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Dourado ia na frente. Vejamos ele
mais de perto -
um humanóide que passaria por um humano para um observador
distraído, cujas características dracônicas, herdadas de seus
antepassados, são ao mesmo tempo sutis e gritantes, a começar pelas
garras calibradas, porém graciosas no manejo da espada longa. As
orelhas pequenas e pontiagudas e os dentes afiados o diferenciam de um
humano, mas os longos cabelos lisos e a bela fisionomia desviam a
atenção desses detalhes bestiais, formando um conjunto exótico (para
não dizer gótico). Neste momento o clérigo de
Egzarot, deus
da justiça, segura a tocha com a mesma mão que leva o escudo metálico,
e deixa a espada propositalmente embainhada para não parecer hostil a
algum habitante subterrâneo. A mão livre, no entanto, está
pronta
para eventualidades.
Ele ainda não usa a completíssima armadura
reluzente que possuirá um dia, mas ao menos a cota de malha comprada na
estrada horas atrás já substitui a velha armadura de couro, que já
tornara-se incapaz de deter os golpes das mortíferas criaturas que suas
habilidades já permitem desafiar.
- Preciso fazer cocô - confessou Anidro.
- Tá com medo? - provocou Rham.
- Eu não tenho medo - afirmou, sem parecer estar brincando.
-
Ele não tem medo - confirmou Devdas. - É um pivete inconsequente por
causa desse "defeito" e sempre se meteu em encrencas por causa disso.
- Ah - soltou Rham. - Eu também não tenho medo - disse, sincero.
- Nossa! - exclamou Dourado, e todos se voltaram para ele.
- Viu alguma coisa? - quis saber Anidro.
- Não, só senti o cheiro - revelou, abanando a mão livre na frente do
rosto. - Tem umas estalagmites ali, vai lá.
- Mas eu não tenho vergonha.
-
Não queremos ver você agachado e derrubando esses fetos marrons de
kobold, por isso vai lá - disse Devdas, vendo que Rham não havia
entendido a metáfora.
- Aonde vai, Rham? Deixa o menino ir sozinho! - pediu Dourado.
-
Vou testar a espada - disse o ogro, arrancando vários "aaargh!",
"blergh!" e "eca!" dos colegas. Mas a verdade era que ele desconfiava
de fezes. Temia que elas criassem vida.
A marcha prosseguiu
por mais alguns minutos, e os quatro chegaram a um grande salão com um
pequeno lance de escadas que levava a uma área elevada, onde havia
outras passagens para mais túneis. Mas ali, ao contrário do restante do
caminho por onde passaram, não havia vegetação no chão.
- Por aqui costuma passar gente - concluiu o ogro, acostumado a
observar esses detalhes da natureza.
Subitamente um fio de ameaça cruzou o ar e foi captado pelo instinto de
Devdas. Ou seria uma
corrente
de ameaça?
- Estou ouvindo o som de anéis de corrente, e não é a minha.
-
Vamos com cuidado, então - disse Dourado, esticando um bastão retrátil
de metal para cutucar o chão em busca de armadilhas. E percebeu uma
área onde o chão fazia um som oco. - Piso falso ali, ali na frente e
aqueles outros mais claros - avisou, completando o ar de tensão.
- Quem são vocês?
- quis saber uma voz masculina forte.
- Viemos explorar o lugar, e não procuramos problemas - respondeu o
clérigo, sem saber para onde dirigir a voz.
- Mas encontraram
- revelou o desconhecido, em tom ameaçador. E então surgiram vultos que
pareciam ter estado ali o tempo todo. Dois desciam do teto como aranhas
penduradas na teia, mas usavam correntes, que além de ferramenta de
escalada parecia servir-lhes também de armadura, pois seus corpos eram
quase completamente envoltos nelas. Outros dois saíram cada um de uma
passagem escura, e um último apareceu quase do lado de Anidro.
- Um paladino
- disse o último.
- E
um clérigo.
-
Diabos - cuspiu Dourado, levando a mão ao cabo da espada. Sua expressão
mudava rapidamente, revelando uma máscara de ódio com dentes brilhantes
e afiados.
- Espera - pediu Devdas. - Eles usam correntes, não devem
ser gente ruim - observou, imediatamente percebendo que sua colocação
não fazia sentido.
-
Eles são diabos, mana - disse Anidro,
observando a criatura ao seu lado, cujas correntes pareciam formar
asas nas costas, com pontas, lâminas e espinhos despontando como penas.
- São kytons, diabos de correntes - completou, e naquele momento o
rosto de criança parecia dar lugar ao rosto de um pequeno homem.
-
E por acaso pretendem deixar a etiqueta de lado por causa disso?
Explorem o lugar à vontade, e saibam que não temos interesse nos
assuntos da superfície - ofereceu a criatura humanóide,
cujas
ameaçadoras asas de correntes pareciam ter vida própria. Devdas estava
quase hipnotizada pela beleza delas. E foi então que a tensão explodiu
em fagulhas de poder divino radiante.
- MORRAM, DIABOS! - exigiu
Dourado, erguendo o símbolo sagrado de Egzarot, formado por sete
espadas dispostas em círculo com as pontas viradas para o centro. Um
brilho esbranquiçado, que inflamou os aliados com inspiração divina,
preencheu momentaneamente a escuridão do lugar enquanto ele mesmo
investia furiosamente contra uma das criaturas. A espada foi aparada
pelas correntes, como ele previa, mas sua determinação sobrenatural deu
à arma a firmeza necessária para destruir elos, músculos e ossos.
Anidro segurou o símbolo sagrado de
Villia
que ia em volta do pescoço, cuja forma era a de um escudo redondo, e
começou a emitir ondas de energia cujo efeito consistia em criar campos
de proteção para os amigos. Sua voz era alta e esganiçada, e sua boca
revelava ainda alguns pedaços de bolo presos aos molares.
Rham
detestava essa história de atacar de repente, já que o cérebro de ogro
assimila informações lentamente. Assim, ele não foi capaz de
fazer
nada além de observar a batalha desabrochando ao seu redor como uma
flor, sendo ele o miolo. Rham gostava de flores.
E Devdas, que não
pretendia brigar com os anfitriões, preparava a arma com desânimo
apesar das preces do clérigo e do paladino, que a empurravam para o
combate, arrancando de suas suprarrenais uma onda de
adrenalina. A
sensação não era nada ruim, e sua dor de cabeça foi imediatamente
empurrada para o segundo plano.
As criaturas retribuíram,
transformando a cena em uma rede tridimensional de correntes afiadas
dançantes. O som dos elos entrechocando-se era ensurdecedor. Dourado
cortava (literalmente) seu caminho através dos obstáculos e, para sua
surpresa, viu que o esforço estava criando rachaduras em sua lâmina.
Ele notou que Rham vinha logo atrás, e concluiu que a alegria nos olhos
do ogro se devia à curiosidade de testar a nova espada nos diabos.
"Será
que eles viram comida?" perguntou-se Rham enquanto movia-se como...
bem, como um ogro curioso empunhando uma espada que transforma coisas
em comida. O escudo mágico de Anidro o protegia das incômodas correntes
que se punham entre ele e seu objetivo gastronômico, e virou um pouco a
cabeça para investigar uma pressão em suas costas. Era Devdas, que o
estava escalando e em seguida pulou para frente usando seu
maciço
ombro como apoio. A guerreira se elevou no ar e prendeu a corrente em
um apoio no teto, saindo assim do mar de metal. Pendurada, ela procurou
contato visual com o kyton diferente - aquele com asas.
- Procurando por mim?
- quis saber a criatura atrás dela, cujas correntes já não pareciam
asas, e sim um balanço preso ao teto.
-
Desculpe por isso... Eu não queria que terminasse assim - confessou
ela, que precisava falar alto para sobrepor a voz aos gritos de batalha
abaixo. Enquanto isso Rham caía através de um piso falso que foi feito
pensando em pessoas médias, e que por isso era grande o suficiente para
fazê-lo afundar somente a perna direita.
O homem sorriu. As correntes dele começaram a se desenrolar
nas costas, onde Devdas percebeu que elas "nasciam", e mostraram
uma caixa de madeira avermelhada com acabamento em metal
negro, do
tamanho de uma cabeça. "Mãos de corrente segurando uma caixa", pensou
ela, como se a cena tivesse saído de alguma profecia. De fato ela
estava ficando hipnotizada pelo objeto, bem como pelas estranhas
correntes do homem, que começavam a adquirir cor negra. E então ela
percebeu que ele não era um kyton. Ele se virou e começou a se
deslocar, usando as correntes com extremidades afiadas para perfurar
seu caminho pelo teto.
"Preciso segui-lo", concluiu a moça, deslocando-se pelo teto como algum
tipo de mulher-aranha.
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