[Leia
a parte anterior] [Leia
do começo]
Yoshua não havia concebido as correntes, as quais deu de presente a Devdas através de seu avatar onírico Vadris, para simplesmente controlar o corpo da jovem guerreira. Seu objetivo era criar um vínculo empático que permitisse uma ligação permanente com o mundo-sonho, de modo que ele pudesse acessá-lo qualquer que fosse a distância entre seu corpo físico e o de Aldetor. Bastava simplesmente dormir.
Seu esforço se mostrou útil quando Jocasius pediu a ele o favor de provocar o início do Pesadelo em Aldetoron, ganhando assim o direito de livre entrada naquele mundo a qualquer momento, mesmo durante um Pesadelo. Essa "bênção" privilegiada fora garantida por um amigo de Jocasius, nada menos do que um deus cuja identidade ainda era um mistério.
A prisão a que era submetido, portanto, nada significava enquanto ele pudesse dormir e ir a Aldetoron. Ele passava quase todo o tempo dormindo, vivendo através de sua segunda (e preferida) identidade.
Mas seu vício havia se tornado a ruína de seu corpo, que sofria de fome e sede. O passar dos dias drenava a carne dos seus ossos em ritmo acelerado e, quando acordava, Yoshua se via em condições precárias em meio aos próprios dejetos. Isso o levava a dormir novamente para escapar da inaceitável realidade, e assim entrou na espiral descendente rumo à própria morte.
Um dia se viu acordando subitamente, como se tivesse sido expulso de seus sonhos. Ele tentou adormecer, em vão, e se assustou com a dificuldade que teve para se colocar de pé. As grades frias estimulavam o tato que deixara de utilizar, provocando um forte formigamento, e ao ver suas mãos manchadas pelo processo de inanição, teve a revelação de que havia ido longe demais.
Tentou engolir alguma saliva, mas não havia nenhuma. O movimento da garganta provocou um ardor terrível, como se estivesse revestida com areia.
O pânico finalmente foi instaurado quando ele não conseguiu pedir ajuda. Seus dedos tremiam e a boca dava a sensação de estar inchada, como se os lábios rachados tivessem muitos centímetros de espessura. E ao apalpar o interior da boca com as pontas dos dedos, o estado da pele deu a ilusão de que os dentes estavam moles, o que colaborou para a cena de desespero cego que se seguiu.
Logicamente Yoshua estava sendo observado o tempo todo pela Inteligência Artificial ALMA. A consciência sintética analisava friamente o estranho comportamento do prisioneiro, que ignorava a existência de água e comida no compartimento ao lado de seu leito. As leituras dos sinais vitais continuavam motivando-a a enviar relatórios constantes à equipe médica, com requisições de intervenção. Mas havia ordens expressas do general Haziel Slarus para que Yoshua fosse deixado sozinho, "meditando o quanto quisesse". A atitude do soldado era interpretada como uma afronta pelo general, cujo orgulho o impedia de atribuir a contínua "meditação" de Yoshua ao fato do homem estar, na verdade, dormindo e visitando Aldetoron.
A atual situação de Yoshua, que finalmente se movia pela cela, desencadeou na ALMA a geração de relatórios extras que chegaram diretamente ao general Haziel.
- O prisioneiro finalmente se deu por vencido - disse o general a si mesmo, em meio à solidão acizentada de seu escritório. Havia muito tempo que ele não considerava seus silenciosos guarda-costas mecânicos como "companhia" propriamente dita. Aliás, fazia um bom tempo que não os via sequer mover um membro metálico, exceto durante os cumprimentos que foram programados para realizar a cada entrada ou saída do militar.
- ACIONAR EQUIPE MÉDICA, GENERAL? - quis saber ALMA.
- Sim. E que ele seja limpo também.
Mais tarde, Yoshua foi levado aos aposentos do general. O semblante frio de Haziel Slarus estava quebrado pelas rugas provocadas por contrações faciais que formavam um estranho sorriso vitorioso. Os dois soldados que o haviam trazido se retiraram após deixarem Yoshua sentado na bela cadeira estofada destinada a visitantes.
- Oficial Yoshua, vejo que se esforçou bastante para manter aquela sua meditação. Você conseguiu passar dias sem comer ou beber.
"Eu não estava meditando", pensou Yoshua. "Estive em belíssimos lugares em um mundo bem diferente desta enorme cápsula de metal que carrega pelo espaço os resquícios de uma espécia conhecida como ser humano".
- Você deve se lembrar - continuou o general - que decidi prendê-lo enquanto eu analisava o diário que você mantinha em segredo, contendo descobertas significativas sobre o misterioso mundo de Aldetoron. E o mantive preso longe de onde se encontram os alienígenas, de modo que você não pudesse ter acesso àquele mundo mesmo utilizando suas "técnicas de sonhos lúcidos".
- Sim, senhor, eu me lembro - concordou Yoshua, sorrindo por dentro pela sorte de não ter tido tempo de colocar no diário muitos detalhes sobre as funções das correntes que dera à guerreira Devdas.
- E você acha que está preparado para voltar às suas funções?
- O... o quê? - espantou-se Yoshua. Ele temia não ter ouvido direito. - Voltar ao trabalho?
- Exatamente. Seria tolice eu ignorar a relação que você criou com o alienígena Aldetor, bem como seria um desperdício perder alguém tão dedicado ao Projeto 99-222 como você.
Yoshua permanecia pasmo, mas entendia as motivações do general e continuou ouvindo.
- Você voltará ao trabalho e logicamente será vigiado. Durante sua ausência o oficial Anders o substituiu no projeto, e vou colocá-los para trabalharem juntos para me certificar de que nenhuma descoberta será feita isoladamente.
Alguns segundos se passaram após a silenciosa afirmativa de Yoshua, e o oficial sentiu que aquele era o momento certo para tentar esclarecer uma antiga questão:
- General... - começou ele, subitamente intimidado por aquele olhar frio que voltava a cruzar com os seus.
- Diga, oficial.
- Para que o senhor deseja utilizar o mundo-sonho de Aldetoron para treinar soldados se...
- Se...?
- Se não temos inimigos?
A questão permaneceu no ar, e o general virava os olhos quase aleatoriamente como se perseguisse um inseto invisível. Ele continuou ali, de pé, imóvel exceto pelos perturbadores olhos. Yoshua achava que o general tinha a resposta na ponta da língua, mas talvez fosse uma resposta tão complexa que não podia ser dita sem distorcer o real significado. Afinal, que outro motivo faria uma pessoa pensar tanto tempo ates de falar? E o que ele olhava em volta?
- Nós temos inimigos - respondeu finalmente, sem no entanto parar de perseguir o inseto invisível com com a visão. Yoshua então notou que o olhar do general seguia um padrão, sempre mirando os mesmos quatro pontos: sua mesa, os dois androides guarda-costas e um ponto no teto, no meio do aposento, onde havia um dos incontáveis olhos da ALMA que permitiam à inteligência artificial vasculhar toda a EU.
- Então existe uma ameaça - insistiu Yoshua.
- Sim, existe. Passar bem, oficial Yoshua. Em breve conversaremos novamente.
[Leia a próxima parte]
Yoshua não havia concebido as correntes, as quais deu de presente a Devdas através de seu avatar onírico Vadris, para simplesmente controlar o corpo da jovem guerreira. Seu objetivo era criar um vínculo empático que permitisse uma ligação permanente com o mundo-sonho, de modo que ele pudesse acessá-lo qualquer que fosse a distância entre seu corpo físico e o de Aldetor. Bastava simplesmente dormir.
Seu esforço se mostrou útil quando Jocasius pediu a ele o favor de provocar o início do Pesadelo em Aldetoron, ganhando assim o direito de livre entrada naquele mundo a qualquer momento, mesmo durante um Pesadelo. Essa "bênção" privilegiada fora garantida por um amigo de Jocasius, nada menos do que um deus cuja identidade ainda era um mistério.
A prisão a que era submetido, portanto, nada significava enquanto ele pudesse dormir e ir a Aldetoron. Ele passava quase todo o tempo dormindo, vivendo através de sua segunda (e preferida) identidade.
Mas seu vício havia se tornado a ruína de seu corpo, que sofria de fome e sede. O passar dos dias drenava a carne dos seus ossos em ritmo acelerado e, quando acordava, Yoshua se via em condições precárias em meio aos próprios dejetos. Isso o levava a dormir novamente para escapar da inaceitável realidade, e assim entrou na espiral descendente rumo à própria morte.
Um dia se viu acordando subitamente, como se tivesse sido expulso de seus sonhos. Ele tentou adormecer, em vão, e se assustou com a dificuldade que teve para se colocar de pé. As grades frias estimulavam o tato que deixara de utilizar, provocando um forte formigamento, e ao ver suas mãos manchadas pelo processo de inanição, teve a revelação de que havia ido longe demais.
Tentou engolir alguma saliva, mas não havia nenhuma. O movimento da garganta provocou um ardor terrível, como se estivesse revestida com areia.
O pânico finalmente foi instaurado quando ele não conseguiu pedir ajuda. Seus dedos tremiam e a boca dava a sensação de estar inchada, como se os lábios rachados tivessem muitos centímetros de espessura. E ao apalpar o interior da boca com as pontas dos dedos, o estado da pele deu a ilusão de que os dentes estavam moles, o que colaborou para a cena de desespero cego que se seguiu.
Logicamente Yoshua estava sendo observado o tempo todo pela Inteligência Artificial ALMA. A consciência sintética analisava friamente o estranho comportamento do prisioneiro, que ignorava a existência de água e comida no compartimento ao lado de seu leito. As leituras dos sinais vitais continuavam motivando-a a enviar relatórios constantes à equipe médica, com requisições de intervenção. Mas havia ordens expressas do general Haziel Slarus para que Yoshua fosse deixado sozinho, "meditando o quanto quisesse". A atitude do soldado era interpretada como uma afronta pelo general, cujo orgulho o impedia de atribuir a contínua "meditação" de Yoshua ao fato do homem estar, na verdade, dormindo e visitando Aldetoron.
A atual situação de Yoshua, que finalmente se movia pela cela, desencadeou na ALMA a geração de relatórios extras que chegaram diretamente ao general Haziel.
- O prisioneiro finalmente se deu por vencido - disse o general a si mesmo, em meio à solidão acizentada de seu escritório. Havia muito tempo que ele não considerava seus silenciosos guarda-costas mecânicos como "companhia" propriamente dita. Aliás, fazia um bom tempo que não os via sequer mover um membro metálico, exceto durante os cumprimentos que foram programados para realizar a cada entrada ou saída do militar.
- ACIONAR EQUIPE MÉDICA, GENERAL? - quis saber ALMA.
- Sim. E que ele seja limpo também.
Mais tarde, Yoshua foi levado aos aposentos do general. O semblante frio de Haziel Slarus estava quebrado pelas rugas provocadas por contrações faciais que formavam um estranho sorriso vitorioso. Os dois soldados que o haviam trazido se retiraram após deixarem Yoshua sentado na bela cadeira estofada destinada a visitantes.
- Oficial Yoshua, vejo que se esforçou bastante para manter aquela sua meditação. Você conseguiu passar dias sem comer ou beber.
"Eu não estava meditando", pensou Yoshua. "Estive em belíssimos lugares em um mundo bem diferente desta enorme cápsula de metal que carrega pelo espaço os resquícios de uma espécia conhecida como ser humano".
- Você deve se lembrar - continuou o general - que decidi prendê-lo enquanto eu analisava o diário que você mantinha em segredo, contendo descobertas significativas sobre o misterioso mundo de Aldetoron. E o mantive preso longe de onde se encontram os alienígenas, de modo que você não pudesse ter acesso àquele mundo mesmo utilizando suas "técnicas de sonhos lúcidos".
- Sim, senhor, eu me lembro - concordou Yoshua, sorrindo por dentro pela sorte de não ter tido tempo de colocar no diário muitos detalhes sobre as funções das correntes que dera à guerreira Devdas.
- E você acha que está preparado para voltar às suas funções?
- O... o quê? - espantou-se Yoshua. Ele temia não ter ouvido direito. - Voltar ao trabalho?
- Exatamente. Seria tolice eu ignorar a relação que você criou com o alienígena Aldetor, bem como seria um desperdício perder alguém tão dedicado ao Projeto 99-222 como você.
Yoshua permanecia pasmo, mas entendia as motivações do general e continuou ouvindo.
- Você voltará ao trabalho e logicamente será vigiado. Durante sua ausência o oficial Anders o substituiu no projeto, e vou colocá-los para trabalharem juntos para me certificar de que nenhuma descoberta será feita isoladamente.
Alguns segundos se passaram após a silenciosa afirmativa de Yoshua, e o oficial sentiu que aquele era o momento certo para tentar esclarecer uma antiga questão:
- General... - começou ele, subitamente intimidado por aquele olhar frio que voltava a cruzar com os seus.
- Diga, oficial.
- Para que o senhor deseja utilizar o mundo-sonho de Aldetoron para treinar soldados se...
- Se...?
- Se não temos inimigos?
A questão permaneceu no ar, e o general virava os olhos quase aleatoriamente como se perseguisse um inseto invisível. Ele continuou ali, de pé, imóvel exceto pelos perturbadores olhos. Yoshua achava que o general tinha a resposta na ponta da língua, mas talvez fosse uma resposta tão complexa que não podia ser dita sem distorcer o real significado. Afinal, que outro motivo faria uma pessoa pensar tanto tempo ates de falar? E o que ele olhava em volta?
- Nós temos inimigos - respondeu finalmente, sem no entanto parar de perseguir o inseto invisível com com a visão. Yoshua então notou que o olhar do general seguia um padrão, sempre mirando os mesmos quatro pontos: sua mesa, os dois androides guarda-costas e um ponto no teto, no meio do aposento, onde havia um dos incontáveis olhos da ALMA que permitiam à inteligência artificial vasculhar toda a EU.
- Então existe uma ameaça - insistiu Yoshua.
- Sim, existe. Passar bem, oficial Yoshua. Em breve conversaremos novamente.
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