[Leia a parte 4]
- Não escolhemos uma forma muito furtiva de realizar a invasão - argumentou Dourado.
Devdas olhou com uma expressão de sincero desconcerto e admitiu - Pessoalmente, eu não achava que fôssemos realmente cumprir a missão. - E então voltou os olhos para o amigo moribundo.
- Coitado do Jocasius - apiedou-se Anidro. Rham limitava-se a olhar a cena com crescente interesse, e um fio de baba já desenhava formas no ar.
- Eu estou bem, acho que foi superficial.
Todos voltaram-se para o teurgista místico, cujo rombo no peito ainda sangrava livremente. As faces adquiriram diferentes graus de espanto, sendo que o menor era o do ogro, e o maior era o de Anidro (crianças impressionam-se mais facilmente).
A seguir Dourado tratou de conjurar uma magia de cura.
- Dourado - começou Devdas -, suas preces por acaso estão provocando esse zumbido?
- Parece barulho de abelha - emendou Rham, e todos concordaram.
- Rendam-se ou morrerão! - disse uma voz que vinha de cima. - Caras, sempre quis falar isso!
- Cala a boca, Kantor! - A segunda voz pertencia ao que parecia ser o líder, que estava muito nervoso pela perda do efeito surpresa. E havia um terceiro homem mais atrás, cuja baioneta espada-rifle era, na verdade, uma baioneta espada-rifle-bandolim. "Nunca vi um desses", pensou Dourado. Todos os três montavam insetos gigantes muito parecidos com abelhas e usavam típicos trajes de bandidos. Estavam presentes as capas ameaçadoras e as roupas escuras de couro.
Anidro deu um passo à frente - Vocês estão com a princesa?
- Há, então temos visitas! E de heróis de verdade!
Rham começou a grunhir, dizendo baixinho, quase que para ele mesmo, que não eram bem heróis porque estavam fazendo aquilo por uma recompensa para pagar uma conta de taverna, e não por altruísmo, quando então o olhar repreendedor de Devdas aparentemente inutilizou suas cordas vocais. Ela mesma, aliás, tratou de iniciar o ataque contra os sequestradores.
Neste momento a narrativa congela para que seja possível observar a guerreira Devdas Ablin com mais detalhes. Trata-se de uma bela jovem humana de pele escura e macia e cabelos negros, ajeitados em estilo moicano. Sua personalidade explosiva se deve à dura vida que levou em seu plano natal, Ravenloft. Já as roupas apertadíssimas e reveladoras se devem aos hormônios que afloram em sua idade, o que evidencia músculos firmes e definidos além de um busto (quase pulando para fora do decote) capaz de causar distração no campo de batalha - como de fato está acontecendo com Bentor, o bardo portador da baioneta-bandolim.
A arma que leva agarrada ao corpo (e que no momento está utilizando para desferir o golpe de abertura do combate enquanto uma abelhona desesperada, no caminho da arma, parece se perguntar o que diabos está fazendo ali) é uma corrente cravejada mais pesada do que algum observador acreditaria que ela seja capaz de manusear. Seu rosto já começa a adquirir o aspecto terrível de quem se prepara para colocar a vida em risco e o sangue é bombeado ferozmente pelo corpo, destacando veias nos antebraços e ombros.
Os outros, tragados para o combate assim que a corrente atingiu uma abelhona, preparavam armas e feitiços para acompanhar a colega. O ogro, em especial, pareceu acordar de um longo sono assim que ouviu armas serem desembainhadas. Era como se seu cérebro estivesse saindo do modo de espera para um estado totalmente funcional capaz de analisar e agir de maneira incrivelmente rápida. O fio de baba foi cortado e começou a cair enquanto a ponta da enorme espada cruzou dois pontos aparentemente sem percorrer o espaço entre eles, onde se encontrava a perna de seu alvo. Sangue jorrou e, para Rham, era como o orvalho fresco da manhã. E então ele soltou aquele urro de ogro que Anidro gostava tanto de ouvir. "Urro de ogro!", pensava o menino enquanto brandia o escudo afiado, dando uma forte piscada de emoção acompanhada de um sorriso de lábios cerrados e uma leve balançada de cabeça como quem diz "Urro de ogro, é isso aí".
Dourado tratava de manter o combate em ordem, curando os aliados e conjurando escudos mágicos. Ele observava a ação de forma estratégica e se orgulhava de poder proteger os companheiros, mas desejava em seu íntimo ser capaz de participar ativamente da pancadaria, colocando em prática seu treinamento em armas. Mas nunca sobrava tempo para isso, pois os feridos têm sempre prioridade para um clérigo como ele.
A batalha logo terminou, e os inimigos, derrotados, trataram de revelar a localização da princesa. As frases saíam entrecortadas por gritos de dor.
- Então vocês mataram a princesa - inquiriu Dourado.
- Ela ERA a princesa herdeira... agh... Mas agora é a irmã dela quem vai ficar com o trono... ugh!
- Viemos até aqui resolver um caso de sucessão real? - perguntou o clérigo, quase que para si mesmo.
- Ela morreu. Mas pegamos os bandidos. Missão cumprida - concluiu o ogro.
- Nenhum de vocês vai querer investigar isso mais a fundo, não é? - perguntou Dourado, já prevendo que a trama iria acabar por ali mesmo. Todos se entreolharam e ponderaram sobre a possibilidade de descobrir o mandante do crime. Teria mesmo sido a irmã invejosa? Ou o pretendente que achava a noiva feia e preferia casar com a mais bonita mantendo a possibilidade de virar rei?
- Não devíamos mexer com a nobreza - sugeriu Devdas. E os outros concordaram, como Dourado havia previsto.
- Mas devíamos voltar a falar com aqueles caras que têm missões - argumentou Anidro. - Me lembro de ter visto algo sobre uma vaca carnívora, um dragão de fezes e uma galinha que bota ovos de ouro.
- Não quero saber de fezes - cortou Rham. E então se dirigiram para a cidade, carregando os bandidos amarrados. Um deles cantava terrivelmente.
[Leia a parte 6]
- Não escolhemos uma forma muito furtiva de realizar a invasão - argumentou Dourado.
Devdas olhou com uma expressão de sincero desconcerto e admitiu - Pessoalmente, eu não achava que fôssemos realmente cumprir a missão. - E então voltou os olhos para o amigo moribundo.
- Coitado do Jocasius - apiedou-se Anidro. Rham limitava-se a olhar a cena com crescente interesse, e um fio de baba já desenhava formas no ar.
- Eu estou bem, acho que foi superficial.
Todos voltaram-se para o teurgista místico, cujo rombo no peito ainda sangrava livremente. As faces adquiriram diferentes graus de espanto, sendo que o menor era o do ogro, e o maior era o de Anidro (crianças impressionam-se mais facilmente).
A seguir Dourado tratou de conjurar uma magia de cura.
- Dourado - começou Devdas -, suas preces por acaso estão provocando esse zumbido?
- Parece barulho de abelha - emendou Rham, e todos concordaram.
- Rendam-se ou morrerão! - disse uma voz que vinha de cima. - Caras, sempre quis falar isso!
- Cala a boca, Kantor! - A segunda voz pertencia ao que parecia ser o líder, que estava muito nervoso pela perda do efeito surpresa. E havia um terceiro homem mais atrás, cuja baioneta espada-rifle era, na verdade, uma baioneta espada-rifle-bandolim. "Nunca vi um desses", pensou Dourado. Todos os três montavam insetos gigantes muito parecidos com abelhas e usavam típicos trajes de bandidos. Estavam presentes as capas ameaçadoras e as roupas escuras de couro.
Anidro deu um passo à frente - Vocês estão com a princesa?
- Há, então temos visitas! E de heróis de verdade!
Rham começou a grunhir, dizendo baixinho, quase que para ele mesmo, que não eram bem heróis porque estavam fazendo aquilo por uma recompensa para pagar uma conta de taverna, e não por altruísmo, quando então o olhar repreendedor de Devdas aparentemente inutilizou suas cordas vocais. Ela mesma, aliás, tratou de iniciar o ataque contra os sequestradores.
Neste momento a narrativa congela para que seja possível observar a guerreira Devdas Ablin com mais detalhes. Trata-se de uma bela jovem humana de pele escura e macia e cabelos negros, ajeitados em estilo moicano. Sua personalidade explosiva se deve à dura vida que levou em seu plano natal, Ravenloft. Já as roupas apertadíssimas e reveladoras se devem aos hormônios que afloram em sua idade, o que evidencia músculos firmes e definidos além de um busto (quase pulando para fora do decote) capaz de causar distração no campo de batalha - como de fato está acontecendo com Bentor, o bardo portador da baioneta-bandolim.
A arma que leva agarrada ao corpo (e que no momento está utilizando para desferir o golpe de abertura do combate enquanto uma abelhona desesperada, no caminho da arma, parece se perguntar o que diabos está fazendo ali) é uma corrente cravejada mais pesada do que algum observador acreditaria que ela seja capaz de manusear. Seu rosto já começa a adquirir o aspecto terrível de quem se prepara para colocar a vida em risco e o sangue é bombeado ferozmente pelo corpo, destacando veias nos antebraços e ombros.
Os outros, tragados para o combate assim que a corrente atingiu uma abelhona, preparavam armas e feitiços para acompanhar a colega. O ogro, em especial, pareceu acordar de um longo sono assim que ouviu armas serem desembainhadas. Era como se seu cérebro estivesse saindo do modo de espera para um estado totalmente funcional capaz de analisar e agir de maneira incrivelmente rápida. O fio de baba foi cortado e começou a cair enquanto a ponta da enorme espada cruzou dois pontos aparentemente sem percorrer o espaço entre eles, onde se encontrava a perna de seu alvo. Sangue jorrou e, para Rham, era como o orvalho fresco da manhã. E então ele soltou aquele urro de ogro que Anidro gostava tanto de ouvir. "Urro de ogro!", pensava o menino enquanto brandia o escudo afiado, dando uma forte piscada de emoção acompanhada de um sorriso de lábios cerrados e uma leve balançada de cabeça como quem diz "Urro de ogro, é isso aí".
Dourado tratava de manter o combate em ordem, curando os aliados e conjurando escudos mágicos. Ele observava a ação de forma estratégica e se orgulhava de poder proteger os companheiros, mas desejava em seu íntimo ser capaz de participar ativamente da pancadaria, colocando em prática seu treinamento em armas. Mas nunca sobrava tempo para isso, pois os feridos têm sempre prioridade para um clérigo como ele.
A batalha logo terminou, e os inimigos, derrotados, trataram de revelar a localização da princesa. As frases saíam entrecortadas por gritos de dor.
- Então vocês mataram a princesa - inquiriu Dourado.
- Ela ERA a princesa herdeira... agh... Mas agora é a irmã dela quem vai ficar com o trono... ugh!
- Viemos até aqui resolver um caso de sucessão real? - perguntou o clérigo, quase que para si mesmo.
- Ela morreu. Mas pegamos os bandidos. Missão cumprida - concluiu o ogro.
- Nenhum de vocês vai querer investigar isso mais a fundo, não é? - perguntou Dourado, já prevendo que a trama iria acabar por ali mesmo. Todos se entreolharam e ponderaram sobre a possibilidade de descobrir o mandante do crime. Teria mesmo sido a irmã invejosa? Ou o pretendente que achava a noiva feia e preferia casar com a mais bonita mantendo a possibilidade de virar rei?
- Não devíamos mexer com a nobreza - sugeriu Devdas. E os outros concordaram, como Dourado havia previsto.
- Mas devíamos voltar a falar com aqueles caras que têm missões - argumentou Anidro. - Me lembro de ter visto algo sobre uma vaca carnívora, um dragão de fezes e uma galinha que bota ovos de ouro.
- Não quero saber de fezes - cortou Rham. E então se dirigiram para a cidade, carregando os bandidos amarrados. Um deles cantava terrivelmente.
[Leia a parte 6]















