurou investigar o que parecia o som de aves voando próximas, mas descobriu tratar-se de outra vela tremulante. E para sua total surpresa, enquanto ainda mantinha a atenção nas alturas, ela constatou a existência de dois sóis no céu.
    - Mas que merda é essa? - praguejou, consternada. As duas esferas esbranquiçadas destacavam-se entre as inúmeras luas.
    - O quê? - perguntou Dourado, surgindo de trás de um amontoado de barris quebrados. Ele aparentemente acabara de recobrar a consciência e massageava as têmporas com as mãos.
    - Tem dois sóis! - explicou a guerreira, um pouco aliviada por não estar mais sozinha.
    Dourado olhou para o céu.
    - É porque Laefel está olhando Aldetoron com interesse, e portanto conseguimos ver seus dois olhos.
    - Laefel, o deus sol?
    - Sim, estamos acostumados a ver somente um dos olhos da Grande Salamandra, pois ele geralmente se mantém de perfil, desinteressado. Mas devido ao iminente Pesadelo, é natural que Laefel observe o mundo de frente, pois deve estar querendo ver o que está acontecendo.
    Devdas deu de ombros e direcionou sua atenção para o deserto.
    - Precisamos sair daqui - disse, com urgência.
    - Por que a pressa? Antes devemos encontrar os outros e esperar anoitecer, já que o calor nos mataria antes que chegássemos a algum lugar.
    A moça apontou dunas que pareciam se mover ao longe, vindo na direção do local da queda. Eram definitivamente três grandes formações arenosas aproximando-se na mesma velocidade. Elas eventualmente sumiam para reaparecerem mais próximas logo em seguida.
    - Dunas vivas? - sugeriu Devdas. - Não estou gostando disso.
    - É possível... Talvez sejam elementais de areia - arriscou Dourado. - Ouvi falar que são hostis.
    Quando já estavam a apenas algumas dezenas de metros de distância, as três dunas sumiram. A expectativa cobriu os companheiros como um manto de incerteza e o clérigo sacou sua serra elétrica, ajustando a empunhadura para que pudesse utilizá-la como uma espada de duas mãos. Os dedos preparavam-se para dar a partida no pequeno motor e Devdas comandava mentalmente as pontas de suas correntes, que pareciam serpentes à espreita.
    Como que por coincidência, o vento parou por um instante no momento em que a gigantesca criatura saiu da areia na frente deles, causando uma erupção de areia seguida por um rugido tão grave que não podia ser ouvido, mas somente sentido através de uma forte vibração. Aquele som surdo fez com que todos os outros barulhos desaparecessem por alguns segundos.
    Dourado disse alguma coisa.
    - O que você disse? - pediu Devdas, sem conseguir ouvir direito.
    - Eu disse que é um shir-nasstak!
    O enorme verme do deserto escancarava as três mandíbulas, contorcendo-se violentamente para forçar o corpo a sair pelo buraco. As várias fileiras de dentes projetavam-se ameaçadoramente para fora, não deixando dúvidas a Dourado e Devdas sobre como reagir.

Ainda em meio à chuva de areia causada pela potente aparição do verme, Dourado apertou o gatilho de metal que acionava as correias dentadas de sua arma e avançou para fatiar o oponente. A serra travou por um momento por causa da grossura da armadura natural da criatura, mas não deixou de fazer seu trabalho, cavando uma profunda fenda que não sangrou, mas causou a reação pretendida. Diante de tal ameaça, o estranho animal afundou em fuga.
    - Essa foi rápida! - alegrou-se Devdas, mas seu sorriso foi rapidamente apagado pelo tremor subterrâneo que indicava a presença dos outros dois.
    - Vamos subir! - gritou o clérigo, já se apoiando em um mastro. E então os dois começaram a escalar, esforçando-se para ficarem longe do alcance das criaturas.
    Do alto das tábuas superiores, onde se prendiam as velas, eles procuravam por sinal de perigo e tentavam ficar quietos para não chamar atenção. Logo os tremores pararam e era possível ouvir o tranquilizante som do vento. No céu formavam-se estranhas nuvens amareladas com núcleos negros, como se fossem feitas de areia. Ao longe tufões gigantescos formavam-se com ar fervente, desenhando figuras arenosas no horizonte.
    - Tem alguém aí? - gritou Anidro, lá embaixo. Dourado tentou gritar um aviso, mas o vendaval não permitia que o som chegasse até o menino. A seu lado estavam a capitã Alodia e a pirata Claennis, ambas feridas e mancando. Eles caminhavam sem perceber os vermes do deserto, que fechavam um triângulo em volta das vítimas.

Devdas se lembrou de uma cena do passado, quando viu seu irmãozinho cercado por lobos e não podia ajudá-lo devido à distância que os separava. A impotência que ela sentiu quando o primeiro lobo avançou aflorava novamente naquele momento, pois ela não sabia o que fazer. Anos atrás Anidro juntou uma pequena coleção de mordidas pelo corpo, mas sobreviveu devido à ajuda de um caçador que passava por ali. Quem o salvaria agora?
    As correntes apertaram-se em volta de seu antebraço com a mesma força que seus dedos se fechavam em sua mão, e então a guerreira se lembrou delas. Com um pulo suicida, ela se atirou para trás e arremeçou a ponta de uma das correntes para cima, prendendo-se no apoio onde se encontrava e formando um balanço. Com um grande impulso conseguiu um belo salto para frente e novamente utilizou suas correntes para procurarem outros apoios em que se segurassem para amortecer a queda. Em poucos segundos ela estava ao lado do irmão.
    - Corram atrás de mim!
    Sem entenderem, Anidro e as duas piratas seguiram Devdas através do labirinto de escombros enquanto os vermes saltavam atrás, saindo e entrando na areia como golfinhos grotescos em uma perseguição pseudoaquática.
    O horror do encontro inesperado despertou um desespero esmagador que desligou totalmente o cérebro de Claennis, e quando um verme surgiu por baixo dela, Dourado a viu desaparecer entre as mandíbulas da criatura em um piscar de olhos. De cima do mastro, o clérigo os observava correndo de um lado para o outro, tentando despistar os perseguidores sem sucesso. Mas ninguém viu quando, lá em cima, ele foi atingido por um pedra incandescente que veio do céu. Sem entender o que aconteceu, Dourado atingiu o chão sem vida.
    Diante da morte certa, Devdas parou e se virou para encarar os vermes, e quando dirigiu o olhar para cima na direção da cabeça deles, notou que as nuvens de areia estavam fazendo chover grandes pedras flamejantes. Uma pedra especialmente grande atingiu uma das criaturas, fazendo-a desabar como uma árvore.
    - Uma tempestade de fogo, escondam-se! - ordenou Alodia. Devdas procurou Dourado com os olhos, mas não o encontrou em cima do mastro. Puxou o irmão para dentro do buraco criado por um dos vermes e, conforme havia imaginado, chegou à parte da aeronau que estava afundada na areia. Alodia entrou no mesmo lugar por uma outra abertura, e dali os três esperaram que o tempo melhorasse.

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