segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Ressuscitando o RPG II

Mencionei neste post que meu grupo de jogo está passando por dificuldades motivacionais. E para isso resolvemos iniciar aulas de teatro para buscar novamente aquela vontade de interpretar, através de técnicas que despertem nossos atores interiores, de modo que a motivação para o jogo surja da simples vontade de testar nossas capacidades latentes de atuação. É como começar do zero, deixando de lado os jogadores overpower que existem dentro de cada um de nós, que desgastam a motivação de jogar à medida que os desafios se tornam puramente numéricos e, portanto, desinteressantes.

Pois bem, já tivemos quatro aulas e eu estava esperando por isso para realizar um balanço dos resultados até agora. A professora é ótima e extremamente confiante em seus métodos, o que nos deixou seguros para mergulhar de cabeça nos exercícios propostos. Ela nunca jogou RPG, mas explicamos o objetivo do jogo e ela foi adequando seu método à nossa proposta.
Ela deixou claro que preferia dar as primeiras quatro (ou mais) aulas do jeito que ela sempre fez com seus alunos (com poucas mudanças), pois seriam como um prelúdio para o que viria a seguir.

Aula 1
Na primeira aula exercitamos confiança no grupo. Inicialmente jogamos uma bolinha e não podíamos deixar cair. Era necessário jogar com calma, mas o fato da bolinha precisar necessariamente viajar pelo ar fazia com que precisássemos confiar no colegas e em nós mesmos.
Depois fizemos um exercício de concentração que testava nossa capacidade de perceber várias coisas ao mesmo tempo. Era necessário imitar os movimentos de um colega ao mesmo tempo que conversava com outros dois, seguindo com os olhos os estalos de um quarto colega e aguentando os petelecos de um quinto. Consegui fazer três coisas somente, o que me frustrou bastante (principalmente porque costumo mestrar).
Por fim, um teatro de mímica onde cada um entrava em um momento diferente, adicionando coisas à cena, apurou nossa percepção de grupo e capacidade de interação. Assim, a aula introdutória focou basicamente confiança e concentração.

Aula 2
Confesso que foi muito perturbador o exercício inicial da aula 2. Precisávamos caminhar pelo ambiente e encarar cada colega com quem encontrássemos. Era necessário olhar nos olhos e depois continuar andando. E em seguida observávamos uns aos outros, em duplas, durante vários segundos. Não podíamos rir, mas era inevitável o surgimento de risos de desconforto.
Basicamente o objetivo era olhar os colegas nos olhos para provar que se está sendo sincero. Além disso, o contato visual estabelece uma comunicação muito mais apurada.
Depois fizemos duas encenações. A primeira proposta pela professora onde éramos personagens icônicos (como o Gaguinho e a Penélope Charmosa) que ela sugeria sem os outros saberem, e depois devíamos descobrir que personagem os outros estavam interpretando. E a segunda encenação foi com nossos próprios personagens de RPG, mas cada um interpretava o personagem do outro. Foi muito legal!

Aula 3
A terceira aula trabalhou nossas vozes e os sons que somos capazes de criar. Inicialmente aprendemos a emitir sons com o diafragma, sem forçar o nariz, o maxilar ou a garganta. Fizemos cinco sons diferentes, que exercitam cinco dificuldades da fala, e os exercitamos em uma cena improvisada onde cada um usava um dos cinco sons com a ajuda de mímica. Isso gerou muitas risadas porque um estava no chuveiro, outro estava cagando e o terceiro entrava no banheiro e sentia o cheiro das fezes, potencializado pela umidade do chuveiro. Os dois últimos (eu incluso) demoraram a participar porque não conseguíamos parar de rir!
Depois uma parte do grupo deitou de olhos fechados enquanto os outros iam emitindo sons aleatórios, de modo que aqueles que estavam deitados criavam histórias mentais a partir dos sons.
A seguir falamos frases icônicas de nossos personagens de jogo em diferentes tonalidades e sentimentos para colegas de olhos fechados, terminando a aula com um jogo que a professora pediu que eu propusesse para os outros.
Montei uma cena típica de jogo, onde cada um interpretava um personagem antigo. Com aquilo eu queria mostrar para a professora qual o clima de uma sessão de jogo.

Aula 4
Na aula deste sábado passado treinamos dança. É, não tem nada a ver com um jogo onde todos ficam sentados, mas definitivamente ajuda na expressão corporal.
Por incrível que pareça, a professora nos colocou em clima de descontração gradualmente, iniciando com um alongamento em que cada um propunha movimentos "dançantes", e era preciso ficar na frente dos outros, que precisavam imitar. Naturalmente surgiram os clássicos alongamentos de braço, perna e pescoço, que a professora deixou levarmos até o fim para depois falar que estava tudo errado. Mas acertamos da segunda vez.
Depois veio o mais difícil, que sinceramente achei que não ia dar certo. Cada um dançou na frente dos outros com uma música ao fundo. Primeiro uma dança "redonda", com movimentos circulares ao som de Lorena McKennitt, e depois movimentos "quadrados" ao som de putz-putz de academia.
Mas deu certo. Os outros precisavam olhar nos olhos de quem dançava, sem nunca rir. Podíamos rir de coisas propositalmente engraçadas e eventualmente participar de alguma parte interativa da dança, mas cada um teve sua hora de aparecer.
No fim, a professora passou um teste psicanalítico para tentar descobrir mais sobre nossas personalidades. Ela disse que utilizará seus resultados nas próximas aulas, direcionando ainda mais as atividades.

Impressões
Sempre fico ansioso para a aula seguinte, pois sei que a professora vai estimular uma parte diferente da interação do grupo.
O mais curioso é que não jogamos RPG nenhuma vez desde que começamos com as aulas. Ninguém comentou a respeito, mas sinto como se estivéssemos cultivando nossas vontades de jogar para começarmos realmente do zero, só que com muito mais qualidade. E no fundo da alma me pergunto se realmente voltaremos a jogar, apesar desse esforço ser direcionado especificamente para esse fim.
Sei que pode parecer insano dizer uma coisa dessas, mas pretendo descobrir qual é, para mim, a real função do RPG e realmente gostaria de encontrar uma boa resposta. Fico extremamente feliz de conseguir analisar tal questão com a devida frieza, o que demonstra o fim do "vício".
Sinceramente recomendo atividades assim para qualquer jogador de RPG, apesar de ainda não ser capaz de colocar nenhuma conclusão a respeito da experiência. Não sabemos quantas aulas ainda teremos, mas pretendo deixar aqui minhas impressões a cada nova sessão.

2 comentários:

Edvando disse...

Como você fez para convencer os seus jogadores sem motivação a fazer aulas de motivação???

Alexandre Ðraco disse...

Todos gostamos de jogar, mas não estávamos motivados.
Por gostarmos, decidimos fazer as aulas. Além disso, descobrimos muitas outras funções para o que estamos aprendendo lá.

A falta de motivação é para jogar, e não para as aulas, hehehe.