sexta-feira, 31 de julho de 2009

Iniciativa 4e: Consciências Coletivas

Os posts da Iniciativa 4e são sempre conjuntos e temáticos, a serem publicados quinzenalmente. Assim, vários aspectos de um mesmo assunto serão cobertos por diferentes autores (veja os links no final do post), dando origem a um suplemento periódico.
O tema desta 14ª edição da Iniciativa 4e é Monstros do Estágio Heróico, e para ele confira a seguir... novas criaturas para desafiar aventureiros do estágio heróico!

Consciência Coletiva
Originárias dos confins de planos anômalos, as Consciências Coletivas são seres resultantes da junção de criaturas frágeis individualmente, mas poderosas em conjunto. E apesar de tal descrição poder parecer um lema sobre a força da união, as Consciências Coletivas levam esse conceito além da mera conveniência, transformando-se em verdadeiras equipes constituindo, na prática, um só corpo.

Fatos sobre as Consciências Coletivas
Um personagem obtém as seguintes informações com um teste bem-sucedido de perícia:
Arcanismo CD 15: Certas regiões inóspitas e carregadas de magia possibilitaram a evolução da convivência em grupos em busca da sobrevivência, de modo que mutações permitiram o aparecimento dessas criaturas.
Arcanismo CD 20: Cada parte da Consciência Coletiva tem um papel bem definido e executa sempre a mesma tarefa na equipe.
Arcanismo CD 25: Ao contrário do que muitos pensam, os seres que constituem Consciências Coletivas podem se separar e procurar novos grupos, sendo inclusive prática comum em seus ambientes de origem. Grupos que se dão bem como equipe podem permanecer o resto de suas existências sem se separarem, originando consciências poderosas.

Veja a seguir quatro possíveis partes de uma Consciência Coletiva, que podem ser colocadas em um encontro dando a impressão de serem uma só criatura.
Esta não é a única combinação possível, mas são as únicas criaturas disponíveis neste artigo. Lembre-se que partes de uma Consciência Coletiva podem ter diversas formas e funções, sendo apresentadas aqui uma cabeça, um tronco e duas mãos, que já são suficientes para criar uma simulação de monstro solo.

Cabeça Rolante
aberração animada média (consciência coletiva)
Artilharia (Lider) de Nivel 5
XP 200
Iniciativa +3         Sentidos Percepção +10; visão no escuro
Cura pela Mente (Cura) aura 2; criaturas com o descritor "consciência coletiva" aliadas na aura ganham regeneração 5 e um bônus de +2 nos Testes de Resistência.
PV 50; Sangrando 25
CA 17; Fortitude 19, Reflexos 17, Vontade 18
Deslocamento 6
Mordida (padrão; sem limite)
+12 vs CA; 1d6 + 4 de dano.
Cuspir (padrão; sem limite)
Alcance 5/10; +12 vs CA; 1d8 + 4 de dano e a Cabeça Rolante concede a um aliado a até 3 quadrados um bônus de +2 no próximo ataque contra o alvo.
 Rolar (padrão; sem limite)
+12 vs CA - a Cabeça Rolante ajusta até um número de quadrados igual ao seu deslocamento e faz o ataque, ajustando de volta a seguir até o quadrado de origem; 1d10 + 4 de dano.
Tendência: Indiferente
Idiomas: Comum,
Liunlia (língua lunar)
Perícias: Arcanismo +7, Intuição +10, Percepção +7
For 18 (+6)
Con 15 (+4)

Des 12 (+3)
Int 14  (+4)
Sab 16 (+5)
Car 16 (+5)

Bolha de Órgãos
aberração animada média (consciência coletiva)
Guerrilheiro de Nivel 5
XP 200
Iniciativa +3         Sentidos Percepção (veja Agregador de Membros, abaixo)
Agregador de Membros aura 1;
criaturas com o descritor "consciência coletiva" aliadas na aura se movem junto com a Bolha de Órgãos toda vez que esta se deslocar (incluindo movimentos forçados), e não provocam ataques de oportunidade ao moverem-se desta forma (a Bolha de Órgãos causa ataques de oportunidade normalmente, se for o caso). Além disso, a Bolha utiliza o modificador de Percepção que escolher dentre essas criaturas (incluindo visão especial).
PV 63; Sangrando 31
CA 19; Fortitude 19, Reflexos 17, Vontade 17
Deslocamento voo 6 (pairar) - altura máxima de 2 quadrados quando parte de uma Consciência Coletiva.
Armar Ataque (padrão; sem limite)
A Bolha de Órgãos ajusta e permite a uma criatura adjacente com o descritor "consciência coletiva" fazer uma ataque.
Circular o Sangue (livre; recarga 5, 6)
A Bolha de Órgãos redistribui até 20 pontos de dano entre as criaturas adjacente com o descritor "consciência coletiva" (inclusive ela mesma).
Tendência: Indiferente
Idiomas: Comum,
Liunlia (língua lunar)
For 14 (+4)
Con 18 (+6)

Des 14 (+4)
Int 8  (+1)
Sab 14 (+4)
Car 8 (+1)

Mão que Segura o Escudo
aberração animada média (consciência coletiva)
Soldado de Nivel 5
XP 200
Iniciativa +7         Sentidos Percepção +4; visão no escuro
PV 63; Sangrando 31
CA 19; Fortitude 19, Reflexos 18, Vontade 16
Deslocamento 6
Intimar (padrão; sem limite)
+10 vs CA; 1d6 + 4 de dano e o alvo é marcado até o final do próximo turno da Mão.
Empurrar (padrão; sem limite)
+10 vs CA; 1d6 + 4 de dano e o alvo é empurrado 1 quadrado, além de ficar marcado até o final do próximo turno da Mão.
Tendência: Indiferente
Idiomas: Comum,
Liunlia (língua lunar)
For 16 (+5)
Con 18 (+6)

Des 16 (+5)
Int 14  (+4)
Sab 14 (+4)
Car 8 (+1)

Mão que Segura a Espada
aberração animada média (consciência coletiva)
Bruto de Nivel 5
XP 200
Iniciativa +5         Sentidos Percepção +5; visão no escuro
PV 71; Sangrando 35
CA 17; Fortitude 19, Reflexos 18, Vontade 16
Deslocamento 6
Espada (padrão; sem limite)
+8 vs CA; 2d8 + 4 de dano e a Mão faz um ataque secundário. Ataque Secundário: +6 vc Fortitude; o alvo é derrubado.
Esmagar Crânio (padrão; sem limite)
+8 vs CA contra um oponente caído; 2d8 + 4 de dano e o alvo fica atordoado (TR encerra).
Tendência: Indiferente
Idiomas: Comum,
Liunlia (língua lunar)
For 18 (+6)
Con 16 (+5)

Des 16 (+5)
Int 14  (+4)
Sab 14 (+5)
Car 8 (+1)

Táticas da Consciência Coletiva
Para a "montagem" da criatura no mapa, coloque um marcador para representar a Bolha de Órgãos e, sobre ele, a Cabeça Rolante. A Mão que Segura a Espada e a Mão que Segura o Escudo geralmente ficam ao lado da Bolha e da Cabeça.
Apesar de poderem se separar, eles procuram ficar juntos para se beneficiarem das auras.
A Bolha usará seu Preparar Ataque, de preferência, para permitir à Mão que Segura a Espada desferir seu Esmagar Crânio contra uma criatura caída. Já a Mão que Segura o Escudo procurará deixar os oponentes longe da Bolha.

Em Aldetoron
Consciências Coletivas são criaturas originalmente lunares que podem viver em qualquer lugar, mas a maior concentração delas é, sem dúvida, na lua Kao-Kao. Elas nascem através de influência onírica, a partir de partes de cadáveres recentes, mas não podem ser consideradas mortas-vivas. O corpo se parte e dá origem a criaturas individuais, que podem permanecer juntas ou procurar outros grupos.
  • Cabeças Rolantes se formam através de cabeças de quaisquer criaturas que morram em certas áreas de influência onírica. O crânio incha e adquire formato arredondado, e é comum a perda de orelhas, chifres e protuberâncias que impeçam uma "boa rolagem".
  • Bolhas de Órgãos se criam em ambientes úmidos ou em dias chuvosos a partir dos órgãos internos de cadáveres recentes, flutuando livremente, cegas, até encontrarem alguma parte com a qual se juntarem. São muito frágeis logo após o "nascimento", bastando um leve contato para estourarem.
  • As Mãos também têm origem similar, resultado de mãos que tomam vida devido à influência onírica. Elas geralmente crescem e são capazes de flutuar um pouco acima do solo, apesar de algumas preferirem andar com os próprios dedos.

Artigos Parceiros da Edição 14

terça-feira, 28 de julho de 2009

Projeto 99-222 - parte 28

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

A sensação de correr pela selva, levando o fôlego ao limite enquanto o corpo é guiado pelos reflexos que impedem o choque contra os obstáculos é, por si só, uma experiência que aguça todos os sentidos e permite ao cérebro saborear uma avalanche de estímulos simultaneamente. A vegetação parece um borrão móvel mas, por incrível que pareça, os olhos são capazes de captar detalhes que passariam despercebidos durante uma caminhada. O suor sensibiliza a pele, transformando o vento em algo palpável capaz de aprimorar a percepção do ambiente.
    Mas quando o motivo da corrida é salvar a própria pele da investida de um tiranossauro enciumado, a coisa toma uma dimensão muito maior.
    Pelo caminho, Rham se viu obrigado a levar Anidro nos braços, já que as pernas pequenas o deixavam em desvantagem para correr. Além disso, o ogro não queria correr o risco de ver o menino engolido por causa dele. Afinal, entrar naquela cabana não tinha sido a melhor idéia e...
    - Anidro? - chamou Rham, notando que o peso havia sumido bruscamente do seu ombro.
    - Aqui! - respondeu uma voz baixa e abafada. Devdas parou de correr, assim como Dourado.
    - Não sei pra onde ele foi! - reclamou o bárbaro, desesperado.
    - Ele foi engolido, seu lerdo! - gritou a guerreira, que não se conformava com a situação em que haviam se metido. - ANIDRO, AGUENTA FIRME!
   A mestra das correntes voltou com passos decididos, balançando habilmente sua arma. E aproveitando a distração causada pela criança que teimava em impedir a mastigação, Devdas começou a escalar o réptil gigantesco pelas costas.
    Dourado fez algumas preces de auxílio e todos foram tomados por inspiração divina, que permitia analisar a cena friamente e agir com cautela. E em seguida desembainhou a espada longa.
    - Me ajuda a distraí-lo, Rham! Assim a Devdas ganha tempo! - disse o clérigo, e os dois iniciaram um combate contra... as pernas da criatura.
    Devdas logo chegou à cabeça escamosa, usando como apoio os quelóides de inúmeras cicatrizes espalhadas pelo corpo do monstro. Ela se perguntava como alguém podia juntar tantas daquelas sem morrer, mas preferia deixar para tirar conclusões mais tarde.
    - Me ajuda! Aaah, que nojento é isso aqui! - reclamava o pequeno paladino, que lutava contra a enorme língua para sem manter longe dos dentes, perto da bochecha. E seu pedido foi atendido assim que viu  as pontas de uma corrente dentada surgirem perto dele, iniciando um rasgo por onde ele poderia sair.
    Mas Gumbaldak, decidido a manter a integridade bucal, chacoalhou o pescoço e cuspiu Anidro, que rolou envolto em baba, sangue e um pouco de vômito. Devdas se segurou e jogou uma das pontas da corrente por baixo do pescoço, usando força suficiente para que conseguisse pegá-la do outro lado, formando uma rédea com a qual ela poderia se manter ali por mais tempo.
    - Ele tem um monte de machucados recentes pelo corpo - avisou Dourado. - Vamos cutucar!
    E assim fizeram. Logo Gumbaldak desistiu e foi embora, já que a luta contra Kardag, horas antes, o havia deixado enfraquecido.

Mais tarde, já em meio às trevas, os aventureiros tentavam escapar de um grupo de répteis carnívoros do tamanho de potros, com olhos perturbadoramente amarelos. Eles possuíam uma garra especialmente grande em cada pé, e os corpos tinham listas negras.
    - Eles caçam como lobos - disse Rham, ofegante. - Vamos subir esse barranco e tentar chegar no topo daquela parede rochosa - propôs, coçando instintivamente o umbigo.
    E finalmente após uma cansativa escalada, testemunhada por dinossauros com pescoços do tamanho de árvores, os quatro foram abençoados com uma linda vista do descampado adiante, que seguia até o vulcão. Dali de cima era possível ver manadas de animais gigantescos e observar de perto o voo de criaturas que tinham escamas e penas ao mesmo tempo. Além disso havia um riacho que passava por ali, para completar a recompensa pelo dia difícil.
    O ocaso deixara um rastro lilás no céu que se recusava a ir embora, e as estrelas já mostravam seu brilho. É claro que muitas ficavam escondidas atrás das luas... aquelas luas grandes e medonhas, um pouco mais próximas a cada dia.
    Anidro já havia se recuperado do choque e observava os astros alienígenas com curiosidade.
    - Acho que consigo ver uma cidade cheia de gente naquela lua ali. Tá, provavelmente não tem "gente" lá... Olha, mana, aquela área mais clara que parece uma teia de aranha deve ser a iluminação das ruas!
    Mas Devdas olhava a própria imagem refletida na água, que passava preguiçosamente entre as pedras, e acariciava a caixa nas mãos.

- Vou abrir.
    - Vai abrir? - perguntou Dourado, para confirmar, chamando assim a atenção dos outros.
    - Vou abrir - confirmou ela, simplesmente puxando a tampa. Era como se a caixa nem mesmo estivesse trancada antes, dando a impressão de que um esbarrão qualquer poderia tê-la aberto.
    Um brilho estranhamente opaco se revelou, sem cor. Devdas suava e os olhos se mexiam loucamente para obter toda a informação visual possível sobre o interior do objeto antes de tocar. A coisa ali dentro emanava uma aura fria e cheiro de metal antigo.
    Eram correntes, mais especificamente um par delas. E definitivamente eram armas, já que cada uma tinha algo parecido com um facão rústico preso a uma das pontas. Já a outra ponta estava escondida sob o emaranhado desorganizado.
    Ninguém disse nada, já que se esperava uma reação inicial da guerreira para quebrar o silêncio. Mas ela ainda permancia quieta.
    Devdas pegou um dos facões, e tocá-lo foi... revelador. Ela não sabia por que essa era a melhor definição para o que estava sentindo, mas era como se sua mente tivesse se aberto para alguma dimensão superior no momento em que sua mão tocou o metal gelado. E puxando a corrente, que fazia um som cristalino durante o choque dos elos, ela encontrou a outra ponta. O último elo era preso a uma espécie de espinho, também metálico, mas que parecia vivo. Ele se mexia um pouco.
    Subitamente ela entendeu o que deveria fazer, bastando realizar uma escolha. Onde prender? Nas costas? Talvez no braço fosse melhor. Mas não lhe passou pela cabeça devolver o objeto à caixa, pois isso não faria sentido algum!
    - Mana, o que... - Anidro ia questionar a ação da irmã, mas foi impedido por Dourado. E então eles observaram enquanto ela fincava o espinho na parte inferior do pulso esquerdo, engolindo o grito de dor. As veias do braço protestaram contra a invasão repentina, dilatando e bombeando sangue para fora.
    "Agora a outra." - disse ela para si mesma. Ou não foi ela?
    O riacho foi tingido de vermelho. A guerreira fechou os olhos com força, como se tentasse prender a dor entre as pálpebras, e soltou um segundo grito agoniado.
    Dourado fez que sim com a cabeça e Rham tampou a boca da moça para evitar que tivessem visitas desagradáveis por causa do barulho, mas ela não gritou mais. O sangue parou de escorrer alguns segundos depois, e ela dormiu. Dormiu sabendo que as correntes estavam quase mortas, mas que voltaram à vida com seu sangue. Elas seriam extensões de seus braços, levando seu tato até a ponta dos facões.
    Mas a que preço?

[Leia a próxima parte]

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Projeto 99-222 - parte 27

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

Ao chegarem à ilha, os companheiros se despediram de Ceowulf e sua tripulação. Devdas preferiu não alongar a despedida e, por isso, tratou de avançar pela praia após um rápido beijo no capitão, inconscientemente acariciando a preciosa caixinha de madeira para espantar a tristeza. Anidro, por sua vez, esperava encontrar Nelizhad novamente mesmo sabendo que talvez o barco já não estivesse mais ali quando voltassem.
    A paisagem era estonteantemente bela, com cores tão vibrantes e vegetação ao mesmo tempo tão selvagem e convidativa que ficava evidente a influência onírica no lugar. Afinal, nada mais propício para a manifestação dos efeitos surreais do Sonho do que a distância da civilização.
    A estranheza era instigada desde os primeiros passos na ilha, já que as ondas formavam pequenos elementais de água ao atingirem a areia. Eles caminhavam alguns metros, felizes, e logo se desfaziam ao se chocarem propositalmente contra alguma pedra, crustáceo ou a perna de alguém, como se sua curtíssima vida tivesse esse pequeno ritual como objetivo. A algumas dezenas de metros dali havia um enorme crânio de réptil, que atraía a atenção das ondas e era continuamente alvo das criaturinhas aquosas.
    Mais adiante alguns barrancos de areia delimitavam a divisão entre a praia e a selva, e ali cresciam diversos tipos de plantas, sendo que flor nenhuma tinha pétalas menores do que uma mão humana. Era uma vegetação superdimensionada, que Dourado logo descobriu tratar-se de diversas "tribos" vegetais conscientes, com seu próprio sistema de castas, alianças e inimigos. E a primeira evidência era o fato de muitas delas estarem com pétalas e folhas viradas para o barco, como se estivessem prestando atenção, complementada pela existência de olhos ou dentes nos caules, miolos, próximo às raízes ou em hastes.
    E acima de toda a mata, que aparentemente se adensava na direção do centro da ilha, era possível enxergar um gigantesco vulcão rodeado por nuvens brancas, provavelmente sólidas. Havia diversas plataformas construídas ao redor da montanha fumegante, que davam acesso ao seu interior através de aberturas cavadas na rocha. Essas plataformas serviam como áreas de pouso para navios voadores de piratas, e naquele instante havia meia dúzia deles descarregando mercadorias. Um caminho largo na encosta não tinha nenhuma abertura, e provavelmente era por ali que a lava escorria quando havia erupção.
    - Um daqueles navios voadores deve ser do pirata Fergus Gancho Aéreo - opinou Anidro, afastando com o pé um carangueijo que insistia em tentar escalar sua perna, aparentemente fugindo dos elementais que tentavam persegui-lo.
    - Deve ser aquele - apontou Dourado, mostrando uma plataforma maior do que as outras, onde estava parado um navio equipado com enormes ganchos saindo de uma abertura na parte inferior do casco.
    - Não enxergo - confessou Rham, apertando os olhos.
    - Como não? - indignou-se Anidro. - Está longe, mas dá pra ver bem os ganchos. Olha lá!
    Dourado e Devdas começaram a rir.
    - O quê? - quis saber o menino, e Rham parecia cada vez mais desconfortável.
    - Ele deve ter problema de vista - disse Devdas, e Dourado balançou a cabeça afirmativamente. - Depois precisamos arrumar uns óculos pra ele.
    - Não preciso de óculos.
    - Tudo bem, Rham, óculos não vão prejudicar as suas habilidades - acalmou a guerreira. - Pelo contrário!
    - Hmf... - soltou o bárbaro, já caminhando em direção à selva.

Havia plantas bem curiosas pelo caminho, e por isso alguns cipós e raízes aéreas tentavam se aproximar.
    - Plantas chatas - desabafou Rham, que ia na frente. - Elas estão apagando as pegadas que estou seguindo.
    - Pelo menos não são hostis - disse Dourado, que ia logo atrás.
    - De quem serão as pegadas? Piratas? - arriscou Devdas.
    - Pode ser qualquer coisa. Não duvido que seja alguma planta com pés... - disse Anidro, desanimado. - Não seria melhor irmos direto pro vulcão?
    - Temos que descobrir mais informações sobre essa ilha antes - explicou o clérigo. - Se conhecermos o lugar, evitaremos problemas.
    - Achei! - disse o bárbaro, triunfante.
    Ali adiante, totalmente embrenhado em vinhas e cipós, um corpo inerte jazia somente com os pés à vista. Somente um deles ainda tinha uma bota, e o outro estava descalço.
    Rham tratou de libertar a vítima após alguns golpes de espada, o que talvez fosse motivo de retaliação por parte do povo-planta mais tarde. Todos olhavam em volta, apreensivos.
    - É uma mulher, e está morta.
    - Hmm, é uma amazona de Itgar. Tinha me esquecido que não somos os únicos procurando a torre roubada pelo pirata, com o tesouro da baronesa dentro [leia aqui para lembrar da história] - disse o clérigo meio-dragão.
    - E procurando também as filhas da baronesa, que também estavam dentro da torre - lembrou Devdas. - Deve ser uma das amazonas sob o comando da Arlene Orgulho Rubro.
    Uma observação mais minuciosa indicou que as plantas não mataram a amazona, já que ela tinha marcas de projéteis de armas de fogo pelo corpo. Haviam sido piratas afinal, e agora a mulher simplesmente servia de comida para os vegetais carniceiros.

Prosseguindo através da vegetação sem trilha alguma, o grupo se guiava somente pelo vulto do vulcão, visível através das brechas entre as copas das árvores gigantes. E quando a tarde se aproximava do fim, uma grande clareira se mostrava convidativa para acampar. Exceto pelo fato de haver uma cabana de quase 10 metros de altura, com uma porta de 8 metros feita de troncos cortados. Os galhos mais altos das árvores próximas estavam amarrados, formando um teto rústico.
    - Nossa, deve ser a casa de um gigante! - concluiu Anidro.
    - Os gigantes daqui são licantropos - lembrou Dourado, falando mais baixo. - Eles se transformam em répteis gigantes.
    - Ou seja: melhor irmos embora - sugeriu Devdas, que notou a seguir que o ogro estava babando.
    Rham estava com o olhar fixo na figura dentro da casa, que somente ele notou. Uma janela lateral revelava uma mulher gigante nua arrumando o cabelo. E apesar do ângulo não permitir visualizar o corpo todo, o bárbaro estava hipnotizado pelo par de seios, que provavelmente estavam entre os maiores do mundo.
    - Rham?
    As enormes mãos femininas buscavam habilmente uma forma de organizar as mechas rebeldes, e o movimento dos braços ocasionava uma reação de múltiplos músculos, o que resultava na indescritível dança mamal.
    - Rham, responde! E quer parar de babar? - reclamou a guerreira.
    Ao fazer uma comparação com dois olhos gigantes de uma pessoa com tontura, o ogro imaginava os mamilos como pupilas descontroladas.
    - Preciso ver a parte de baixo - decidiu ele.
    - Parte de baixo do quê? - perguntou Dourado. - Ei, você não deveria entrar aí!

Perto dali, Gumbaldak fazia o caminho de volta para casa. Sua mulher devia estar se arrumando para ele a essa hora e ele estava louco para mostrar a ela suas novas cicatrizes. A emoção da vitória ainda mantinha sua dor em segundo plano, e por isso ele ainda nem havia notado que perdera alguns dedos na batalha contra Kardag.

[Leia a próxima parte]

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Projeto 99-222 - parte 26

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

Nelizhad, o barco vivo, levava a tripulação pela turbulenta rota até a Ilha Sauria. Anidro prosseguia com uma embalada conversa com ela, e ficava debruçado na cabeça de dragão da proa de modo que conseguisse olhar nos olhos a escultura feminina, logo abaixo. Ele agora sabia que Nelizhad era o barco inteiro, e não somente a figura presa ao casco, mas não abria mão de ter uma conversa cara a cara.
    - Então você caiu do céu? - perguntou o menino, cuja curiosidade crescia com o fermento da juventude.
    - É estranho falar em minha lua-natal como "céu". Do ponto de vista dos habitantes das luas o céu é aqui - respondeu ela através de telepatia, e o rosto de madeira mudou a expressão para um sorriso sincero, desafiando a lei que diz que a madeira não deve se mexer sozinha. Mais ou menos como fazem os entes.
    - E na sua lua existem outros barcos vivos?
    - Pertenço a uma raça de barcos voadores, e cada um de nós é esculpido a mão. Somos abençoados com um sopro de vida dado pela própria lua, e nossa missão é transportar nossos mestres aonde queiram ir. Infelizmente minha chegada aqui foi muito brusca e perdi a capacidade de voar. Tive que ser quase totalmente reconstruída.
    - Pelo Ceowulf?
    - Sim, devo minha vida a ele. E minha lealdade também, já que nenhum dos tripulantes que eu carregava sobreviveu.
    - Ah, sinto muito... E você não se incomoda por ficar presa à água? Você, que já deve ter visitado tantos lugares lá em cima!
    Nelizhad não respondeu. Preferia não pensar a respeito e, por isso, mudou os rumos da conversa.

Enquanto isso, na popa, Ceowulf e Devdas observavam os vários pares de remos que se moviam sozinhos, envoltos na névoa mágica esbranquiçada que saía dos poros secretos da embarcação. A tripulação se ocupava com o preparo da próxima refeição.
    - Devdas, você está usando perfume de algas de Judeva? - perguntou o capitão, percebendo logo em seguida o quão idiota soou. Ele odiava seu próprio comportamento quando ficava apaixonado.
    - Sinceramente não esperava que um bárbaro me perguntasse sobre meu perfume - retrucou ela, usando rispidez mal passada com recheio de provocação.
    - É que acho incomum ver guerreiras perfumadas! - defendeu-se ele, erguendo as mãos. Sua voz interior ecoava xingamentos.
    - Acho que a maioria se cuida, mas não há perfumes, grampos ou laços de cetim que resistam ao primeiro combate do dia.
    E os dois desataram a rir, transformando esta aventura épica através de um mundo onírico em um romance de banca de jornal. Por isso vamos continuar adicionando um pouco de sangue à narrativa, mas antes deixe-me esclarecer que eles não transaram. Agora o sangue (leia o próximo parágrafo imaginando a voz do narrador dos comerciais de Hot-Wheels):

A quilômetros dali, na ilha selvagem, dois gigantes disputavam o domínio de um território de caça. Gumbaldak tinha quase seis metros de altura e somava incríveis 2867 cicatrizes no corpo. E graças ao seu adversário, esse número aumentava em ritmo alucinante. Os dois, juntos, já tinham derramado 36 litros de SANGUE na clareira criada pelo embate.
    Kardag era um pouco mais baixo, mas só porque era corcunda. Suas mãos eram desproporcionais, o que para um gigante significa muita coisa. Seus movimentos pareciam frutos da aleatoriedade de tão estabanados, mas sua aparente falta de controle motor se dava por causa de uma transformação iminente, que reconfigurava toda sua estrutura corporal. E o mesmo estava acontecendo com Gumbaldak.
    Os gigantes gritavam, trocavam murros e tiravam SANGUE um do outro enquanto suas peles adquiriam escamas e suas cabeças se alongavam. Os pescoços dilatavam e esticavam, e as colunas vertebrais aumentavam a ponto de projetarem-se para fora do corpo, formando caudas. Segundos depois eles estavam ainda maiores: Gumbaldak havia se transformado em um tiranossauro, e Kardag era agora um espinossauro.
    SANGUE. A batalha, que já vinha sendo adiada por meses, teve um desfecho rápido e feroz. Os trêmulos espectadores herbívoros assistiam ao espetáculo escondidos atrás da folhagem molhada de SANGUE, e havia pedaços de couro ainda pulsante pendurados nos galhos altos. Eles estavam praticamente desmontando um ao outro, como se procurassem descobrir quem aguentava ficar de pé com o maior número de órgãos e tendões expostos.
    Logo Gumbaldak escorregou no próprio SANGUE e foi ao chão, já que seus pequeninos braços não podiam impedir a queda. Kardag pulou sobre o oponente, usando os dentes do tamanho de sabres para abrir caminho pela carne abdominal. Mas o tiranossauro, apesar da visão nublada pela falta de SANGUE, juntou forças para enfiar um pé na boca do adversário, abrindo o maxilar. E a seguir, com a velocidade de um raio, mordeu o focinho e o prendeu, sentindo a língua ser perfurada pela arcada superior do espinossauro. E assim armou seu golpe mortífero, que os outros de sua tribo haviam chamado de "mola bucal".
    Por fim, Gumbaldak esticou o corpo, quebrando o eixo formado pela junção do maxilar de Kardag e fazendo o tampo superior da cabeça voar alto após um súbito estalo ósseo acompanhado por um som de carne rasgando, criando assim uma chuva de SANGUE.
    Para a platéia escondida, aquilo significava um predador a menos.
    Para Gumbaldak significava um concorrente a menos.

[Leia a próxima parte]

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Iniciativa 4e: Os Aventureiros do Cálice

Os posts da Iniciativa 4e são sempre conjuntos e temáticos, a serem publicados quinzenalmente. Assim, vários aspectos de um mesmo assunto serão cobertos por diferentes autores (veja os links no final do post), dando origem a um suplemento periódico.
O tema desta 13ª edição da Iniciativa 4e é a aventura O Cálice de Avandra, que está à venda na D3Store por apenas R$3,00 em PDF!
Veja a sinopse da aventura:

"Uma nova doença aparece na cidade de Rygar e, para contê-la, a clériga Allana pede aos aventureiros que investiguem os esgotos da cidade, pois acredita que criaturas subterrâneas estão trazendo a praga através dos mendigos que habitam os túneis malcheirosos. Durante a missão os aventureiros descobrem que há muito em jogo, e que criaturas sinistras do Reino Distante arquitetam um destino terrível para os habitantes da cidade, e só um artefato - o Cálice de Avandra - pode salvá-la. Uma aventura de D&D 4a edição para personagens de 1º nível."

E para começar a se divertir com seu grupo sem enrolação, o artigo desta quinzena apresenta fichas prontas para usar, com personagens oficiais da cidade de Rygar! Veja a história de cada um deles:
Observação importante: Alguns personagens usam regras do Livro do Jogador 2, que ainda não está disponível em português. Mas não se preocupe - as fichas em inglês possuem os cartões com as descrições de todos os poderes, o que facilita a sua vida!
  • Erevan (ficha em português / ficha em inglês): Erevan é um jovem e carismático clérigo de Avandra. Seu passado como mendigo nos esgotos de Rygar felizmente tiveram fim quando Allana o iniciou nos segredos da deusa da cura. Seu ponto fraco é a impaciência com relação aos que reclamam da sorte, pois Erevan convive diariamente com os menos afortunados e descobriu, com o passar do tempo, que as coisas boas começam a acontecer quando cada um cria as condições necessárias.
  • Erkanos (ficha em português / ficha em inglês): Erkanos nasceu como um Nahadin (nômade do Deserto Dourado), mas sua capacidade nata de liderança o levou a Rygar para que conquistasse uma formação militar como senhor da guerra. Como membro de destaque da Guarda Rubra, apesar da pouca idade, Erkanos se obriga diariamente a provar seu valor.
  • Kuonu (ficha em português / ficha em inglês): Kuonu é um jovem minotauro criado através da dura tradição da quase extinta tribo dos Argolas de Aço. Os Argolas habitaram o Deserto Dourado por séculos e infelizmente perderam espaço devido à rigidez cultural, que os impediu de misturarem-se aos povos fundadores de Rygar. Sua força aliada à sabedoria precoce permitiram que Kuonu sobrevivesse às intempéries físicas e sociais. Ele é adaptável e tem a esperança de voltar a difundir a cultura de seu povo.
  • Mardena (ficha em português / ficha em inglês): Mardena faz parte de um pequeno e secreto grupo responsável pela proteção das relíquias divinas de Rygar. Sendo ela a mais jovem e menos experiente, Mardena se viu afogada pela responsabilidade de recuperar o Cálice de Avandra. E sua preocupação não é infundada, já que o próprio Lorde Bashan Olho-de-Rubi exige que sua função seja executada sem falhas o mais rápido possível!
  • Valandra (ficha em português / ficha em inglês): Nascida na perigosa Floresta dos Cactus, Valandra mescla-se ao ambiente desértico como todo bom genasi de fogo. Seus dons arcanos amplificaram ainda mais seu dom com o fogo, o que acabou cristalizando sua personalidade explosiva. Dona da verdade, ela segura a razão com rédeas de fogo enquanto procura seu lugar e sua fama em Rygar.
Muito obrigado ao Rey Ooze do Paragons pela tradução das fichas e ao Véxo do Tomo 4e pela hospedagem dos arquivos!

Artigos Parceiros da Edição 13

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Projeto 99-222 - parte 25

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

As planícies meridionais adiante revelavam a depressão final na direção do mar. Não era brusca; a mudança de terreno se dava gradualmente, do gramado verdejante à areia fina em alguns quilômetros.
    O céu estava azul e aberto, mas no entanto certa quantidade de luz não chegava ao continente. E o motivo era a quantidade absurda de luas que se aproximavam dia após dia, obstruindo a visão do Sol. Diziam tratar-se do início de um Pesadelo, mas a maioria preferia acreditar na hipótese de uma simples aproximação temporária.
    Outro fato curioso era a presença, bem ao longe, do segundo sol. O fato de aparecer o segundo olho de Laefel significava, segundo a interpretação dos clérigos, do aumento do interesse do deus-serpente nos acontecimentos de Aldetoron, de modo que ele deixa de ficar de perfil e começa a ficar de frente, saindo da postura "indiferente" para a postura "interessada".
    Se Laefel vira completamente a cabeça, os dois sóis ficam do mesmo tamanho, o que ocasiona um fortíssimo aumento na temperatura durante o dia. Felizmente ainda não era o caso.

O vento agourento soprava lamúrias mas era fresco e agradável, o que deixava um ar de pânico iminente. A visão de todas aquelas luas mais próximas do que o habitual causava, para algumas pessoas, reações alucinógenas enlouquecedoras.
    Devdas segurava com as duas mãos, junto ao peito, a caixa que recebera de Vadris.
    - O quê? - perguntou à caixa de madeira cujo tamanho se aproximava ao de uma cabeça. Ela tinha certeza de ter escutado uma voz vindo de lá de dentro.
    - O que o quê? - quis saber Anidro, montado no mesmo ubatay que ela.
    - Ah, nada. Imaginei ter ouvido algo, mas deve ter sido o vento. Você reparou como ele geme?
    - É.
    - Pessoal - chamou Dourado. - Vejam, ali adiante está a cidade de Nagovir, e é naquele porto que vamos pegar um barco para a ilha Sauria.
    - Já era hora de achar uma taverna. Que fome! - reclamou Rham. - Cansei de passar por vilarejos de goblins e meio-orcs. Será que aqui é mais civilizado?
    - Que pergunta estranha para um ogro... Achei que ogros não fossem mais civilizados do que goblins - disse Dourado.
    - Não toque neste assunto - avisou o bárbaro.

Nagovir era uma cidade mediana de população extremamente variada. Os meio-orcs e goblinóides também estavam ali, mas pertenciam à casta mais baixa e viviam em acampamentos e cabanas improvisadas na periferia. No mais, havia humanos, liundari, anões, minotauros e draconatos, entre outros. Tudo organizado, na medida do possível, pela guilda dos comerciantes. Eles agiam sob autorização direta da Rainha e recebiam verbas para manter alguma segurança e infraestrutura, principalmente para o porto
    Após uma boa refeição, os aventureiros se dirigiram ao porto para escolherem o barco que os levaria à ilha. E uma rápida pesquisa deixou somente três opções, já que os outros capitães se negavam a levar passageiros para a ilha recheada de piratas e dinossauros.

Osric era um anão que tinha um belo barco movido a motores, com uma tripulação disposta e alegre. Havia também a draconata Alodia com seu barco rápido movido a velas e remos. Era menor que o dos anões e bem menos preparado para combates aquáticos, mas a capitã preferia evitar problemas a ter que resolvê-los.
    Já o barco escolhido tinha o formato de um dragão comprido e era movido a remos e um pouco de magia que transbordava de sua estrutura na forma de uma névoa fina e branca. Na extremidade frontal, entalhada no casco, havia uma linda imagem feminina chamada Nelizhad. Anidro fez amizade com ela e por isso os outros decidiram contratar os serviços do capitão Ceowulf.
    Ceowulf e sua tripulação de bárbaros eram guerreiros acostumados a viajar pelas distantes, perigosas e geladas águas do norte, infestadas de horrores com presas enormes e tentáculos compridos. Eles detestavam trabalhar com transporte de mercadorias e preferiam receber dinheiro para serviços que exigissem suas habilidades em enfrentar perigos.
    Quando questionados sobre sua presença em um lugar como Nagovir, Ceowulf disse que eles eram os últimos de um grande povoado no mar gelado ao norte de Balodin. Nas terras frias e escuras abaixo do continente flutuante de Vandivya, onde a luz do Sol nunca chega completamente.
    - Tivemos que abandonar nosso lar, pois sozinhos não teríamos chances - explicou.
    - Vocês não tinham mais comida por lá? - perguntou Devdas, impressionada com a quantidade de cicatrizes daqueles homens e mulheres.
    - Não nos faltava comida. Mas em minha terra é necessário um grupo de pelo menos 20 pessoas para caçar, e mais 20 para cuidarem de um acampamento pequeno.
    - Sei... E decidiram vir para um lugar mais sossegado - concluiu ela, seguindo o raciocínio.
    - Sim - respondeu ele, observando Devdas com um olhar discretamente faminto. - Aqui também não é muito sossegado, mas é muito mais tranquilo do que minha terra natal. Você é casada com algum deles?
    - O quê? É... bem, não - disse, tentando evitar que os colegas percebessem o rumo que a conversa ia tomando.
    - Vem, Rham, vamos dar uma volta e comprar suprimentos - chamou Dourado, preferindo deixar a guerreira e o capitão a sós.
    - Já temos suprimentos. Além disso, tenho minha espada, que faz suprimentos - objetou o ogro, com um fio de baba dançando ao vento marinho. Mas ele subitamente entendeu quando viu uma mão de Devdas formando a mortífera pose do tapa de "presta atenção".
    Dourado, que nunca vira Devdas em uma situação de romance, analisou a postura dela e concluiu que ela era virgem. Não que isso interessasse a ele, mas era uma conclusão bem óbvia a julgar pela expressão e pelos trejeitos incertos, tão contrastantes com sua confiança no campo de batalha.

Muito longe dali, Vadris sentia ciúmes. Ele mantinha uma pequena conexão emotiva com Devdas graças à caixa que dera a ela. E quando ela a abrisse, o vínculo se completaria.

[Leia a próxima parte]

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Draconato (Dragonborn)

Como a maioria já sabe, este ano (2009) não teve EIRPG, tendo o tradicional evento sido substituído pelo RPGCON.
Este é um post sobre cosplay, e deixarei pra comentar sobre o evento como um todo em outra oportunidade.

Todos os anos meu grupo (Grupo Morlocks; não tem site ^^) se arruma para ir caracterizado ao encontro com algum tema. Já fizemos costumes dos nossos personagens, de monstros icônicos e até cosplays de Resident Evil, sempre com apresentações em palco para os famosos desfiles/competições.
Confesso que, até este ano, nunca havíamos encontrado em um evento de RPG um suporte real para os fantasiados. A dificuldade de transportar as roupas nunca foi balanceada com a existência de um guarda-volumes decente e os concursos nunca foram justos. Já perdemos o primeiro lugar uma vez para uma criança vestida (embalada em papelão) de Darth Vader (calculadora no peito) e, em outro ano, para uma moça "vestida de azul". Tudo porque a votação sempre foi realizada pelo público que, como bem se sabe, aplaude muito mais o que é engraçado ou inusitado.

Este ano o pessoal do Cosplay Brasil coordenou a parte do evento que lidava com cosplays e costumes, e organizaram um desfile com juízes e ótimos prêmios (fornecidos pela Limited Edition) para estimular o povo a ir a caráter. Além disso, teve fotógrafos profissionais que estavam tirando fotos com qualidade de estúdio em uma sala preparada!
Pela primeira vez um encontro de RPG tinha roupas de tão boa qualidade; não faltaram cotas de malha graças à presença dos Vikings! E por incrível que pareça não apareceram cosplays de animes ou mangas.

Sem mais delongas, apresento a seguir um tutorial fotográfico mostrando, passo a passo, como montei a cabeça do draconato. Fiz com o objetivo de apontar acertos e erros, para ajudar quem queira construir estruturas de cabeça com baixo custo.
Este tutorial também está no forum do Cosplay Brasil.

Material utilizado:
- EVA (2 folhas)
- Papel kraft (2 folhas)
- Jornal (algumas folhas)
- Cola (1kg)
- Pincel duro
- Fita crepe
- Uma bolinha de isopor
- Mistura de Durepoxi com plastilina para o acabamento
- Tinta acrílica
- Pincéis macios (um médio e um pequeno)

Custo final: cerca de R$20,00.

A estrutura inicial foi montada usando EVA e papel kraft.
Com uma peça de EVA inteira, moldei toscamente uma "touca", à qual acoplei duas faces longas de EVA, já que o draconato tem um focinho comprido. Depois usei o papel kraft para fortalecer o formato em cima e atrás.

Tudo foi preso só com fita crepe. A cola só vai ser usada depois, com o jornal, para dar resistência e formato uniforme.

Eu não faria assim de novo para a base. Usaria espuma ou isopor, o que teria me poupado muito trabalho com modelagem através de fita.
Nesta vista por baixo dá pra ver a gambiarra pra manter a estrutura incial num formato mais ou menos rígido. Veja que a minha mão está segurando a "touca" de EVA, que é a base de tudo.
Vista frontal. Tudo cheio de fita para ir dando mais ou menos o formato da cabeça.
Atrás reforcei com papel. Veja como o EVA ficou enrugado em cima por causa da fita. Não tem problema. Mas se tivesse usado isopor ou espuma teria sido melhor.
Aqui experimentei a estrutura na cabeça pra ver o balanço. Também rascunhei umas coisas pra mostrar onde vai ficar o olho e o nariz. Isso ajuda na modelagem, que é feita usando fita mesmo.
Confesso que fiquei testando o equilíbrio e o peso o tempo inteiro, e já aviso que não adianta. No fim ficou pesado mesmo e foi necessário prender na roupa com barbante...
Depois fiz um reforço geral com o papel kraft e deixei uma "escada" da testa até a nuca, onde vão ser encaixadas escamas mais tarde, de modo que fiquem em ângulo.
Mesma etapa vista de trás.
Visão de cima. Precisei fazer protuberâncias laterais com o papel para que os olhos ficassem virados para a frente. Afinal, olhos de carnívoros são virados para a frente!
Aqui começou a aplicação do jornal cortado. Ele deve ser picotado em quadrados de mais ou menos 5cm x 5cm, porque se for muito maior que isso, ele enruga.
Quanto mais cola for usada, melhor. A cola alisa a peça, tira a rugosidade do jornal e disfarça imperfeições. Ela deve ser aplicada com um pincel.
Sempre que um jornal for colocado, deve ser passada cola por cima.
E lembre-se de sempre lavar o pincel depois de usar. Senão vira uma zica.
Ficou assim.
Depois coloquei os olhos. É uma bolinha de isopor cortada no meio.
Aqui também cortei um pedaço de papel para fazer o nariz.
Veja como deve ficar em ângulo, encostando somente uma das bordas no focinho para dar o aspecto 3D.
E aqui o nariz já cortado. É só dobrar no meio pra não sair um lado diferente do outro. E mais fita.
As escamas do focinho, pela referência que peguei, eram divididas em duplas e escamas sozinhas. Fiz de papel.
Aqui já estão encaixadas, intercalando as sozinhas com as duplas. Tudo preso com fita, sem cola. Nesse caso a cola nem adianta, já que as escamas ficam um pouco em ângulo, sem encostar inteiras no focinho.
O ângulo aparece sozinho por causa da própria curva da cabeça.
Aqui já com as escamas da "escadinha" da testa até a nuca. Também no esquema intercalado de 1 escama e 2 escamas no "degrau" seguinte.
Detalhe de trás.
Depois parti para o céu da boca, para deixar a peça fechada de uma vez. Um espaço precisou ser deixado para representar o beiço e a gengiva.
Fechando com jornal e muita cola.
Os dentes são de papel  cortado em triângulos e arredondados com a mão. Grudados com cola.
Não faria novamente assim. Seria melhor usar dentes prontos de massa (como biscuit). Mas não podem ser pesados!
Para começar os detalhes usei um papel machê comprado pronto, que só faltava misturar cola. Horrível, não use! Se eu soubesse que era tão ruim e pesado teria feito direto com massa de durepoxi + plastilina. Muito mais fácil de modelar.
Também enchi os dentes com essa porcaria. Foi terrível, e repito que faria os dentes de outra forma.
Depois de tudo isso, dei uma mão de tinta para enxergar melhor a peça.
A partir daí começei o acabamento da modelagem com durepoxi + plastilina. Qualquer coisa pode ser usada para modelar os detalhes: palito, hashi, clipe ou caneta.
Aproveitei para detalhar as narinas e fazer a cicatriz embaixo do olho.
O maxilar foi feito com a medida da parte de cima como referência. As extremidades são os encaixes e o meio é o "bico de tartaruga".
A parte de cima é o lábio e embaixo tem umas pontas de barbatanas.
Um papel cortado mais ou menos em semicírculo serve de base para a língua e também para dar forma.
Vista inferior. Veja que ainda precisa de volume...
... e por isso fiz outra parte de papel para ficar mais embaixo. Tudo grudado com fita.
Jornal, cola e mais dentes.
A língua foi feita com um papel. Depois tive que encaixar mais um pedaço para fazer a ponta.
Não faria assim de novo. Seria melhor usar uma espuma ou algo assim.
Tinta, cicatriz e detalhes.
As barbatanas laterais fiz por último. Grudei com cola e fita.
Para prender o maxilar foi difícil... Usei rebites e muita cola com jornal. Mesmo assim precisei deixar com um apoio entre as partes para a boca não fechar durante a secagem.
Depois foi só pintar e dar retoques com outras cores. Sem spray, só pincel. Usei branco, preto, marrom, amarelo e vermelho. O resultado está lá em cima ^^
* * *
Só mostrando como fiz as garras. Ficaram horríveis, e se tivesse tido mais tempo faria luvas mesmo.
A armadura é essa. Passadores de cortina, barbante grosso, EVA, tinta dimensional, jornal e cola. Depois pintei com spray dourado e bronze, com umas manchas de preto pra envelhecer.
Não use betume para envelhecer... Ele tira o acabamento metalizado do spray.
* * *
Esse foi o prêmio. Um Balrog foda!!!
Muito obrigado ao pessoal do Cosplay Brasil, da Limited Edition e à organização do RPGCON!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Projeto 99-222 - parte 24

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

O vulto negro pairava estático no ar, a milhares de metros de altura, enquanto o vento implacável continuava com a infrutífera tarefa de castigá-lo. Ele, cuja identidade permanece incógnita até então, se ocupa com um complexo ritual realizado puramente através da mente, ficando o corpo completamente parado.
    Ali perto, Indretor aguardava em uma nuvem sólida decorada com belos móveis de madeira-ente Sarvilaeniana e tapeçarias finas adquiridas em Turgar. Os cabelos grisalhos que escapavam pelo elmo de chifres eram a única evidência de que havia alguém dentro da armadura negra. Pensamentos cruzavam sua mente como uma frota em meio à tempestade de incertezas.
    - Meu pai... - disse ele com uma voz grave e metalizada pelo elmo maciço. Ninguém o ouvia. - Por que precisamos fazer isso?
    Ele olhou para as mãos, cujas manoplas continham, em sua estrutura, os fragmentos de sua espada de Cavaleiro da Morte destruída tempos atrás, e as fechou com força enquanto dirigia o olhar para o pai. Era possível vê-lo através de uma abertura.
    Levantando-se, o Cavaleiro se dirigiu para a abertura na nuvem para dar uma olhada no andamento do ritual. As grevas castigavam o chão macio.
    Muito acima dali, em meio às luas, algo estava sendo criado. Era impossível ver daquela distância, mas Indretor sabia que uma infinidade de vermes gigantes muito especiais estavam sendo juntados, e em volta deles ia se formando uma crosta de pedra feita de asteróides. A base estrutural era nada menos do que um crânio de protântilo com muitos quilômetros de diâmetro.
    Os vermes eram capazes de armazenar energia, que seria usada para os propósitos da figura mística que flutuava. Propósitos conhecidos por Indretor, mas sobre os quais ele preferia não pensar.

    Logo a estrutura ficaria pronta, tomando forma esférica e um tamanho gigantesco. Se pareceria com uma lua, o que de fato era um disfarce perfeito.

* * *

A camada mais profunda de Doratraks teve o silêncio rasgado por um choro de bebê. Um choro que não correspondia a fome, frio ou desconforto, mas sim a impaciência e sede de vingança. Ele queria sair dali e poder... brincar. Ter amigos e se divertir enquanto trata de reivindicar o mundo-sonho para ele. Sua herança.

- Calma, bebê, calma, filhinho... - dizia Maliah enquanto balançava o berço vazio.
    - Droga, Maliah - reclamou Filag. Chamas irromperam de seus poros e ele se tornou uma fogueira vermelha. - VOCÊ TEM QUE PARAR COM ISSO!
    - Não, Filag! Não...
    O ex-deus segurou o berço com as duas mãos e o ergueu no ar. Os panos e o colchão se soltaram e viraram cinzas num instante, e a seguir a estrutura de madeira teve o mesmo destino. O brilho iluminou os outros ex-deuses, que assistiam à cena sem esboçar reação. Eles pareciam satisfeitos no final.
    Filag se apagou e voltou para sua cadeira, mas o lugar não retornou à escuridão completa imediatamente devido à pequena fogueira que ainda crepitava no chão. O choro de Maliah se misturou ao do bebê, e ela suplicava:
    - Oh, Maya, por que fez isto comigo? Por que tirou meu filho de mim...? Ele está chorando e precisa do meu colo... Ah, Maya...

* * *

Fora do sonho, na câmara ao lado do laboratório do projeto 99-222, onde ficava a bolha espacial com a família de alienígenas, um cientista ouviu o que Maya, mãe de Aldetor, disse:
    - Atikus lye rialos ianar, Maliah; prastaj iar. - Que significa "Aquilo não é um filho, Maliah; é uma aberração".
    O cientista não entendeu de imediato, mas foi o estímulo que ele precisava para pesquisar mais a fundo o idioma falado em Aldetoron.

[Leia a próxima parte]

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Projeto 99-222 - parte 23

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

O império de Mitras se preparava para o alvorecer, e por isso os Dragoeiros das Sombras cediam seu lugar nos céus para os Dragoeiros da Luz, que se encarregariam da segurança aérea a partir de então. Assim, a cena em questão apresentava um belíssimo céu arroxeado com crescentes ondas vermelhas que iam ganhando mais e mais amarelo à medida que a descomunal serpente Laefel revelava seu Olho Direito, também conhecido como Sol.
    Os Dragoeiros das Sombras se dirigiam à Capital Imperial após uma noite movimentada na região de Kanago, e o caminho de volta revelava todo o esplendor  do império arbóreo de Sarvilae a oeste com seu tom esmeralda. Ao norte a desmedida cordilheira que correspondia ao império de Balodin possuía, dentre suas inúmeras montanhas, alguns montes não tão altos que demarcavam o limite com Mitras. Ali ficava a Capital Imperial, também chamada de Cidade das Corujas.
    Um círculo de picos rochosos na face sul da cordilheira delimitava a entrada principal para a cidade, que só era acessível a quem tivesse algum meio de transporte voador. O caminho era um túnel largo e vertical, por onde trafegavam navios voadores de todos os tipos e montarias aladas diversas, incluindo dragões. Por ali entrava também a luz do dia e, assim, devido ao ângulo restrito, por um determinado período correspondente à Água Diurna, a capital era banhada pela luz de Laefel, passando o restante do tempo iluminada por um complexo sistema de espelhos e pedras capazes de armazenar e irradiar luminosidade.
    Muitos gostavam de classificar a capital de Mitras como uma cidade subterrâea, mas na prática sua posição ficava muitos quilômetros acima do nivel do mar, estando sua estrutura acomodada entre montanhas, e não sob o solo.

    Os dragoeiros que chegavam iam deixando suas montarias na área de pouso, de onde seriam levadas para o Ninho, e se dirigiam para suas casas após horas e horas de voo. E então vinha aquela estranha sensação de sentir os pés no chão após tanto tempo no ar, como se o peso do corpo simplesmente não tivesse estado ali por todo aquele tempo. Sensação essa que se intensificava quando as lustrosas armaduras eram retiradas para serem limpas pelos criados e a seguir entregues aos sacerdotes de Villia no templo piramidal, no centro da cidade, onde seriam abençoadas com preces de proteção.
    Ali, do lado de fora do enorme templo e servindo de acesso a ele, ficava a grande Escadaria das Corujas - um único lance de 49 degraus largos, ladeados por esculturas representando corujas de muitos estilos: corujas antropomórficas, com quatro patas, sem patas, com muitas asas ou muitos olhos, entre outras.
    Ao lado de uma delas, mais especificamente da coruja com dois pares de asas e nenhum olho, Jocasius esperava. Sua expressão era séria e tranquila, mas uma nuvem de impaciência rondava sua mente, perceptível somente através de uma minuciosa análise de seus olhos, que perscrutavam os arredores. Ele se virou para aquela estátua e a estudou.
    - Muita pressa e nenhuma visão. Não é de espantar que você esteja nos degraus mais baixos - disse ele, levantando as sobrancelhas e forçando um sorriso. E então voltou o olhar para a praça abaixo, quase vazia naquela hora. - Certas pessoas, por outro lado, parecem não se importar com velocidade - comentou afinal, referindo-se à demora de seu convidado.

Enquanto considerava a opção de ir embora, o teurgista místico se surpreendeu com a aproximação de um homem alto usando correntes ao invés de roupas. Parecia um manto feito de elos vermelhos e brilhantes, pois somente sua cabeça e suas mãos eram visíveis, de modo que sua aproximação era evidenciada pelo som da malha metálica arrastando no chão de pedra.
    - Desculpe-me pela demora.
    - Olá, Vadris. Ou prefere que o chame de Yoshua?
    - Yoshua não existe em Aldetoron - respondeu Vadris, com uma voz ácida. - Agora me diga como conseguiu acordar, sendo que você e os outros foram devidamente preparados para o projeto.
    - Não é sobre isso que vim falar - rebateu Jocasius. - Preciso que você me ajude com algumas coisas lá fora.
    - Fora de Aldetoron?
    - Sim.
    - Temos um grande problema quanto a isso, pois fui preso - revelou Vadris, mas sem ares de preocupação.
    - Você não parece preocupado - provocou o outro.
    - E com o que me preocuparia? Após o julgamento posso ficar preso pelo resto da vida, mas nada pode me impedir de voltar a este mundo e continuar livre com este avatar que criei.
    E então Jocasius fez uma expressão de "má notícia" que causou preocupação, e disse:
    - Sinto informá-lo que muito em breve Aldetoron passará por um Pesadelo dos grandes.
    O homem das correntes pareceu confuso e deixou transparecer sua ignorância acerca dos Pesadelos.
    - E o que isso tem a ver comigo?
    - Durante os Pesadelos é impossível entrar no mundo-sonho. Além disso, qualquer criatura que não derive da consciência de Aldetor é expulsa. Ou seja, qualquer um que não tenha nascido aqui.
    - O que também inclui você, Jocasius.
    - O que me inclui, é claro. Mas conheço alguém capaz de nos manter aqui, em segurança, mesmo durante um Pesadelo. Ele está disposto a ajudá-lo também, desde que você nos ajude lá fora.
    - Eu já disse que estou preso e sem acesso a nada fora da minha cela - respondeu Vadris, impaciente.
    - Lembre-se que você deu  a caixa para a Devdas. A caixa, lembra?
    Vadris foi tomado por um súbito clarão mental que fez um calafrio percorrer seu corpo onírico.
    - Eu poderia...
    - Sim, poderia, desde que ela permita. Venha, vamos andar um pouco enquanto eu explico o que você precisa fazer.

Então os dois foram caminhar pelo belíssimo pomar do Jardim da Sabedoria, onde Jocasius tratou de contar a Vadris coisas que o leitor ainda não pode saber. Foi uma longa conversa.

[Leia a próxima parte]