segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Projeto 99-222 - parte 32

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

- Odeio piratas - confessou Rham, lambendo na espada o sangue que já havia se transmutado em glacê.
    - Por quê? - quis saber Anidro, preocupado em falar baixo para não chamar a atenção de mais piratas. Afinal, eles estavam invadindo uma cidadela de ladrões e deveriam salvar duas moças desaparecidas e algum tesouro chamando o mínimo de atenção.
    - Porque... - houve uma pausa - porque, senão, qual o motivo de estarmos matando piratas?
    - O Dourado e eu não estamos matando. Você está matando. E comendo.
    - Pessoal, o fato de estarmos dentro de um vulcão não incomoda mais do que os piratas? - perguntou Devdas, com voz fraca. Ela se esforçava para falar.
    - Quer parar para um descanso? - ofereceu Dourado.
    - Eu disse que estava bem, e não vou voltar atrás agora - irritou-se a guerreira. Suas novas correntes tinham o tom avermelhado do sangue que ela forneceu sem consentimento, e o brilho metalizado dava uma aparência viscosa, viva.

Os aventureiros caminhavam por túneis largos, escavados na rocha do próprio interior do vulcão. Havia rachaduras por toda parte, provavelmente devidas às eventuais erupções. O ar quente e malcheiroso circulava continuamente através de pequenos caminhos no teto e nas próprias paredes, o que possibilitava a sobrevivência.
    - Olha o que eu achei! - alegrou-se Anidro, pegando um objeto no chão. - É um crânio feito de pedra, igualzinho um de verdade!
    - Isso é um crânio de anão - explicou Dourado. - E anões têm esqueletos minerais.
    - Muitos têm ouro e pedras preciosas debaixo dos músculos - complementou Rham. - Esses piratas devem caçar anões também.
    Devolvendo a peça ao chão, Anidro limpou as mãos na roupa. O grupo chegou a uma grande câmara logo depois, que dava acesso a muitos outros corredores. Ali era possível ouvir ecos distantes de uma batalha.
    - Briga interna? - palpitou Devdas.
    - Provável - disse Dourado. - Piratas adoram brigar.
    Rham então escolheu um túnel secundário com inclinação ascendente, explicando que assim eles poderiam chegar ao lugar de onde vinha o barulho sem serem vistos. E momentos depois eles chegaram a uma abertura no chão, com vista privilegiada, alguns metros acima de um salão recheado de tesouros. Pilhas de moedas de ouro cunhadas em diferentes partes do mundo dividiam espaço com tapetes valiosíssimos, obras de arte ancestrais e equipamentos mágicos. Os olhos não eram capazes de focar algo específico por causa da inundação visual.
    Em meio ao mar de preciosidades, piratas transformavam pilhas de tesouros em barricadas, escondendo-se enquanto recarregavam suas armas de fogo. Mas eles não lutavam entre si - havia outros invasores no lugar.
    Gigantes espremiam-se nos corredores para entrarem no grande salão, onde tinham espaço para metamorfosearem-se em terríveis répteis. Um deles, especialmente grande, ficou entalado em uma passagem e gritava por causa da claustrofobia. Ou talvez houvesse um pirata espetando suas costas.
    - Vejam, é o gigante que perseguiu a gente! - apontou Anidro. - Pelo tamanho que ele fica na forma de réptil, acho que ele não caberia aqui!
    Gumbaldak estava de pé no meio do salão, aparando os tiros com um enorme escudo (não há muitas coisas mais épicas do que aparar tiros com um escudo). O objeto cilíndrico era metálico e exibia um adorno interessante em seu centro: uma cabeça reptiliana do mesmo material do escudo, mas parecia viva. O gigante também o utilizava como arma e, quando chocado contra os oponentes, fazia com que as mandíbulas metálicas se fechassem.
    Na mão direita Gumbaldak levava um mangual com três correntes, cada uma com um crânio de uma criatura diferente na extremidade. Era uma arma medonha e terrivelmente bela. Havia algo de sobrenatural tanto no escudo quanto no mangual, como se tivessem nascido de alguma forma em vez de terem sido criadas por quaisquer mãos ou ferramentas.
    As cicatrizes cobriam o corpo do gigante como uma armadura, e era possível que formasse, de fato, uma carapaça que amortecia o impacto e a dor.
    - Salvem suas vidas! Içar velas! Ligar motores!
    Homens e mulheres salvavam o que podiam, enfiando tesouros nos bolsos e buscando o capitão. Explosões ao longe indicavam que um navio voador acabara de ser destruído.
    - Vamos aproveitar para procurar as moças agora que ninguém mais se importa conosco - disse Dourado, com pressa.
    - Procurar quem? - perguntou Rham.
    - As filhas da baronesa! Você já esqueceu o que viemos fazer nessa ilha dos infernos?! - explodiu Devdas, aplicando um tapa de presta-atenção. Mas o movimento repentino causou uma vertigem e ela perdeu os sentidos. Mas não caiu.
    - Ela desmaiou? - questionou Dourado, instintivamente esticando os braços para segurá-la.
    - Sim, mas... - Anidro ia dizer alguma coisa, mas se assustou ao perceber que as correntes presas aos braços de sua irmã estavam sustentando-a como um exoesqueleto. Elas estavam trançadas pelas costas, braços e pernas e se apoiavam no chão, mantendo-se completamente rígida. Todos se afastaram um pouco, com certo receio, e as extremidades das correntes "andaram" atrás deles, como se fossem duas pernas.
    Todos se entreolharam e chegaram a um silencioso consenso de que poderiam continuar mesmo com a companheira desmaiada.

[Leia a próxima parte]

0 comentários: