quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Projeto 99-222 - parte 33

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- Acho que não precisamos investigar mais nenhuma sala ou corredor - disse Dourado. - Os piratas parecem estar levando tudo para os navios voadores, e é lá que deve estar o que procuramos.
    Os companheiros observaram o modo como Devdas vinha seguindo-os, o corpo inerte envolvido pelas correntes ambulantes. O assombro ainda era maior do que o alívio de não precisarem carregá-la naquele momento de tensão.
    - O navio grande com o gancho fica naquela direção - avisou Rham, apoiando-se em seu senso de direção.
    - Então vamos logo - adiantou-se Anidro, sem conseguir parar de pensar na irmã.

Uma rápida corrida os levou a um grande aposento que servia de depósito intermediário para os caixotes que entravam e saíam. Havia uma predominância de caixotes de madeira, mas entre eles espalhavam-se também caixas de metal e sacos provavelmente contendo cereais. O emblema do cavalo alado estampado em alguns deles confirmava que se tratava de material roubado do império de Itgar.
    O barulho dos motores do gigantesco veículo voador, pairando na beirada da plataforma vários metros adiante, se fazia notar misturado ao cheiro de óleo queimado e suor.
    Como era de se esperar, havia piratas ali, mas eles não estavam levando toda aquela tralha para fora. Havia um gigante impedindo suas atividades, impondo-se através do hábil manejo do mangual repleto de crânios. Era Gumbaldak, e ele sorriu um sorriso de morte quando percebeu a chegada dos novos visitantes.
    - Pelo menos ele não está na forma de tiranossauro - disse Rham, tentando amenizar.

Não houve tempo para comentários. Gumbaldak investiu com o "escudo mordedor" à frente do corpo, as mandíbulas metálicas desejando sangue. Anidro tentou, em vão, conjurar uma prece de proteção que amortecesse o impacto recebido por Rham, que se pôs na frente. O ogro recebeu todo o poder do ataque com a espada mágica à frente do corpo, que se quebrou como vidro diante de seus olhos atônitos - era o fim das refeições improvisadas! A visão dos estilhaços de sua tão querida espada despertou sua fúria bárbara interior, mas a investida de Gumbaldak ainda não havia perdido o impulso. A cabeça reptiliana presa ao escudo vivo voltou a abrir a boca e revelou dentes brilhantes e simétricos em forma de terror cromado, agarrando-se a seguir no abdome de Rham sem intenção de soltar.
    Notando o flanco esquedo vulnerável devido ao uso do escudo, e ao mesmo tempo tentando evitar o braço direito que usava o medonho mangual, Dourado cravou sua espada longa entre duas costelas do gigante enquanto proferia palavras divinas que canalizavam energia positiva na direção do bárbaro ferido. Um grito ecoou, mas a contração dos músculos de Gumbaldak impediu que a espada fosse retirada, e Dourado amaldiçoou sua falta de sorte por ser o segundo a ficar sem a arma.
    Anidro continuava conjurando escudos divinos, tentando permanecer longe do alcance dos ataques. Ele arriscava olhares rápidos na direção da irmã, cujas correntes formavam uma barreira à frente do corpo inconsciente. Ela parecia estar protegida, mas fazia muita falta agora.
    - Anidro, se concentra! - gritou Dourado. O clérigo de Egzarot começava a perder o equilíbrio diante dos golpes implacáveis de Gumbaldak e ia procurando alguma coisa entre as caixas que pudesse utilizar. Cada crânio do mangual que o acertava causava uma dor diferente. Um deles emanava um frio aflitivo, enquanto outro criava um som agudo em sua mente. Um dos crânios parecia com o de um dragão negro jovem devido aos inconfundíveis traços curvos, e ele fazia derreter o que tocasse, como se tivesse o poder do ácido de sua baforada.
    - Desculpa, é que eu... - e então o menino se interrompeu ao notar duas moças a bordo do enorme navio voador lá fora. Elas com certeza não eram piratas, e possivelmente eram aquelas que eles estavam procurando. - São as filhas da baronesa! Devem ser elas lá fora, no navio!
    O ogro, que até então tinha o tronco preso pelas frias mandíbulas do estranho escudo, permanecia sem opções de ataque senão socos e chutes, com eventuais cusparadas. O sangue jorrava livremente pelas perfurações, mas ele não parecia se importar.

Enfim, todo o barulho caótico resultante da mistura do som melancólico dos motores, dos brados de batalha e dos gritos dos piratas em volta, que pareciam estar assistindo a um espetáculo, foi subitamente interrompido pelo estrondo do disparo uma espingarda. As costas de Gumbaldak ardiam com a presença de centenas de bolinhas de chumbo. Dourado então puxou uma corda lateral da maciça arma que provocou a partida de um pequeno motor interno, causando o início da rotação das engrenagens que revelaram a real função do artefato encontrado: uma baioneta de serra elétrica com espingarda.

O terror real somente se mostrou na feição do gigante quando o clérigo veio brandindo o objeto em sua direção, o que o obrigou a soltar Rham para que o escudo pudesse ser utilizado contra a nova ameaça. Mas o bárbaro aproveitou o impulso para se prender à mão direita do adversário, roubando seu mangual. E a sensação de tê-lo em mãos, juntado à sua frênesi, bloquearam a dor e o desconforto proveniente do enorme rombo em seu abdome, por onde escorriam vísceras.
    Analisando a situação em que se encontrava, Gumbaldak resolveu improvisar. Enquanto o bárbaro e o clérigo vinham em sua direção, ele começou a crescer, transformando-se em réptil. Seu corpo aumentava rapidamente de tamanho, empurrando todos os presentes na direção das paredes, chão e teto, onde pretendia sufocá-los. Ele mesmo foi tomado por uma incontrolável claustrofobia e possivelmente seria também prejudicado pela manobra, mas o resultado foi o pretendido.
    Todos estavam no escuro e imóveis. O corpo de Gumbaldak, agora um maciço tiranossauro de várias toneladas, preenchia o aposento completamente. Ouvia-se o som de ossos estalando e gritos abafados, e então veio o silêncio.

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