terça-feira, 3 de novembro de 2009

Ressuscitando o RPG

Os últimos 10 meses têm sido difíceis para meu grupo de jogo. Não vou enumerar motivos ou desculpas, pois você não tem nenhuma obrigação de ser o receptáculo das minhas angústias RPGísticas. Em suma, a motivação foi para o espaço.

A boa notícia é que existe uma esperança.

A Ameaça Fantasma

É difícil, e até mesmo humilhante, admitir que existe um problema de motivação após uma década e meia praticamente ininterrupta de RPG. Tentei inovar e me reciclar como mestre durante todos esses anos, sempre atrás de novas técnicas narrativas e ferramentas para auxiliar no jogo - e na maioria das vezes consegui. Pitadas de live action, props, PBEM (play by e-mail), plot twists, investimento em miniaturas e tiles, mudanças de sistema e até mudanças no grupo marcaram uma longa jornada através de mundos de fantasia, aventura e terror que acabou gerando uma enorme lista de personagens memoráveis e situações inesquecíveis.
Mas por algum motivo, a partir de determinado momento, nossas atenções se voltaram para outras atividades - especialmente um certo MMO extremamente viciante. Eu, pessoalmente, me vi cada vez mais exigente com minhas próprias histórias para manter o RPG em nivel de competir com qualquer outro hobbie que encontrássemos, seja MMO, videogame ou card games.
O momento crítico chegou quando, ao combinar com o pessoal para combinar o horário do jogo, já deixávamos claro que era necessário levar os notebooks para jogar World of Warcraft em casa.

Confesso que muitas vezes, ao longo dos anos, me perguntei: "por que jogar RPG?" O que nos faz embarcar em uma narrativa cooperativa onde tudo é feito através da imaginação? Por que investir horas e horas em uma atividade que consiste basicamente em uma sequência de descrições, ações e reações cuja mídia principal é a conversa?
Acho que cada um tem uma resposta, mas minha conclusão sempre se aproxima do seguinte: Jogo RPG para me divertir em grupo através de simulações relativamente realistas de situações impossíveis, através de uma longa conversa interpretativa com doses de risos, terror, suspense e aventura.
Note que destaquei "em grupo", que para mim é o ponto principal. Alguns definem "realidade" como um conjunto de situações vivenciada coletivamente, e é aí que está o poder do RPG. Quando um grupo de pessoas consegue se envolver imersivamente em um mundo imaginário com um sistema de regras que permite a resolução de ações com certo grau de justiça, de certa forma se cria uma "pequena realidade". Gosto muito de pensar desta forma.

Uma Nova Esperança

Recentemente um membro do grupo (o Luiz Guister) combinou uma reunião onde conheceríamos uma amiga dele, professora de teatro. Ela nos daria dicas de como interpretar melhor e nos ensinaria técnicas de entrosamento que facilitam a condução de atividades em grupo.
A proposta era (e ainda é) buscar uma forma de conduzir sessões de jogo com cerca de 3 horas de duração cujo aproveitamento seja total, sem distrações. Dessa forma voltaríamos a jogar RPG, mas durante 3 ou 4 horas (intensas, aproveitadas) em vez de 6 a 8 horas, de modo que sobra tempo para outras atividades no fim de semana.

E assim fizemos nossa primeira aula, neste domingo pré-feriado. Fizemos jogos teatrais que treinam confiança grupal, atenção e coordenação. A professora começou a identificar nossas deficiência individuais em cada elemento da interação social e já marcamos a próxima aula para o próximo fim de semana. O último exercício, em especial, consistia em criar uma cena muda, basicamente através de mímica, onde cada jogador deveria complementar a cena a partir da ação realizada pelo jogador anterior (como uma sequência de turnos). Rendeu muitas risadas e despertou um lado cooperativo que não sabíamos que tínhamos.

O interessante é que nossa professora não manja nda de RPG! Mas como teatro tem tudo a ver com nossa atividade predileta, todas as dicas parecem se encaixar perfeitamente nas nossas necessidades.

O Retorno do RPG

Apesar da atitude inicial, ainda senti uma certa resistência em um ou outro membro do grupo com relação à necessidade de ressuscitar o RPG. Isso me assustou um pouco pelo puro e simples medo de nunca mais poder jogar! Além disso, o próprio "compromisso" de realizar essas aulas pode se tornar um obstáculo, mesmo considerando que não vamos precisar pagar mensalidade (pagaremos por consideração e respeito ao trabalho dela, através de uma caixinha mensal).

Enfim, acho que precisamos resgatar a motivação e a capacidade de imersão. Essa aula me mostrou muito potencial e sinceramente espero que as próximas consigam resgatar aquela velha fúria através de uma gradual reciclagem da forma como jogamos.

Antes de encerrar, deixo duas perguntas:
  • Você já viu algum trabalho parecido? Já teve notícia de algum esforço focado especificamente na melhoria da qualidade de partidas de RPG, para termos uma idéia?
  • Que sistema de RPG usar em uma aula dessas? Imaginei algum sistema LARP sem dados (só par-ou-ímpar e jo-ken-po). Conheço o de vampiro e o de Cthulhu. Tem algum mais indicado pra resoluções simples (mas não simplórias) de cena?

7 comentários:

guerrasdraconicas disse...

é uma pena que estejas sofrendo disso, mas tenha certeza que é melhor que sofrer disso do que falta de tempo.

Sobre idéia eu vi o filme Role Model (modelos nada corretos), onde tem partidas de LARP, só que capa e espada, onde os combates são uma espécie de esgrima, muito legal - no caso esse tipo de jogo não tem mestre e sim organizadores (que também são jogadores), cada um é responsável por seus objetivos e.

RED disse...

Bom, a idéia de aproveitar mais o tempo é bacana, mas muitas vezes perde-se tempo em distrações que trazem mais diversão [que é o objetivo do jogo]. Se as distrações estiverem atrapalhando, talvez um novo condicionamento seria mais interessante do que aulas de teatro [pelo menos para este objetivo]. Boa sorte.

Cochise César disse...

Olá. Eu sou Cochise César e já tentei fazer isso uma vez e não deu certo, mas pode ser que agora dê.

Quero convidar você a contribuir com um portal colaborativo de RPG. Um lugar onde apareçam só os posts mais importantes, independentemente de quem seja o autor ou em que site ele esteja.

Uma forma de tornar mais visível o conteúdo importante.

Para isso é preciso apenas que quando escrever um post importante faça um resumo dele e submeta para nós em http rpgbrasil. co. nr/

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Abaixo segue um "release" do RPG Brasil.

O RPG Brasil é um agregador colaborativo.
Isso quer dizer que ele é um site “grande”, mas que vive de doações de conteúdo da comunidade. A idéia é que qualquer um possa “doar matérias”, inclusive eu.

Todos os blogs tem posts relevantes e não relevantes. Agregadores tratam todos da mesma maneira. Colocal todos eles listados lado a lado. Separar os artigos que realmente valem a pena ser lidos dos que não valem é uma tarefa difícil.
Mas há mais blogs do que se pode acompanhar, (aproximadamente 150) portanto seria necessário uma grande equipe para fazer uma seleção doque realmente importa.
Agregadores colaborativos partem do princípio da autocensura para resolver esse problema.
O autor sabe que os comentários que fez sobre as férias não são relevantes para pessoas que não sejam seus amigos. E ele sabe que o review de um jogo ou o novo NPC que criou é.
A ideia é que ele divulgue seus posts relevantes para a comunidade através desse site. Assim, o melhor conteúdo da blogosfera é indexado aqui.
Não publicamos aqui matérias completas, apenas chamadas, então o leitor interessado tem que ir ao blog de origem da matéria para lê-la por inteiro.
Nesse negócio ganha o leitor ganha por ter acesso a um conteúdo filtrado e o autor ganha por aumentar suas visitas e visibilidade

Alexandre Ðraco disse...

Rodrigo, vou dar uma procurada nesse filme. Acho que não tem em locadora, mas vou procurar XD

RED, estamos procurando exercitar nossa capacidade de concentração (além das técnicas de interpretação, claro) durante a aula. Realmente esse é um dos objetivos (talvez o mais importante, já que sem motivação não há imersão).

Cochise, boa idéia ^^
Vou preparar alguma coisa.

Alguém disse...

Olá, boa noite.
E como fazer quando as histórias do meu narrador não me empolgam mais?
Aliás, me permitindo ser sincero, nunca me empolgaram. Só compareço aos jogos porque ele é meu amigo e ficaria chateado caso eu faltasse.
Mas o caso é que tenho notado que não tenho mais paciência para os jogos dele e praticamente nenhum outro mais.
Tenho receio de abrir o jogo com ele e ele ficar magoado, ademais, quase todos do meu círculo de amizades me conhecem por gostar de rpg. É uma alcunha que eu querendo ou não, tenho que carregar agora.
Ah,sim! Não coloquei meu nome real por opção, desculpem qualquer coisa.
Obrigado.

Alexandre Ðraco disse...

Olá Alguém,
Se eles ainda não descobriram, provavelmente você está fingindo muito bem que está gostando dos jogos, hehehe. Concorda que é bem difícil o mestre não perceber quem não está curtindo?

Então, das duas uma: você abre o jogo ou tenta ressuscitar o RPG (como estou tentando fazer). Procurar motivação através de filmes e livros ajuda a recuperar o fôlego, bem como criar personagens diferentes e jogar sistemas diferentes.

Alguém disse...

Talvez...talvez...
Vou ver o que faço, obrigado, Draco!