[Leia
a parte anterior] [Leia
do começo]
O Atropal não podia ver o alvoroço começando a tomar a superfície, quilômetros acima, mas podia sentir o Pesadelo varrendo as planícies com seu negrume insano enquanto os habitantes de Aldetoron testemunhavam todos os horrores de um novo período de caos. Tentáculos colossais de criaturas lunares atravessavam as nuvens e quase podiam tocar o continente, pois as luas estavam em sua máxima proximidade.
As escadas lunares surgiam cada uma à sua forma, ligando o chão e o céu de Aldetoron. Algumas apareciam como relâmpados que se solidificavam, criando degraus irregulares próprios para os apêndices locomotivos das criaturas que desceriam, outras eram construídas de cima para baixo por hábeis artesãos alienígenas e outras ainda se formavam pelo entrelaçamento dos corpos dos próprios monstros, que se juntavam para criar escadas vivas.
- Prlkfmsaaaaaaashxpl'lkeeeeemxz!! - gritou o líder Grahbaggal com toda a força de seus três pulmões. Ele tinha pressa que os artesãos do clã dos Construtores de Escadas da lua Grahbaggal completassem logo o serviço. O corpulento humanóide de 3 metros de altura ajeitou o elmo de crânio na cabeça e observou o continente abaixo, jurando para si mesmo que conquistaria aquelas terras.
Sonhos de conquista enchiam os pensamentos daquele líder alienígena e os de outros como ele, de outras luas, inteligentes a ponto de tirarem algum pensamento racional de suas mentes naturalmente caóticas. Já o continente abaixo deles estava à beira de colapsos políticos à medida que ilhas de anarquia ameaçavam o tênue controle através do qual os governantes poderiam acalmar seus súditos.
A voz gutural do líder Grahbaggal ecoou e chegou aos ouvidos de Anidro como um sussurro levemente diferente do vento. Ele estava com sua irmã Devdas e Dourado. O corpo sem vida de Rham ia embalado em um grande saco de pano e couro.
Naquele momento eles sobrevoavam o deserto de Holai-Kell na aeronau da pirata Alodia. Eles haviam saído da Ilha Sauria alguns dias atrás e vislumbravam a perturbadora paisagem celeste inundada de luas tão próximas que a tripulação precisava mudar a rota constantemente. Abaixo um mar de areia ofuscante fazia parecer que eles estavam sobrevoando uma pintura incompleta.
Após terem escapado do interior do vulcão Boca de Fogo, os companheiros encontraram a capitã que os tiraria daquela ilha em uma tumultuada taverna situada a alguns quilômetros do caos de lava. Os piratas por lá pareciam não se importar com o trágico destino dos colegas de ofício e riam alto a cada explosão vislumbrada ao longe, como se estivessem assistindo a algum espetáculo pirotécnico.
A pirata se destacava por ter um bando de mulheres à sua volta, de modo que o conjunto causava contraste na cena. As outras mulheres na taverna eram garçonetes ou escravas, mas Alodia e suas comparsas eram independentes e corajosas apesar de ainda não terem realizado nenhuma grande façanha.
Dourado se dirigiu a elas, que pareciam as pessoas menos ameaçadoras por ali, para pedir ajuda para sairem daquele lugar. Eles estavam com pressa pois precisavam de um clérigo que ressuscitasse Rham, e por sorte havia, entre as piratas, uma ex-clériga que afirmava conhecer alguns lugares onde eles poderiam ter alguma ajuda.
Após acertado o preço da viagem, eles iniciaram a jornada.
- Logo vai ficar escuro - disse a capitã Alodia de cima de seu salto alto. Seus cabelos vermelho-ígneos escapavam do chapéu de pirata, que ela segurava com uma mão para evitar que saísse voando. Seu rosto era um misto de contemplação e terror.
- Sim, vai anoitecer, mas ainda demora - concordou Anidro. Ele acariciava o saco que continha os restos de Rham e não se importava em segurar as lágrimas, que escorriam livremente.
- Não - disse Dourado. - Ela está se referindo à escuridão do Pesadelo.
- Quando Laefel é expulso do mundo-sonho, a luz se vai com ele. Pois seus olhos são nossos dois sóis - disse a capitã. As outras piratas se limitavam a observar o caminho através do céu apinhado de novos objetos esféricos e apertar as amarras das cordas, mas os ouvidos se mantinham atentos à conversa.
A aeronau, chamada Evaot (algo como "poder feminino") seguia seu voo apesar da forte correnteza de ventos, que empurravam as nuvens rapidamente. Nuvens sólidas eram ameaças durante ventanias assim, pois podiam danificar embarcações voadoras ao vagarem de um lado para outro com o potencial destrutivo de projéteis arremessados por catapultas. E isso não ajudava em nada a melhorar o humor dos aventureiros, que ainda estavam indignados com a infrutífera busca pelas filhas da baronesa de Exgwar, que acabara resultando na morte de um deles.
- Malditas Eda e Cyst. Maldito Fergus - praguejou Devdas.
O som repetitivo e metálico dos motores da aeronau Evaot confundiam-se com o barulho do vento, mas seria fácil perceber a ausência dos ruídos caso parassem de funcionar. E foi o que aconteceu, subitamente.
- Os motores desligaram! Fomos sabotadas! - anunciou a pirata Estra, saindo assustada pela porta da casa de máquinas. - Alguém mexeu nos motores e as hélices estão parando!
- O quê?! - gritou a capitã Alodia, inconscientemente soltando o chapéu, que voou para o deserto.
- Estamos perdidos! - anunciou Edana.
- Calma, precisamos pensar - pediu Claennis, a ex-clériga de Laeate.
- Estamos caindo, segurem-se no que puderem! - ordenou Alodia, e todos observaram atônitos o desenrolar da cena. A aeronau descia em ângulo graças às velas e ao forte vento, o que impedia que a queda fosse reta. Assim, a proa se mantinha ligeiramente empinada, o que faria o casco deslizar nas areias abaixo em vez de se espatifar de uma vez.
- Não consigo! - gritou Estra, usando todas as forças de seus braços.
- Segure-se em mim! - ofereceu Edana, estendendo a mão em meio ao turbilhão de caixas, cordas e utensílios de orientação. A moça então se agarrou na companheira, mas uma corda se desprendeu e as duas saíram voando abraçadas, como se tal ato fraternal fosse aliviar a queda.
- Não!! - indignou-se Alodia, impotente.
A seguir foi a vez de Rham. O saco se abriu com a turbulência e o cadáver escorregou para fora. O grande e pálido corpo do ogro se chocou duas vezes contra os mastros antes de voar para fora da Evaot rumo às areias do Holai-Kell. Ao mesmo tempo, Anidro também foi arremessado para fora devido a um súbito impacto causado por um pedaço de nuvem sólida errante.
- Anidro!! - berrou a irmã Devdas, que se prendia facilmente a um mastro com a ajuda de suas correntes gêmeas vivas. Instintivamente, obedecendo aos impulsos protetores da guerreira, uma das correntes se projetou no ar como uma serpente e agarrou a perna do pequeno paladino, enrolando-se com força. Devdas sentia a ação da corrente como se ela mesma estivesse envolvendo o irmão com seus dedos. Cada elo metálico possuía terminações nervosas capazes de produzir a sensação de tato, e suas centenas de interseções eram capazes de agir como se tivessem tendões independentes.
- Te peguei, mano... Te peguei, está tudo bem... - disse ela, chorando emocionada.
- Vamos bater! - anunciou Dourado, na popa. Ele e Aldia se agarravam ao timão, e também um no outro.
O impacto não foi tão forte quanto todos esperavam, mas o casco da aeronave cavou a areia do deserto e finalmente se chocou contra as rochas subterrâneas, o que fez a embarcação girar e capotar como que em câmera lenta devido à sua aerodinâmica. Por alguns momentos todas as criaturas em um raio de quilômetros, nenhuma delas inteligente, voltaram sua atenção ao evento que rasgava o silêncio secular do mar de areia escaldante. Seres subterrâneos cuja visão fora substituída por um incrível senso de vibrações no solo se dirigiram, curiosos, para o local do desastre, enquanto os destroços iam se acalmando e configurando uma cena trasitória que logo seria obliterada pela próxima tempestade de areia. Não demoraria para o ofuscante amarelo esbranquiçado voltar a dominar totalmente a paisagem.
[Leia a próxima parte]
O Atropal não podia ver o alvoroço começando a tomar a superfície, quilômetros acima, mas podia sentir o Pesadelo varrendo as planícies com seu negrume insano enquanto os habitantes de Aldetoron testemunhavam todos os horrores de um novo período de caos. Tentáculos colossais de criaturas lunares atravessavam as nuvens e quase podiam tocar o continente, pois as luas estavam em sua máxima proximidade.
As escadas lunares surgiam cada uma à sua forma, ligando o chão e o céu de Aldetoron. Algumas apareciam como relâmpados que se solidificavam, criando degraus irregulares próprios para os apêndices locomotivos das criaturas que desceriam, outras eram construídas de cima para baixo por hábeis artesãos alienígenas e outras ainda se formavam pelo entrelaçamento dos corpos dos próprios monstros, que se juntavam para criar escadas vivas.
- Prlkfmsaaaaaaashxpl'lkeeeeemxz!! - gritou o líder Grahbaggal com toda a força de seus três pulmões. Ele tinha pressa que os artesãos do clã dos Construtores de Escadas da lua Grahbaggal completassem logo o serviço. O corpulento humanóide de 3 metros de altura ajeitou o elmo de crânio na cabeça e observou o continente abaixo, jurando para si mesmo que conquistaria aquelas terras.
Sonhos de conquista enchiam os pensamentos daquele líder alienígena e os de outros como ele, de outras luas, inteligentes a ponto de tirarem algum pensamento racional de suas mentes naturalmente caóticas. Já o continente abaixo deles estava à beira de colapsos políticos à medida que ilhas de anarquia ameaçavam o tênue controle através do qual os governantes poderiam acalmar seus súditos.
A voz gutural do líder Grahbaggal ecoou e chegou aos ouvidos de Anidro como um sussurro levemente diferente do vento. Ele estava com sua irmã Devdas e Dourado. O corpo sem vida de Rham ia embalado em um grande saco de pano e couro.
Naquele momento eles sobrevoavam o deserto de Holai-Kell na aeronau da pirata Alodia. Eles haviam saído da Ilha Sauria alguns dias atrás e vislumbravam a perturbadora paisagem celeste inundada de luas tão próximas que a tripulação precisava mudar a rota constantemente. Abaixo um mar de areia ofuscante fazia parecer que eles estavam sobrevoando uma pintura incompleta.
Após terem escapado do interior do vulcão Boca de Fogo, os companheiros encontraram a capitã que os tiraria daquela ilha em uma tumultuada taverna situada a alguns quilômetros do caos de lava. Os piratas por lá pareciam não se importar com o trágico destino dos colegas de ofício e riam alto a cada explosão vislumbrada ao longe, como se estivessem assistindo a algum espetáculo pirotécnico.
A pirata se destacava por ter um bando de mulheres à sua volta, de modo que o conjunto causava contraste na cena. As outras mulheres na taverna eram garçonetes ou escravas, mas Alodia e suas comparsas eram independentes e corajosas apesar de ainda não terem realizado nenhuma grande façanha.
Dourado se dirigiu a elas, que pareciam as pessoas menos ameaçadoras por ali, para pedir ajuda para sairem daquele lugar. Eles estavam com pressa pois precisavam de um clérigo que ressuscitasse Rham, e por sorte havia, entre as piratas, uma ex-clériga que afirmava conhecer alguns lugares onde eles poderiam ter alguma ajuda.
Após acertado o preço da viagem, eles iniciaram a jornada.
- Logo vai ficar escuro - disse a capitã Alodia de cima de seu salto alto. Seus cabelos vermelho-ígneos escapavam do chapéu de pirata, que ela segurava com uma mão para evitar que saísse voando. Seu rosto era um misto de contemplação e terror.
- Sim, vai anoitecer, mas ainda demora - concordou Anidro. Ele acariciava o saco que continha os restos de Rham e não se importava em segurar as lágrimas, que escorriam livremente.
- Não - disse Dourado. - Ela está se referindo à escuridão do Pesadelo.
- Quando Laefel é expulso do mundo-sonho, a luz se vai com ele. Pois seus olhos são nossos dois sóis - disse a capitã. As outras piratas se limitavam a observar o caminho através do céu apinhado de novos objetos esféricos e apertar as amarras das cordas, mas os ouvidos se mantinham atentos à conversa.
A aeronau, chamada Evaot (algo como "poder feminino") seguia seu voo apesar da forte correnteza de ventos, que empurravam as nuvens rapidamente. Nuvens sólidas eram ameaças durante ventanias assim, pois podiam danificar embarcações voadoras ao vagarem de um lado para outro com o potencial destrutivo de projéteis arremessados por catapultas. E isso não ajudava em nada a melhorar o humor dos aventureiros, que ainda estavam indignados com a infrutífera busca pelas filhas da baronesa de Exgwar, que acabara resultando na morte de um deles.
- Malditas Eda e Cyst. Maldito Fergus - praguejou Devdas.
O som repetitivo e metálico dos motores da aeronau Evaot confundiam-se com o barulho do vento, mas seria fácil perceber a ausência dos ruídos caso parassem de funcionar. E foi o que aconteceu, subitamente.
- Os motores desligaram! Fomos sabotadas! - anunciou a pirata Estra, saindo assustada pela porta da casa de máquinas. - Alguém mexeu nos motores e as hélices estão parando!
- O quê?! - gritou a capitã Alodia, inconscientemente soltando o chapéu, que voou para o deserto.
- Estamos perdidos! - anunciou Edana.
- Calma, precisamos pensar - pediu Claennis, a ex-clériga de Laeate.
- Estamos caindo, segurem-se no que puderem! - ordenou Alodia, e todos observaram atônitos o desenrolar da cena. A aeronau descia em ângulo graças às velas e ao forte vento, o que impedia que a queda fosse reta. Assim, a proa se mantinha ligeiramente empinada, o que faria o casco deslizar nas areias abaixo em vez de se espatifar de uma vez.
- Não consigo! - gritou Estra, usando todas as forças de seus braços.
- Segure-se em mim! - ofereceu Edana, estendendo a mão em meio ao turbilhão de caixas, cordas e utensílios de orientação. A moça então se agarrou na companheira, mas uma corda se desprendeu e as duas saíram voando abraçadas, como se tal ato fraternal fosse aliviar a queda.
- Não!! - indignou-se Alodia, impotente.
A seguir foi a vez de Rham. O saco se abriu com a turbulência e o cadáver escorregou para fora. O grande e pálido corpo do ogro se chocou duas vezes contra os mastros antes de voar para fora da Evaot rumo às areias do Holai-Kell. Ao mesmo tempo, Anidro também foi arremessado para fora devido a um súbito impacto causado por um pedaço de nuvem sólida errante.
- Anidro!! - berrou a irmã Devdas, que se prendia facilmente a um mastro com a ajuda de suas correntes gêmeas vivas. Instintivamente, obedecendo aos impulsos protetores da guerreira, uma das correntes se projetou no ar como uma serpente e agarrou a perna do pequeno paladino, enrolando-se com força. Devdas sentia a ação da corrente como se ela mesma estivesse envolvendo o irmão com seus dedos. Cada elo metálico possuía terminações nervosas capazes de produzir a sensação de tato, e suas centenas de interseções eram capazes de agir como se tivessem tendões independentes.
- Te peguei, mano... Te peguei, está tudo bem... - disse ela, chorando emocionada.
- Vamos bater! - anunciou Dourado, na popa. Ele e Aldia se agarravam ao timão, e também um no outro.
O impacto não foi tão forte quanto todos esperavam, mas o casco da aeronave cavou a areia do deserto e finalmente se chocou contra as rochas subterrâneas, o que fez a embarcação girar e capotar como que em câmera lenta devido à sua aerodinâmica. Por alguns momentos todas as criaturas em um raio de quilômetros, nenhuma delas inteligente, voltaram sua atenção ao evento que rasgava o silêncio secular do mar de areia escaldante. Seres subterrâneos cuja visão fora substituída por um incrível senso de vibrações no solo se dirigiram, curiosos, para o local do desastre, enquanto os destroços iam se acalmando e configurando uma cena trasitória que logo seria obliterada pela próxima tempestade de areia. Não demoraria para o ofuscante amarelo esbranquiçado voltar a dominar totalmente a paisagem.
[Leia a próxima parte]



1 comentários:
Ai, ai... Claennis... ganha....
Postar um comentário