segunda-feira, 29 de junho de 2009

Projeto 99-222 - parte 22

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

Indignados, eles descobriram que o orc já havia desaparecido entre as construções locais. Rham ainda segurava o dinheiro que havia recuperado, mas descobriu que não havia sobrado o suficiente ali para cobrir o prejuízo pela perda da arma sagrada, de modo que pegou o conjunto de adagas que estava guardado perto do caixa. Devdas verificou sua preciosa caixa de maneira, que recebeu de Vadris e ainda não tivera a chance de abrir.
    - Vocês - começou a guerreira, dirigindo-se aos clientes do lugar com um tom grave na voz. - Tratem de trazer aquele orc ladrão de volta ou fazê-lo devolver a espada, já que conhecem essa vila melhor do que nós.
    - E por que faríamos isso? - ousou um jovem hobgoblin que acabara de terminar uma latinha de refrigerante, amassando-a com o pé. Os outros pareciam ter a mesma opinião que ele.
    - Porque talvez essa onda de incêndios da região finalmente chegue até aqui - ameaçou ela, tirando uma tocha do apoio na parede. E com isso ela causou uma onda de vogais indignadas que preencheram o ambiente. Anidro e Rham balançavam a cabeça positivamente, e Dourado estava realmente disposto a recuperar a relíquia roubada.
    Então, após um breve silêncio, um meio-orc carrancudo se levantou da cadeira apontando o machado rústico para o teto:
    - Vamos pegar esses forasteiros!
    A turba seguiu o exemplo e cada um se preparou para o linchamento, e por um breve momento só se ouvia o arrastar das cadeiras. Muitos estavam desarmados e os da frente quase desistiram ao vislumbrarem a corrente cravejada balançando ameaçadoramente, o escudo afiado a postos, a lâmina do clérigo e a estranha espada suja de caramelo nas mãos do ogro.
    Vendo a hesitação da massa, mas doido para entrar em ação, Rham resolveu quebrar o gelo e tomou a tocha de Devdas, atirando-a na estante atrás do balcão para que a mistura com as bebidas alcoólicas causasse belos efeitos especiais. O objeto estilhaçou duas garrafas com o impacto e causou o efeito pretendido, de modo que a investida dos quatro companheiros teve um brilhante fundo amarelado, o que conferiu um aspecto extremamente heróico à cena. Os cientistas, que observavam tudo de suas cadeiras no laboratório do projeto 99-222, vibraram de emoção diante das telas. Era um filme de ação ao vivo e sem censuras.

Rham se deixou possuir pela fúria bárbara e começou a rachar crânios, mas os oponentes se mostraram mais ferozes do que o imaginado. Anidro logo adotou a postura defensiva, conjurando escudos mágicos através de suas preces a Villia enquanto Dourado permitia seu lado dracônico ter um pouco do sangue que precisava para lavar as mesas da taverna com jutiça quente.
    Devdas, por sua vez, subiu no grande lustre de latão com a ajuda de sua corrente. Ela parecia dominada por alguma entidade demoníaca enquanto gargalhava, balançando-se no objeto por puro vandalismo até fazê-lo ceder sobre o salão.
    Não houve chance para os aldeões, que fugiram tanto das lâminas quanto da guerreira maluca que balançava as correntes de um lado para o outro, destruindo o cenário. Uma parte da multidão, no entanto, foi transformada em bolos, tortas e balas pelo bárbaro enfurecido.
    - BASTA! - pediu uma meia-orc de cabelos desgrenhados e camisa rasgada. - Vou procurar o estalajadeiro pra vocês - disse ela, arfante.
    Anidro, Devdas e Dourado se contiveram, mas seria muito difícil parar Rham, que já escalava um morro de corpos para chegar aos próximos oponentes. Seu senso de sobrevivência, no entanto, o preveniu que saísse logo dali pois o fogo se alastrava rapidamente.
    A meia-orc saiu correndo para cumprir sua promessa e todos os outros que estavam dentro da estalagem também saíram como puderam antes que o teto desabasse. O fogo já ia se espalhando pelos galpões adjacentes e com certeza consumiria boa parte do quarteirão antes que a chuva caísse. Ou seja, a raiva estava descontada.
    Algum tempo se passou enquanto eles esperavam pelo retorno da mulher.
    - Olha - disse Anidro, mostrando a barriga do ogro revelada pelos rasgos na roupa. - A flor nasceu de novo!
    - Bonita - avaliou Devdas, com uma calma que contrastava muito com seu comportamento de momentos antes. Ela nem parecia cansada.
    - Hmm - fez Rham, acariciando a flor de pétalas pequenas e um grande miolo cheio de sementes, parecido como um girassol.
    - Não, não arranca! - pediu o menino, vendo que a grande mão ocre havia puxado o caule, partindo-o. Ele a levou para perto do nariz e constatou que o cheiro não era muito bom.
    - Olho de Baglávia - disse o bárbaro olhando para Dourado, confirmando o nome. E logo adiante vinha a aldeã trazendo a Vingadora Sagrada nas mãos, exausta e coberta de suor.
    - Encontrei no chão - disse ela, e sem dizer nada sobre a óbvia mentira, o clérigo guardou a arma sagrada.
    Os habitantes locais observavam o estrago causado em volta enquanto a chuva cuidava de apagar as construções flamejantes, secando-lhes as línguas dançantes de fogo que se contorceram antes de desaparecerem completamente.

Logo o lugar estava mergulhado na escuridão molhada, iluminado de leve pelo brilho das estrelas e das luas.
    - Vamos procurar um lugar pra dormir, longe desse povo - sugeriu Dourado em voz baixa, começando a andar.
    - As luas parecem maiores hoje - concluiu Anidro enquanto mordiscava um pedaço de bolo que antes era um pé direito. - Estão bonitas.
    "Mau sinal", pensou o clérigo, sem verbalizar para não criar alvoroço. Ele sabia que quanto maior a distância entre eles e as luas, mais seguros estariam, mas talvez elas simplesmente voltassem a se afastar nos próximos dias. Era o que ele esperava...
    Antes de irem, Rham jogou sua flor nos escombros da estalagem como uma espécie de assinatura pessoal. E a partir de então passou a deixar um olho de baglávia em cada lugar importante por onde passasse, fato pelo qual passou a ser conhecido como Rham Olho de Baglávia.

[Leia a próxima parte]

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Iniciativa 4e: Adiamento

Felizmente esta sexta-feira não vai ter artigos da Iniciativa 4e!

Sim, é uma boa notícia pelo fato desse vácuo ter sido causado por um projeto muito interessante que estamos desenvolvendo, e por isso nosso tempo de dedicação à Iniciativa foi redirecionado.
Se tudo der certo, muito em breve teremos algo bem legal pros mestres! E digo mais: quem quiser saber do que se trata, é bom ir no RPGCON. O quê? Não comprou seu ingresso ainda??

E aproveitando o espaço, eu gostaria de parabenizar a criação da Iniciativa M&M, que recentemente atraiu vários blogs que se uniram para criar material inédito para o sistema Mutants & Masterminds. Fico satisfeito de ver os resultados do trabalho em equipe se refletirem, e espero que a Iniciativa 4e continue servindo de modelo para o aparecimento de outras equipes!

Pra quem quiser saber mais sobre a IM&M, que tal um Google, ou então um Bing?

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Projeto 99-222 - parte 21

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

A noite rugia sobre as planícies, anunciando uma tempestade. Mas enquanto aquelas terras não vissem alguma gota d'água vinda dos céus, o forte vento serviria apenas para espalhar o fogo que consumia os povoados próximos, enquanto raios azulados criavam o contraste branco-azulado contra o vermelho e o amarelo das campinas incendiadas.
    Ugosh era uma aldeia pacífica dedicada ao comércio e quase não participava das questões políticas entre as tribos de orcs e goblinóides.
    Tratava-se de um lugar importante para todos, já que era ali onde se dava a circulação do dinheiro.
    - Dois quartos, por favor - pediu Dourado ao orc estalajadeiro, que se ocupava com malabarismo utilizando adagas. Um amplo salão com grandes mesas servia de refeitório e também era utilizado como taverna. Havia muitos fregueses, mas a maioria pertencia às aldeias próximas e estavam ali para fugir do fogo, buscando abrigo na neutra Ugosh.
    Desnecessário dizer que não havia som de talheres, pois os orcs, meio-orcs e goblinóides não precisam de tais aparatos tecnológicos.
    Subitamente Anidro se deu conta de que ele e sua irmã eram os únicos humanos ali.
    - Uma peça de ouro por quarto - disse o orc, finalmente guardando as adagas e olhando o meio dragão nos olhos.
    - Tudo isso? - reclamou Rham.
    - Só quero descansar... Toma aqui a minha parte - cedeu a guerreira, puxando a moeda da mochila. - Vem, Anidro.
    Pensando duas vezes, Dourado colocou mais uma moeda sobre o balcão de madeira sob os olhares curiosos dos demais clientes.
    - Vamos, Rham.

    A escadaria rangia sob os pés do clérigo, mas o peso do ogro fazia os degraus estalarem perigosamente. A seguir um corredor estreito demais para Rham os levou até o quarto, cuja entrada feita para humanóides medianos representou um desafio quase insuperável.
    Antes de conseguirem sequer avaliar as condições do quarto, os dois tiveram a atenção roubada pelo grito de desgosto de Devdas:
    - Mas não tem nem cama aqui! São amontoados de feno com lençóis sujos em cima!
    - Pelo menos o quarto de vocês tem porta - invejou Rham.
    - Não vale uma peça de ouro - concluiu Anidro.
    - Bem, é o padrão de qualidade que se espera de uma estalagem para orcs - relevou Dourado. - Mas uma peça de ouro não deve ser o preço usual - admitiu, balançando a cabeça e apoiando as mãos na cintura.
    - Mana, o que você acha de...
    Mas ela não estava mais ali, de modo que os três desceram às pressas.

- ... e por isso não posso devolver - ouviram eles, vencendo os últimos degraus e chegando novamente ao salão. Agora havia mais meio-orcs ocupando as mesas. A maioria estava coberta de fuligem e alguns apresentavam queimaduras.
    - Não vai devolver o dinheiro? - quis saber o ogro, encarando ameaçadoramente o estalajadeiro.
    - Veja bem, amigo, me deixa explicar de novo...
    - Vai devolver ou não vai? - cortou.
    - Não.
    Devdas fez um "O" com a boca e ergueu as sobrancelhas. Dourado, vendo no que aquilo poderia dar, tentou uma última vez:
    - Escuta, senhor...
    - Bakar.
    - Certo. Escuta, senhor Bakar, estamos viajando há alguns dias e meus amigos não estão dispostos a discutir seus motivos. Não há nada que o impeça de devolver o dinheiro.
    - Não vou devolver. Esta é uma boa estalagem, por isso podem subir que...
    Naquele momento Rham esticou o braço e meteu a mão atrás do balcão, buscando o dinheiro.

As noites insones ao relento pela qual os aventureiros passaram desde que saíram de Gwarer se misturaram à teimosia do orc e a recuperação das duas moedas não foi o suficiente, o que resultou em uma explosão de emoções que se iniciou com um simples silêncio de aparente satisfação por parte dos quatro. Eles trocaram olhares cansados, porém inflamados pela necessidade de fazer a simples justiça à qual todos os seres vivos têm direito. Mas antes de conseguirem iniciar um sermão sobre os malefícios da extorsão, o estalajadeiro pulou sobre o tampo de madeira e atravessou o grupo trombando com o clérigo, chegando a seguir à rua.
    - Mas o que... Ele pegou a espada, a Vingadora Sagrada! - bradou Dourado.

[Leia a próxima parte]

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Projeto 99-222 - parte 20

 [Leia a parte anterior] [Leia do começo]

- ... e foi assim que a fiz implorar que eu terminasse de uma vez - concluiu Rham, explicando a experiência íntima que teve com a amazona halterofilista.
- Não queremos saber do que fez com ela, Rham - explicou Devdas, pacientemente. - Eu perguntei a respeito da flor que você disse que nasce no seu umbigo. E sinceramente achei desnecessária a descrição da posição "balanço dos ovos tortos", bem como a imitação dos gemidos dela.
- Eu dei a flor pra ela - contou, com as faces rubras.
- Você arrancou? - questionou Anidro. - Eu queria ver!
- Vai nascer de novo, e rápido - explicou Dourado, finalmente intervindo. - Mas vamos logo nos preparar; partiremos para o sul hoje mesmo em direção ao porto de Nagovir, de onde pegaremos um barco para a Ilha Sauria.
- Que pena não termos encontrado o Jocasius... Vou sentir falta dele - confessou o pequeno paladino.
- Ele não deixou pistas - explicou-se Dourado. - Procurei novamente esta manhã, mas é como se ele tivesse partido de propósito, sem deixar notícias.
- Ele às vezes dizia que estava "prestes a acordar a qualquer momento", como se estivéssemos vivendo um grande sonho. Será que ele... meio que acordou? - especulou a guerreira de cabelos espetados, cujo penteado fora adotado permanentemente.
- Eu não queria ter que falar sobre isso, pois é um assunto que é sempre discutido entre o clero e eu já tive que ler tanto a respeito... - começou Dourado, com uma expressão de cansaço mental. - Vocês sabem que vivemos neste mundo chamado Aldetoron, que é o mundo sonhado por Aldetor, o Criador, certo?
- Mas isso não é um tipo de metáfora? - sugeriu Devdas, quase querendo mudar de assunto e balançando a cabeça para afastar os infinitos pensamentos que tal conceito fazia surgir em sua mente.
- Não, não é uma metáfora. É real.
- Por que não disse antes? - sensurou o ogro, fingindo se importar.
- Vejam bem... Isso não é um segredo. Como eu disse, fala-se sobre isso por aí, mas a maioria simplesmente não se importa.
- Mas então por que o Jocasius ficou tão intrigado se é algo tão simples assim? - perguntou Anidro, confuso.
- Não sei responder a essa pergunta, mas a grande questão é a seguinte: Aldetor dorme e sonha este mundo, mas nós não estamos dormindo como ele! Somos sua criação e vivemos despertos em seu mundo-sonho. Então que impressão é essa, que o Jocasius tinha, de estar prestes a acordar sendo que quem está dormindo é Aldetor? Esse é o ponto-chave que queria discutir com ele, e foi por isso que concordei que ele ficasse estudando na biblioteca da cidade.
- E se nós... estivermos dormindo também? - soltou Rham, e imediatamente teve uma forte onda de dor de cabeça devido ao esforço necessário para produzir tal frase. Mas nenhum deles fazia idéia do quanto o ogro estava certo; muito menos ele mesmo.

***

Novamente montados em ubatayen, os aventureiros seguiram rumo ao sul. O império de Itgar se estendia até a borda sul do continente, separada a oeste do império de Lushma (também conhecido como Sogoma) por uma imensa cordilheira que delimitava o deserto Holai-Kell.
O grande reino de Sarmate, subordinado ao império de Itgar, correspondia a metade daquelas planícies e era muito comum ver grupos de amazonas garantindo a tranquilidade das estradas, de modo que a adição de uma pitada de sorte garantiu que a viagem transcorresse tranquila até seus limites meridionais. Mais ao sul, no entanto, estava o reino de Amanor, um lugar governado por orcs, goblinóides e demais humanóides monstruosos (com ou sem pelos e garras).
Havia um cheiro de queimada no ar, fato devido à soma de dois fatores: construções de madeira e rivalidade entre tribos. E justamente por causa dessa conveniente distração os companheiros conseguiram avançar vários quilômetros sem problemas com asaltos ou coisas do tipo.
- Já estamos chegando? - perguntou Anidro.
- Não - respondeu Devdas, pela oitava vez nos últimos 30 quilômetros, apertando os olhos para enxergar adiante por causa da fumaça causada por um incêndio próximo. O crepitar se fazia ouvir como se o fogo estivesse mastigando a madeira com dentes incandescentes.
- Vejam, tem uma estalagem lá na frente. Mas onde será que estamos? - perguntou-se Dourado, logo a seguir vendo um meio-orc coberto de fuligem e tossindo, de quem obteve a informação em troca de algumas moedas de cobre.
- Aquela é a *tosse* vila de Ugosh. A única por aqui que *tosse muito mais forte* ainda não teve nenhuma casa incendiada - disse o ser de pele ocre, guardando as moedas no bolso furado.
- Então é para lá que vamos - disse o paladino virando-se para os outros. - Só espero que não queime esta noite...
- Não me importo - confessou Devdas. - Só preciso descansar.... Ei, moço, suas moedas caíram no chão.
- Obrig- *tosse*
E então seguiram para a estalagem de Ugosh, cujo estalajadeiro estava prestes a aprender uma importante lição sobre o valor do dinheiro...

[Leia a próxima parte]

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Projeto 99-222 - parte 19

 [Leia a parte anterior] [Leia do começo]

- Mana, preciso fazer xixi.
- Já estamos chegando na taverna; aguenta mais um pouco - respondeu a guerreira, que ainda tinha a expressão "não é mais seguro" martelando na cabeça. O que isso poderia significar? Os kytons saberiam do que estavam falando?
- Então fala pro Dourado comprar logo a armadura dele... Vai vazar aqui!
- Pronto - anunciou o clérigo da guerra, triunfante, trazendo a armadura completa que acabara de comprar no grande mercado de Exgwar.
- Nem acredito que voltamos pra essa cidade - disse Devdas, e então inspirou o ar carregado de aromas. Sua perna estava restaurada, bem como o braço de Rham, graças à bondade de uma clériga de Villia. Logicamente uma generosa doação fora oferecida antes do favor, o que sob a ótica de alguns poderia ser classificado como "comércio de membros".
- Precisamos procurar Jocasius para ver se ele descobriu alguma coisa - lembrou Dourado. - Talvez aquelas coisas que ele falava tenham alguma relação com o que os kytons disseram.

A cidade emanava o clima de aconchego que os aventureiros buscavam após dias em locais hostis. E a taverna era o lugar ideal para gastar as últimas forças antes do descanso, principalmente porque precisavam pegar a recompensa. Mas Dourado sentiu um comportamento estranho, notando que alguns grupos de amazonas se deslocavam apressadas entre as torres de vigia, e outras permaneciam atentas em cima da muralha, mais rígidas do que o usual, como se esperassem que algo fosse acontecer.
- Boa tarde, caros aventureiros! - cumprimentou Shayene, garçonete da taverna O Amigo Morto, com sua frase padrão. - Pelo jeito conseguiram lidar com a última missão.
- Cadê o Nario? - perguntou Devdas.
- Posso ir ao banheiro? - cortou Anidro, e seu pedido foi concedido. A garçonete então apontou onde estava o anão: tentando a sorte com algumas amazonas.
- Ei, anão - invocou o ogro, louco para ver sua parcela do ouro. Afinal o porão da senhora Rheda já estava livre de diabos.

O intermediador de missões estava sentado em uma mesa com três mulheres, sendo que uma delas tinha o braço mais largo do que a cabeça dele. Sua atenção voltou-se para Rham, que vinha a passos largos.
- Viemos... nós viemos... - começou o guerreiro, entorpecido pela atração causada pela amazona de bíceps superdesenvolvidos. - Olá - disse a ela, com voz de tonto, sentando-se à mesa e ignorando o chamado de Devdas, que havia encontrado uma mesa vazia do outro lado do salão.
- Olá - respondeu a mulher, com voz grossa.
- Quer fazer sexo? - arriscou Rham.
- Sou comprometida - respondeu ela, sem deixar de sorrir por causa do convite explícito.
- Com ele? - quis saber o ogro, apontando para o anão.
- Não, com ela - disse a amazona, quase ofendida, mostrando a guerreira ao lado com um gesto de pescoço. Tratava-se de uma mulher de olhos apertados e rosto redondo, absurdamente atraente, e as duas enroscavam as pernas sob a mesa. O anão interveio:
- Não me atrapalhe, ogro, estou tentando convencer essas duas a me deixarem vê-las em ação. - E após uma longa pausa, notando que Rham não havia entendido, completou - Em ação, você sabe, se pegando na cama.
- Ah, mas eu não quero só ver - explicou Rham.
- Certo - disse a grandona, levantando-se com ar de impaciência. - Aceito o seu convite se você conseguir me derrubar ali - desafiou, mostrando a pequena arena improvisada.
- Eu? - indagou Nario.
- Não... O do ogro. Sem armas.
A outra amazona ficou empolgada com a situação, o que demonstrou instintivamente ao se ajeitar na cadeira como se houvesse algo impedindo-a de ficar parada.

O ogro e a humana se dirigiram ao pequeno espaço reservado para brigas na taverna, que no momento não estava sendo utilizado. Havia manchas de sangue na pedra e todos os rostos se viraram naquela direção, ficando mais animados.
- O que aconteceu? - perguntou Anidro, mas os companheiros não sabiam, de modo que se limitaram a olhar também para aquele lado.
Sem cerimônias o ogro desferiu o primeiro soco, com pressa de clamar seu prêmio. A amazona recebeu o golpe de bom grado, bem como os seguintes, até que conseguiu encontrar a posição certa para agarrá-lo, levando a briga para o chão sob gritos e assobios de aprovação da platéia que se juntava.
Os dois rolaram algumas vezes e ela ficou por cima, imobilizando-o com as poderosíssimas pernas. Ele era mais de um metro maior do que ela, mas isso não importava na horizontal. Além disso, ela acabara de criar uma distração a seu favor, roçando os quadris e provocando em Rham uma reação em cadeia que o fez produzir baba em profusão.
A maioria das pessoas já estava de pé, acompanhando a frenética troca de socos até que eles não conseguiam mais continuar. E o motivo era o fato de eles estarem rindo tanto que os braços perderam força, e por isso resolveram alugar logo um quarto.

Os outros tentaram, sem sucesso, localizar Jocasius na cidade. Havia dias que ninguém o via na biblioteca e nem na taverna, e tampouco sabiam para onde ele tinha ido.
Voltando à taverna Anidro resolveu dormir, e após pegarem o dinheiro com Nario, Devdas e Dourado ficaram conversando com Kisha, a companheira da amazona que enfrentou Rham. Além de terem descoberto o fato óbvio de elas terem uma relação aberta, ficaram sabendo também que na madrugada passada um navio voador havia "sequestrado" uma torre do casarão da baronesa Bricia.
- Quem fez isso? - perguntou Dourado.
- COMO fizeram isso? - complementou Devdas.
- Fergus Gancho Aéreo é um pirata dos ares, e seu navio voador é equipado com um enorme gancho que possibilita o roubo de coisas grandes. Mas ninguém imaginava que fosse capaz de roubar uma torre inteira, arrancando-a do resto da construção!
- E o que havia na torre? - quis saber o clérigo.
- Todos os tesouros da baronesa, bem como suas duas filhas Eda e Cyst - explicou Kisha, com ares de assombro. Os olhos negros e brilhantes quase desapareciam entre as pálpebras apertadas, e o cabelo liso estava trançado e erguido em um coque. As roupas de couro reveladoras, sempre em moda entre as amazonas, amplificavam sua beleza.
- E alguém sabe para onde foram?
- Para a Ilha Sauria, ao sul do continente. A líder das amazonas, Arlene Orgulho Rubro, está organizando uma expedição. Até agora o pirata não pediu resgate pelas filhas da baronesa, mas talvez ainda seja cedo para isso.
- Acredito que ela não vá levar muitas guerreiras nessa expedição, pois a cidade perderia proteção - considerou Dourado.
- Isso mesmo - disse Kisha.
Devdas e Dourado se entreolharam.
- Ouvi dizer que na Ilha Sauria vivem gigantes druidas que se transformam em dinossauros.
- Tem alguma recompensa? - perguntou Devdas
- Ah, sim, é claro que a baronesa recompensará quaisquer heróis que tragam suas filhas, com ou sem o tesouro, de volta - disse a mulher, que viu o brilho nos olhos dos interlocutores diante da iminência da aventura.

[Leia a próxima parte]

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Projeto 99-222 - parte 18

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

- O que é que eles estão falando? - perguntou um dos cientistas, de forma retórica.
- Precisaremos iniciar uma pesquisa sobre esse idioma que eles falam, mas antes é importante que seja feito um relatório sobre o relacionamento dos voluntários com essas... criaturas - disse outro, referindo-se aos kyton.
- Hmm - fez um terceiro, observando os registros dos sinais vitais no holodeck.
- O que foi?
- Alguns dados se perderam aqui... Os que se referem ao voluntário Jocasius.
Todos arriscaram uma olhada nos leitos, mas apesar de toda a mística que envolvia o projeto, nada havia acontecido com os corpos dos voluntários.
- Problemas no equipamento?
- Possivelmente.

A pesada porta de metal se abriu e os cientistas deram meia volta, prestando continência ao ilustre visitante.
- Como vão os trabalhos, senhores? - quis saber o general Slarus, cuja expressão facial lembrava geleiras, tanto pela dureza como pela cor.
- O projeto 99-222 segue conforme o esperado, general.
Haziel Slarus caminhou pelo laboratório com ritmo unifirme e cerimonioso, observando os equipamentos como se compreendesse a função de cada um. A luz branca fazia reluzir os emblemas no quepe e no uniforme cinza, e destacavam o cabelo grisalho.
A equipe o acompanhava como filhotes recém-nascidos de Jautax, exceto Yoshua, que permanecia de pé ao lado do alimentador do holodeck. Ele estava suando e, exatamente por isso, atraiu os olhos atentos do general.
A pequena procissão, liderada pelo austero militar, parou diante do rapaz.
- Oficial Yoshua, um passo para a direita - ordenou o iceberg quase sem mover os lábios.
Yoshua obedeceu enquanto inúmeras coisas passavam por sua cabeça, e o general seguiu as pistas fornecidas pelos olhos do subalterno, chegando ao objeto escondido como se a linguagem corporal do homem fosse um mapa para o tesouro.
- Ora, há tempos não vejo um diário de papel sintético - confessou o general, em tom irônico, enquanto folheava o pequeno volume com os dedos nodosos. E em seguida dirigiu-se para a porta, onde dois soldados ogros esperavam para escoltá-lo de volta. - Venha ao meu gabinete em seis horas - disse por fim, virando a cabeça somente o suficiente para indicar que não estava falando com os soldados, e então se foi.

O vislumbre do chão metálico não aliviou a tensão do soldado, mas seu raciocínio continuava quase intacto graças ao treinamento que recebera para poder integrar a Inteligência do Setor de Defesa. Já os olhares inquisitivos da equipe de cientistas, que insistiam em juntar-se ao desconfortável silêncio, começavam a deixá-lo mais desconcertado de modo que ele se viu obrigado a se retirar para poder pensar.
Em seu pequeno dormitório, Yoshua perscrutou os pertences e priorizou a linha de pensamento que defendia sua sobrevivência, mas suas conclusões descartaram a possibilidade de fuga. Então tentou ver a situação sob a ótica do general, tentando descobrir qual seria a sanção - o que, por sua vez, dependeria da acusação.
Pensou por algum tempo até que ouviu leves batidas na porta.
- Olá, oficial Yoshua.
- Dr. Percival Slarus... a que devo a visita?
- Vim informar que não há razões para se preocupar com sua segurança.
Yoshua não via razão para dizer alguma coisa. Ele sabia que a relação entre o doutor e o general era ácida apesar de serem pai e filho, e por isso mesmo acreditava em suas palavras.
O doutor continuou:
- O general não tem uma equipe muito numerosa para lidar com o projeto 99-222, e todos sabemos que você é o mais capacitado para desvendar os mistérios da mente daquele alienígena chamado Aldetor. Então esteja certo de que suas descobertas, mesmo que feitas em segredo, agradarão o general.
O soldado então ergueu a cabeça e os olhares se encontraram por um ou dois segundos.
- Obrigado, doutor.

Não muito aliviado, Yoshua resolveu caminhar pela EU. As superfícies eram lustrosas e bem iluminadas no Setor de Defesa, mas o mesmo não podia ser dito da Cidade - o complexo onde viviam todos os civis, que ocupava a maior parte da colossal espaçonave. Ali, em uma área de cerca de 2.000 km², moravam mais de 10 milhões de pessoas de inúmeras espécies, mas na maioria humanos.
O contraste era percebido no momento em que o portão 3 era aberto, quando o aroma gorduroso se fazia perceber, vindo de todos os lados. A paleta de cores também mudava bruscamente, saindo da escala de cinza para a explosão de vermelho da ala comercial, salpicada de pontos azuis, brancos e verdes, que correspondiam à iluminação de cada estabelecimento. E as placas piscantes eram um espetáculo à parte no que se refere à criatividade dos comerciantes para fortalecerem suas marcas. Logicamente não havia um "céu", sendo que fumaça do lugar adquiria a famosa tonalidade vermelha devido às caldeiras acima, dando um aspecto de "céu em chamas".
O barulho de vozes e alertas sonoros também buscavam seu espaço na já comprometida capacidade de percepção do transeunte, completando a inundação dos sentidos.
Uma última olhada para trás mostrava a Yoshua que os soldados continuavam guardando o Portão 3 de dentro de seus pesados trajes mecânicos blindados enquanto o controlado tráfego de pessoas fluía para dentro e para fora.
"Uma visita à Pornéia Rubra vai me fazer sentir melhor", pensou, desaparecendo em meio à fumaça roxa do Beco da Luxúria.

[Leia a próxima parte]

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Projeto 99-222 - parte 17

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

A luz vermelha que passava timidamente por baixo das pálpebras finalmente trouxe Anidro de volta à consciência. Ele tentou se apoiar com as mãos para se levantar, mas constatou que elas estavam presas. Com correntes.
- Mana - arriscou, falando baixinho com Devdas, que estava ao seu lado. Mas ela parecia muito envolvida com certos assuntos que só se resolvem de olhos fechados, de modo que não foi capaz de responder.
- Fica quieto, Anidro, que estou pensando em um plano - disse Dourado, com uma voz tão baixa que o menino se impressionou por ter  conseguido ouvir. Havia kytons circulando e fazendo reparos em algumas engrenagens, e o número deles havia diminuído drasticamente.
- Certo - fez Anidro com os lábios, sem deixar sair nenhum som. Afinal, parecia que o plano de Dourado só funcionaria caso eles permanecessem em silêncio, e assim o paladino decidiu colabo...

- ME SOLTEM, SEUS MALDITOS! - praguejou Rham, aparentemente nervoso com fato de estar acorrentado. Mas na verdade ele estava preocupado com o braço que lhe faltava e procurava, com os olhos, o membro perdido. Os diabos haviam cauterizado o local do corte, mas não havia sinal da parte que faltava.
- O quê? - quis saber Devdas, que despertou com o grito. A guerreira parecia perdida como uma criança que vai dormir na casa do amigo e acorda vendo a janela em um lugar diferente do habitual, com uma diferença peculiar: faltava-lhe uma perna. Ela tentou coçar os olhos, mas as mãos estavam acorrentadas atrás das costas de modo que ela se limitou a observar os colegas. Os companheiros admiraram a postura séria e controlada que a guerreira adotou quando descobriu que sua perna não estava mais ali.
Dourado estava com cara de "eu tinha um plano" e Rham estava ofegante.

- Ei - chamou ela, dirigindo a voz ao kyton mais próximo e se esforçando para ignorar o desconforto.
- O khe foy? - respondeu ele, com forte sotaque supernal, e então Devdas iniciou uma longa conversa com ele acerca do que havia acontecido ali, tecendo frases que continham trechos como "é que vocês são diabos", "sentimos muito" e "vocês não quiseram conversar lá atrás", de vez em quando auxiliada por Anidro quando ele notava que ela estava esquecendo algum detalhe importante.
Logo havia outros kyton ouvindo a conversa e, por incrível que pareça, eles estavam interessados.

- ... e foi isso que aconteceu - concluiu ela, sob o olhar incrédulo do clérigo de Egzarot.
- Vocês podem nos soltar? - pediu Anidro, por fim. E foi atendido. Rham foi logo atrás do braço ensanguentado, que estava perigosamente próximo de cair no mar de engrenagens e balançou o objeto no ar como se fosse um troféu.
Já Dourado preferiu espiar algo que tinha notado brilhando metros abaixo, em meio a toda a ferrugem que se movia ritmicamente. E agora, com calma, foi capaz de analisar e concluiu que havia dois restos de paladinos lá embaixo, que tiveram o mesmo destino do grande diabo chifrudo que enfrentaram. Ele  pegou algumas correntes e trouxe para cima com cuidado o objeto metálico, após fisgá-lo com dificuldade sob o olhar de dois ou três curiosos.
Os kyton se afastaram instintivamente quando o clérigo ergueu a espada longa - nada menos que uma Vingadora Sagrada. Ele fez uma rápida prece e olhou para o paladino.
- Não, eu não... - disse Anidro, envergonhado perante toda a atenção que subitamente caiu sobre ele. - Se fosse um escudo em vez de uma espada... Fique você com ela - concedeu, o que Dourado acatou de pronto, guardando-a para apreciar seus detalhes mais tarde.

- Algum de vocês pode por de volta? - pediu Rham, mostrando o braço decepado ao clérigo e ao paladino. Ele estava visivelmente preocupado com a possível negativa.
- Precisamos de um ritual para isso - disse Dourado. - Mas é claro vocês dois ficarão inteiros denovo - acalmou ele, secretamente ciente de que os componentes materiais custariam caro.
- E vocês? - questionou Anidro, dirigindo-se aos kytons. - Têm algo a dizer?

As criaturas então resolveram explicar o que faziam ali, e o que revelaram causou perplexidade.
- Nós não esthamos kriando o porthal para chamar nossos kontherrâneos para esthe mundo, mas sim para khe possamos volthar.
- E por que vocês querem voltar para os Nove Infernos? - quis saber Dourado, feliz com a expectativa das criaturas das trevas estarem organizando um êxodo em massa.
- Esthe mundo... - começou o kyton, olhando em volta preocupado como se houvesse uma superstição impedindo-o de continuar a frase.
- O que tem ele?
- Ele não é mays seguro. Nem para nós e nem para ninghém!

[Leia a próxima parte]

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Iniciativa 4e: Enxamista

Os posts da Iniciativa 4e são sempre conjuntos e temáticos, a serem publicados quinzenalmente. Assim, vários aspectos de um mesmo assunto serão cobertos por diferentes autores (veja os links no final do post), dando origem a um suplemento periódico.
O tema desta 12ª edição da Iniciativa 4e é Insetos, e para ele confira a seguir uma nova Trilha Exemplar!

"Esta pequena criatura não é meu companheiro animal - é só uma parte dele."

Pré-Requisito: Patrulheiro, característica de classe Beast Mastery (do suplemento Martial Power), companheiro animal (aranha*)

Muitos Patrulheiros se dedicam à exótica arte da maestria animal, atraindo companheiros selvagens para ajudá-los. Mas alguns deles, aproveitando-se da capacidade de agrupamento das menores criaturas, conseguem se sintonizar com a consciência coletiva dos enxames como se fossem um único ser.

* Aranhas não são insetos, e não serão tratadas como tal neste artigo. De acordo com o Martial Power (pg. 39), assim que você escolher a categoria de criaturas para o companheiro animal, você deve descrever a aparência, de modo que "aranhas" é o nome do grupo que engloba todos os artrópodos (inclusive os insetos).

Características do Enxamista
Enxame (nível 11): Seu companheiro animal recebe o descritor "enxame", e por isso passa a sofrer somente metade do dano de ataques corporais e à distância, mas adquire vulnerabilidade 10 a ataques contíguos ou de área.
Esteira Viva (nível 11): Parte do seu enxame o ajuda a se locomover, permitindo-o ignorar penalidades no deslocamento devido a terreno difícil bem como obter um bônus de +2 em testes de Atletismo para escalar.
Nuvem (nível 11): Quando você gasta um ponto de ação para realizar uma ação extra, você também ganha camuflagem até o final do seu próximo turno desde que esteja adjacente ao seu companheiro animal.
Ataque de Enxame (nível 16): Seu enxame junta mais e mais pequenos membros e adquire o Ataque de Enxame - aura 1; realize um ataque básico, como ação livre, contra cada inimigo que inicie o turno na aura.

Proezas do Enxamista

Engolfar Ataque de Enxamista Nivel 11
As pequenas criaturas investem ferozmente, buscando aberturas na armadura e mordiscando a vítima por todos os lados.
Por Encontro ✦ Animal, Marcial
Ação Padrão Corporal animal 1
Alvo: Uma criatura
Ataque: Bônus de ataque do animal vs. Fortitude
Acerto: 2[C] + modificador de Destreza do animal. Além disso, o alvo fica lento e sofre 5 pontos de dano contínuo (TR encerra ambos).

Armadura-Enxame Utilitário de Enxamista Nivel 12
Você comanda seu enxame para assumir uma postura defensiva, protegendo seu corpo como uma única carapaça.
Diário ✦ Animal, Marcial
Interrupção Imediata, Pessoal
Gatilho: Você é acertado.
Efeito: Você e seu companheiro animal passam a ocupar o mesmo quadrado (ele precisa estar a uma distância máxima de você igual ao deslocamento dele) como uma ação livre, e a partir de então passam a se movimentar juntos. Você adquire resistência 5 a ataques corporais e à distância (exceto contíguos e de área) até o final do encontro ou até vocês se separarem, o que pode ser feito com uma ação livre.

Nuvem Retalhadora Ataque de Enxamista Nivel 20
Com um comando, seu enxame inicia uma verdadeira dança no campo de batalha, castigando os inimigos com centenas de ataques.
Diário ✦ Animal, Marcial
Ação Padrão
Alvo: Inimigos
Ataque: Bônus de ataque do animal vs. CA
Efeito: O enxame ajusta até 6 quadrados e pode atravessar quadrados ocupados por inimigos. Faça um ataque básico corporal contra quaisquer criaturas cujos quadrados estejam em sua rota. O enxame não pode atacar um alvo mais de uma vez desta forma e deve terminar seu movimento em um quadrado não ocupado.

Em Aldetoron

Trakstis, o império escuro, é conhecido pelas áreas inférteis e desérticas, pela noite eterna e pelo fogo que queima em cores diferentes dependendo da região e do humor do imperador. Mas há pequenos detalhes, ou melhor, pequenas criaturas, que dominam secretamente grandes áreas, sendo sua hegemonia percebida somente quando é tarde demais. Trata-se dos enxames de besouros, gafanhotos e escorpiões, entre outros, que deram à Capital Imperial  Salaxor o título de Cidade dos Insetos.

Em Salaxor desenvolveu-se a técnica da comunicação com esses enxames através do reconhecimento do fato de serem criaturas únicas com consciência coletiva, e os mestres dessa prática são conhecidos como Enxamistas. Eles são responsáveis pela manutenção do clima de cooperação entre os enxames e os demais habitantes do império, em um relacionamento diplomático extremamente complexo que envolve oferendas sazonais e adaptações arquitetônicas tanto na superfície como nos subterrâneos.

Artigos Parceiros da Edição 12

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Projeto 99-222 - parte 16

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

Os ex-deuses podiam perceber o embate como uma brisa agourenta, enquanto os cientistas da EU observavam a mesma cena através de equipamentos neurorreceptores, de fora do mundo-sonho. Mas Rham, Anidro, Dourado e Devdas tinham uma visão bem mais privilegiada, por assim dizer.

O bárbaro e o clérigo, que ficavam à frente, já tinham que se virar com alguns problemas estratégicos. Mas não somente por causa do aspecto tridimensional da batalha, devido à capacidade dos kyton virem de todos os lados com a ajuda das correntes, mas também pelo fato de Rham estar lutando sem a espada e sem o braço esquerdo - o membro fora perdido ao tentar aparar um golpe de tridente. Sua fúria bárbara estava lidando bem com a perda. Na verdade estava se inflando por causa disso.
Já a falta da espada era compensada com a capacidade de improvisação: um cadáver de kyton servia muito bem como clava.
Dourado, por outro lado, começou a perceber que talvez fosse hora de mudar de planos quando tropeçou nos próprios intestinos. Mas felizmente ele notou, a seguir, que não eram dele. Ou eram? Por via das dúvidas fez sinal para Anidro, que se apressou em recitar as preces de cura, as quais por sinal já lhe drenavam as forças a ponto de necessitar de um descanso.

Devdas havia perdido suas correntes na confusão de elos, mas não demorou a encontrar novas pois era o material mais abundante no lugar. Havia o empecilho das correntes dos kyton serem presas a tendões, mas como um diabo morto não precisaria mais delas, a guerreira estava aproveitando a disponibilidade. Ops, esse não estava morto, Devdas!
Quanto tempo havia se passado? Impossível dizer. Mas os cientistas contaram 36 segundos até então.

- O maior, agora! - gritou Dourado, indicando que seria possível cruzar armas com o líder de chifres agora que eles haviam conseguido avançar devido à distração causada por Devdas, levando um grupo de kytons na direção dela.
Torcendo para que, sem o líder, a luta acabasse, eles apostaram tudo na tática do clérigo de Egzarot.
- Shyalacketh Dograth amah-Nasstak! Rumnye aleth! - intimou o diabo, aparentemente anunciando-se como Dograth se os conhecimentos de Dourado sobre a língua supernal não estivessem falhando. Ele batia no peito com a mão livre e seu tônus muscular melhorou visivelmente, coberto por uma teia vascular pulsante.
Havia tanto sangue que não se podia dizer o quão feridos estavam os aventureiros, e a adrenalina mascarava a dor a ponto de nem eles mesmos poderem dizer ao certo. Mas Rham achava que havia ainda mais a ser derramado, de modo que saltou adiante ao mesmo tempo que o adversário fazia o mesmo, e os dois se encontraram em pleno ar de uma forma que pareceu ensaiada de tão espetacular, dando ao espectador o máximo de emoção possível. O diabo empunhando o tridente infernal, e o ogro brandindo o kyton em frangalhos.

Do outro lado da grande câmara esférica, Devdas tentava fugir da tropa de kytons que chamara para si, e não viu uma opção melhor do que se embrenhar nas engrenagens abaixo para despistá-los. E ela descobriu que não fora uma boa idéia assim que a colocou em prática, pois dentes de engrenagens gigantes causam mais mortes do que kytons em qualquer mundo do multiverso.

Dograth combatia de forma acrobática e precisa, mas o fato de estar lutando contra três oponentes o obrigava a gastar a maior parte do tempo se defendendo - o que não era um problema para ele, pois sua definição para uma boa vitória incluía termos como "sofrimento prolongado" e "morte lenta".
De fato os companheiros não estavam dando mais atenção para os diabos de correntes, concentrando todo o esforço no líder chifrudo. E é claro que eles estavam pagando o preço pela audácia, recebendo repetidos golpes nas costas apesar de Devdas ter levado com ela uma parte dos oponentes. Anidro se esforçava para diminuir o problema usando seus dois escudos, e vez ou outra também atacava Dograth já que sua mente estava cansada demais para continuar usando suas preces.

Após mais alguns segundos de sanguinolência desenfreada Anidro notou que Dourado estava um pouco maior. Ele se lembrou que o clérigo havia dito, certa vez, que havia uma prece chamada Força dos Justos capaz de transformar os seguidores de Egzarot em verdadeiras "máquinas de justiça", aumentando a estatura e, consequentemente, a força física. Mas ele ainda não tinha capacidade para conjurar um efeito desses... o que estaria acontecendo?
O oponente, percebendo que Dourado estava sofrendo uma transformação, parou por um momento. Os olhos pareciam fixos em um ponto muito distante como se estivesse perdido em algum pensamento muito preocupante. Mas não era com o clérigo que ele estava preocupado, e sim com o fato de Devdas ter prendido seu pé direito com uma corrente e deixado a outra ponta em uma intersecção de engrenagens que, com dentes chatos e giratórios de metal maciço e oxidado, já tratavam de reivindicar a perna da criatura.

Dograth não gritou enquanto tinha o corpo triturado. Em vez disso manteve os olhos fixos em Devdas, que teve pesadelos por muito tempo por causa daquele olhar.
- Ele vai pegar a sua perna! - advertiu Anidro.
- Merda! - praguejou a guerreira, mas já era tarde demais. O aperto se manteve forte mesmo após a criatura ter o crânio esmagado e seu pé adentrou a tortuosa rota dentada do antiquíssimo equipamento. E ao contrário da vítima anterior, ela gritou. Muito.
- Puxem!! - dizia Dourado, e foi a última coisa que a moça ouviu antes de desmaiar por causa da dor. Mas o sofrimento retornou quando foi acordada pela dor do joelho sendo moído.
- Aguenta firme, mana!!

Eles conseguiram tirá-la e Anidro tratou de drenar suas últimas forças para tentar ajudar a irmã, que havia desmaiado denovo. Uma luz dourada saiu de suas mãos e ele também desmaiou.
Encurralados, Rham e Dourado se viram à mercê dos kyton.

[Leia a próxima parte]

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Projeto 99-222 - parte 15

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

Em meio à escuridão total, a única coisa capaz de despertar a atenção de um hipotético visitante seria o monótono ranger de um berço sendo balançado.
- Algo está acontecendo nas ruínas subterrâneas da antiga Cidade dos Cavalos - anunciou uma voz doce e materna, com um timbre que lembrava seiva de árvore.
- Na Câmara do Relógio? - quis saber uma voz dupla, metálica e vibrante como um riff de guitarra com overdrive, pitch shifter e um pouco de phaser.
- Sim, Naidon. Posso sentir alguns trancos no Tempo, o que certamente tem relação com as engrenagens - respondeu Maliah, sem parar de balançar o objeto sobre os apoios arredondados.
Então dois pontos de fogo azul iluminaram levemente o ambiente, revelando inicialmente o fato de serem dois olhos, e em seguida mostrando o que mais havia naquele lugar.
Tratava-se de um grande salão que, devido aos acúmulos sedimentários e à erosão de mais de 20 milênios, lembrava mais uma caverna do que o palácio que um dia fora. De fato não seria uma atração turística adequada - primeiramente pela superpopulação de criaturas conhecidas como Inimagináveis nas redondezas, que não são nada amistosas, e também porque estava situado vários quilômetros abaixo da superfície.

O bebê dormia profundamente, mas tinha pesadelos terríveis. Ele tentava acordar, mas isso era impossível - e ele sabia disso.
Queria acordar, mas não para encerrar os pesadelos, com os quais já estava acostumado. Ele queria começar outro, um que pudesse dividir com o mundo inteiro.

As cadeiras nas quais sentavam-se os quatro presentes não podiam ser tiradas dos lugares, pois o tempo as prendera no chão. Elas eram largas e luxuosas, e algum dia já foram douradas com almofadas vermelhas. Definitivamente não era um lugar digno de abrigar deuses, mas devemos levar em consideração que havia muito tempo que aquelas pessoas já não eram mais deuses.

E havia o berço, que a mulher balançava com a mão. Ela tinha orelhas pontudas e a beleza despretenciosa das flores, mas aquelas profundezas escuras jamais dariam a ela a primavera novamente.
- Resolveu nos dar um pouco de luz, Filag? - provocou ela, com um tom tão suave que poderia fazer nascerem rosas no deserto. Mas o ser não respondeu, ficando claro que ele só estava prestando atenção na conversa. E então ouviu-se um estalar de rocha seguido de uma voz feminina e lenta, que lembrava pequenas pedras rolando de um morro:
- Alguém... quer... fazer um... desejo? - sugeriu Pavus, que acabara de sair de um sono que durou alguns anos. Seu corpo literalmente "escultural" voltou à tona quando começou a despir-se da rocha natural que se formava em volta dela quando dormia, como um casulo.
- Não temos moedas - reclamou Naidon com sua voz metálica, cortante como uma espada. Agora era possível ver sua longa barba e a armadura que brotava dos retalhos de pano. Mas o observador atento perceberia que a armadura era formada por protuberâncias do próprio corpo do ex-deus.

Ele não parecia normal. Na verdade algumas características físicas poderiam fazê-lo passar por um bebê, como o cordão umbilical, que ainda estava ali, além das proporções do corpo e da falta de dentes.
Mas ele tinha um cheiro de morte e sérios problemas com a pele, começando pelo fato de ela ser cinza e enrugada, tão esticada em certos pontos, como atrás da cabeça, que chegava a partir-se, revelando ossos amarelados.
O que aconteceria se um aborto sobrevivesse? ELE aconteceria.

- O que quer que esteja acontecendo na Câmara do Relógio, não me importo com ela. Sinto que são as pessoas lá, agora, é que têm alguma importância - admitiu Maliah, preocupando-se em manter o balanço constante e agradável.
- Aahn... é mesmo... Agora... precisamos de... moedas... - constatou Pavus, alheia a todo o resto devido ao semitorpor que ainda comprometia seu raciocínio.
- Por que se interessar pelos assuntos da superfície? - inquiriu a voz flamejante de Filag, que decidiu se intrometer. Sua boca, quando aberta, liberava mais luz azulada vinda do fogo de sua garganta.
- Porque eu quero - desafiou Maliah.

Chamavam-no de Atropal, pois nunca lhe deram um nome.
Deixavam-no isolado, pois nunca deveria ter nascido.
Ele deitava no chão, pois nunca lhe deram um berço.

- Pare de balançar esse berço, Maliah - pediu Naidon. - Você sabe muito bem que não há nada aí dentro.
Filag riu e voltou a cochilar sentado, devolvendo o lugar à escuridão absoluta.

[Leia a próxima parte]

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Projeto 99-222 - parte 14

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

Diário de Yoshua, da Inteligência do Setor de Defesa
Consegui falar com Devdas! Ah, e como ela é deslumbrante e cheirosa... Não se lembra desta EU e nem de seu passado aqui no Setor de Defesa, graças à manipulação da memória. Pergunto-me se aqui, fora de Aldetoron, ela me daria atenção algum dia. Afinal não sou, nem de longe, tão interessante quanto Vadris - o meu avatar no mundo-sonho. Nunca trocamos mais do que algumas frases formais e acho que ela nunca se deu ao menos o trabalho de decorar meu rosto. Mas agora entreguei a caixa e, quando chegar a hora...
Infelizmente, como eu temia, ela e os companheiros não gostaram dos amigos que arrumei. Também não sou totalmente a favor dos modos dos kyton, porém sua filosofia e a determinação com que perseguem seus objetivos são dignos de atenção. Mas foram as correntes que me encantaram, e eu definitivamente tinha que aprender algumas coisas com eles enquanto esperava o momento de me encontrar com os voluntários (gosto de chamar  Devdas e os outros assim).

Não consigo parar de pensar sobre o que Aldetor me disse a respeito do tempo, que lá pode ser vislumbrado como uma paisagem. O passado é nítido como uma planície ensolarada, mas o futuro é enevoado e cheio de sombras perigosas, como um pântano venenoso. Podemos inclusive voltar no tempo através dos rituais adequados, mas o futuro não pode ser visitado dessa forma; vê-lo já resulta em mais perguntas do que respostas.
Assim, é claro que aquelas visões que tive quando Aldetor me levou à Torre do Tempo ficaram em minha memória, de modo que precisei compartilhá-las com os voluntários. Senti que aquelas cenas embaralhadas do futuro tinham relação com eles, de algum modo.
O Sonhador me revelou que enxergava a mesma cena quando tentava visualizar o futuro, e transformou aquela confusão em um tipo de charada, como uma profecia, e foi assim que resolvi --

***

Yoshua fechou bruscamente seu diário de papel sintético (seria perigoso deixar informações assim disponíveis virtualmente) assim que a equipe  de cientistas retornou, e o escondeu atrás do alimentador do holodeck, olhando em volta. Estava no laboratório agora dedicado ao Projeto 99-222, onde dormiam os voluntários Anidro, Devdas, Dourado, Jocasius e Rham. Fez a verificação de rotina em cada um deles enquanto os colegas iam ocupando as respectivas cadeiras e notou que suor brotava nas testas dos voluntários adormecidos, de modo que decidiu dar uma olhada no retorno visual proporcionado pelas máquinas que cuidavam do suporte vital.
Dos cinco monitores, somente dois funcionavam: os que correspondiam às visões de Anidro e Devdas. As imagens estavam claras e definidas, e revelavam uma carnificina generalizada! Yoshua ativou o retorno sonoro, rasgando o avolumado silêncio que até então reinava soberano no laboratório. Eram sons de metal e carne, misturando-se em todas as combinações.

Um dos cientistas - o mais velho, com uma barba longa - quase teve uma parada cardíaca por causa do volume. E em seguida todos se debruçaram diante das telas, onde desenrolava-se a batalha.
Todos assistiram em silêncio, resignando-se à impotência de não poderem fazer nada para ajudar. As criaturas infernais, que apareciam nitidamente, não tinham cabelo e empunhavam correntes perigosíssimas, fato que arrancou suspiros incrédulos da equipe. E havia um muito maior, mais ao fundo, que usava um tridente em vez das correntes. Ele tinha chifres, e a equipe soltou suspiros ainda mais enfáticos. As vozes deles soavam, aos cientistas, como perfuradores PLT criando buracos em asteróides. Mas ao leitor soariam como unhas na lousa, mas duas oitavas abaixo e rodado ao contrário no vinil.
Um fato curioso era que, apesar de ser possível ouvir o que os voluntários estavam conversando, era impossível entender o que diziam. Eles pareciam estar falando em uma outra língua, e mais tarde foi descoberto tratar-se do idioma onírico criado por Aldetor - motivo, claro, para desencadear diferentes tons de "ooh" e "hmmm" da equipe responsável.

Enquanto todos se voltavam para as máquinas, preocupados em fazer leituras cerebrais e registrar informações nos teclados holográficos, Yoshua decidiu simplesmente observar os aventureiros no centro do laboratório. Os rostos contorciam-se, alternando expressões enquanto os olhos dançavam uma melodia alucinada sob as pálpebras. Devdas estava especialmente linda, pensou o soldado, com o suor realçando as curvas do rosto sob a luz branca do ambiente. E então ele tomou a liberdade de colher um pouco do líquido com a  ponta do indicador, levando-o a seguir à boca. "A sensação é a mesma... Não me atrevo a pensar em Aldetoron como um sonho, apesar do que as evidências indicam. É de fato um outro mundo!"
A seguir, voltando a atenção para os outros, notou que Rham estava com a boca espumando, o que indicava que ele havia entrado em estado de fúria profunda. Além disso William (ou Dourado, como o chamavam) verbalizava as mesmas preces que seu avatar onírico ao conjurar o auxílio divino daquele mundo e Anidro irradiava uma leve aura dourada.
Jocasius, por sua vez, não se movia. Ele estava inerte, como se tivesse morrido, e por isso Yoshua se aproximou para verificar, desconfiado das leituras feitas pelas máquinas. Estavam todos tão preocupados com os outros, que lutavam por suas vidas em um combate frenético, que não notaram que aquele rapaz estava...

Jocasius estava de olhos abertos.

Yoshua levou um susto que levou o próprio corpo a se puxar para trás, em um impulso que se manifestou através de um recuo curto acompanhado por uma rápida vertigem. E não era para menos, afinal ninguém o havia feito acordar. Teria ele acordado... sozinho?
Ele se certificou de que não havia ninguém olhando para trás, na direção dele, e tratou de aproximar o ouvido do leito, pois Jocasius parecia estar movendo os lábios.
- Me encontre em Mitras, em frente à Escadaria das Corujas - sussurrou, e voltou a fechar os olhos, como se nunca os tivesse aberto.

[Leia a próxima parte]

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Projeto 99-222 - parte 13

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

O sangue da hidra escorria da lâmina, mas se transformava em chocolate antes de atingir o chão.
- Amo minha Espada Nova - confessou Rham, o ogro bárbaro, conseguindo pronunciar o E e o N maiúsculos. O sorriso maroto dava formato rechonchudo às bochechas, que se avermelhavam com a excitação. Ele coçou a barriga.
- Você conseguiu, Rham!! - disse Anidro após engolir alguma coisa, apontando uma das cabeças decepadas. - Os olhos estão salgados!
- Consegui criar comida salgada! Hahá!!! - explodiu o bárbaro, vitorioso.
- Pessoal, só lembrando que a hidra continua viva aqui - avisou Dourado com ar de incredulidade, esquivando da investida de uma cabeça triangular, verde e gritenta.
- E querem saber o quê? - disse Devdas, que havia escalado um dos pescoços e o estava enforcando com sua corrente cravejada. - Não precisamos matá-la, já que o caminho continua por aquele túnel; e a hidra é grande demais para nos seguir - sugeriu.
- Não matar...? Sendo que já começamos? - questionou Rham.
- Concordo - desabafou Dourado, rolando sobre o ombro para desviar de outro ataque da besta, que guinchava furiosamente. - Vamos!

Foi uma curta corrida para a segurança.
- Por que não pensamos nisso antes? - disse o clérigo, quase que para si mesmo.
- Ahn? - perguntou o ogro, mastigando um focinho de queijo e coçando a barriga.
Dourado preferiu ficar quieto para não falar besteira, e Devdas retomou a conversa:
- Os sons de engrenagens vêm daquela direção e... pelos deuses, Rham, o que tem na sua barriga?
- Num sei... - resmungou, levantando as camadas de pano e couro.
- Nossa! - assustou-se Dourado.
- Olha! - interessou-se Anidro.
- Vixe! - exclamou Devdas.
- Verde? - questionou o próprio Rham.
- As veias em volta do seu umbigo estão saltando, e parece ter algo crescendo aí - analisou o clérigo descendente de dragões.
- É o umbigo mesmo que tá coçando - desabafou o bárbaro.
- Vai sair bicho? - quis saber o infante paladino, para o horror de Rham, que olhou em volta com olhos esbugalhados. Mas todos concordaram que seria melhor observar por algum tempo antes de enfiar lâminas precipitadamente no abdome do colega.
E continuaram andando.

O "telehek-telehek-telehek" era bem mais alto e nítido quando o grupo chegou em um antiquíssimo corredor com estruturas abaladas, mas que alguém tinha tido o cuidado de fazer alguns remendos.
- Tem um buraco ali! - apontou Anidro, referindo-se a uma rachadura na parede com espaço suficiente para passar uma pessoa.
Ao olharem o outro lado, ninguém conseguiu evitar um tímido "ooh" de surpresa.

A câmara ao lado era enorme e esférica, com inúmeras rachaduras parecidas com a que eles encontraram, que provavelmente levariam a outros corredores. As paredes internas estavam irregulares por causa da erosão, mas com certeza haviam sido muito bonitas e decoradas com entalhes um dia. Agora, no entanto, uma infinidade de cravos metálicos servia de caminho para os kyton, que escalavam livremente a superfície arredondada. E havia muitos kyton.
O som de engrenagens vinha, claro, de engrenagens. A parte mais baixa do lugar era inundada por um mar de peças em movimento, e várias delas eram movidas pelas correntes dos kyton, que funcionavam como correias para as engrenagens girarem.
O que chamava mais a atenção, no entanto, era um brilho que vinha do centro de uma pequena plataforma de metal enferrujado, que ficava por cima da maquinaria toda. A coisa brilhante tinha formato retangular e era preenchida por um redemoinho de cor vermelho-rubi. A luminosidade coloria o lugar todo de vemelho.
- Um portal para os Nove Infernos - concluiu Dourado, falando através dos dentes cerrados. Eles pareciam mais afiados do que o usual.
- Olha, um deles tem chifres - constatou Devdas, e apontou um humanóide alado grande com chifres e um tridente estilizado, formando um ameaçador conjunto de 5 pontas no total, sem contar o rabo. Ele parecia estar comandando a operação das engrenagens e, por algum motivo, não parecia estar nada feliz. Aliás, diabos parecem  nunca ter motivos para sorrir, exceto sarcasmo.

- Talvez devêssemos voltar e sugerir à senhora Rheda que se mude para algum lugar bem longe daqui - sugeriu Anidro.
- E deixar esses diabos terminarem o que começaram? - indignou-se Dourado. - Não podemos deixar!
- Se quiser matar um clérigo obcecado sem mexer um dedo, simplesmente mostre a ele algumas criaturas malignas poderosas - brincou Devdas.
- Acha que estou brincando?
- Não, eu que estou.
- Anidro, me buffa que eu vou solar [caro leitor, desculpe mas não aguentei a deixa; simplesmente desconsidere e veja o que ele realmente disse abaixo]
- Anidro, você está comigo ou não?
- Oi? Desculpa, eu... - ajeitou-se o menino, que estava discutindo com Rham acerca do sexo de um kyton em especial, que balançava de um jeito suspeito na corrente.
- Em nome de Egzarot, moleque, se você não se concentrar na situação... bem, se você não prestar atenção no que estamos... o que eu quero é que você pare de... - Dourado tentava, mas não conseguia se concentrar por causa da expressão do menino, cujos olhos brilhavam tremulantes por causa do processo de fabricação das lágrimas.
- Não desconta a sua raiva no meu irmão - advertiu Devdas, mostrando a corrente cravejada.

E foi então que Dourado, que teve um árduo treinamento como clérigo da guerra aprendendo a lidar com situações perigosas em equipe, se deu conta de que ele não estava mais em Turgar, no templo de Egzarot, e que as pessoas com quem estava não davam a mínima para suas crenças e para sua visão do mundo. Ele era como uma abelha entre aranhas, e seus colegas estavam definitivamente ocupados demais com suas teias. E no entanto ele sabia que não poderia fazer nada sozinho.

Sabia, mas mesmo assim pulou pelo buraco.
- Egoísta - praguejou Devdas, antes de pular atrás, sem saber o quão irônica soaria sua frase se soubesse no que o clérigo estava pensando momentos antes.
Rham e Anidro pularam em seguida, mais por instinto do que por vontade própria.

[Leia a próxima parte]