terça-feira, 28 de julho de 2009

Projeto 99-222 - parte 28

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

A sensação de correr pela selva, levando o fôlego ao limite enquanto o corpo é guiado pelos reflexos que impedem o choque contra os obstáculos é, por si só, uma experiência que aguça todos os sentidos e permite ao cérebro saborear uma avalanche de estímulos simultaneamente. A vegetação parece um borrão móvel mas, por incrível que pareça, os olhos são capazes de captar detalhes que passariam despercebidos durante uma caminhada. O suor sensibiliza a pele, transformando o vento em algo palpável capaz de aprimorar a percepção do ambiente.
    Mas quando o motivo da corrida é salvar a própria pele da investida de um tiranossauro enciumado, a coisa toma uma dimensão muito maior.
    Pelo caminho, Rham se viu obrigado a levar Anidro nos braços, já que as pernas pequenas o deixavam em desvantagem para correr. Além disso, o ogro não queria correr o risco de ver o menino engolido por causa dele. Afinal, entrar naquela cabana não tinha sido a melhor idéia e...
    - Anidro? - chamou Rham, notando que o peso havia sumido bruscamente do seu ombro.
    - Aqui! - respondeu uma voz baixa e abafada. Devdas parou de correr, assim como Dourado.
    - Não sei pra onde ele foi! - reclamou o bárbaro, desesperado.
    - Ele foi engolido, seu lerdo! - gritou a guerreira, que não se conformava com a situação em que haviam se metido. - ANIDRO, AGUENTA FIRME!
   A mestra das correntes voltou com passos decididos, balançando habilmente sua arma. E aproveitando a distração causada pela criança que teimava em impedir a mastigação, Devdas começou a escalar o réptil gigantesco pelas costas.
    Dourado fez algumas preces de auxílio e todos foram tomados por inspiração divina, que permitia analisar a cena friamente e agir com cautela. E em seguida desembainhou a espada longa.
    - Me ajuda a distraí-lo, Rham! Assim a Devdas ganha tempo! - disse o clérigo, e os dois iniciaram um combate contra... as pernas da criatura.
    Devdas logo chegou à cabeça escamosa, usando como apoio os quelóides de inúmeras cicatrizes espalhadas pelo corpo do monstro. Ela se perguntava como alguém podia juntar tantas daquelas sem morrer, mas preferia deixar para tirar conclusões mais tarde.
    - Me ajuda! Aaah, que nojento é isso aqui! - reclamava o pequeno paladino, que lutava contra a enorme língua para sem manter longe dos dentes, perto da bochecha. E seu pedido foi atendido assim que viu  as pontas de uma corrente dentada surgirem perto dele, iniciando um rasgo por onde ele poderia sair.
    Mas Gumbaldak, decidido a manter a integridade bucal, chacoalhou o pescoço e cuspiu Anidro, que rolou envolto em baba, sangue e um pouco de vômito. Devdas se segurou e jogou uma das pontas da corrente por baixo do pescoço, usando força suficiente para que conseguisse pegá-la do outro lado, formando uma rédea com a qual ela poderia se manter ali por mais tempo.
    - Ele tem um monte de machucados recentes pelo corpo - avisou Dourado. - Vamos cutucar!
    E assim fizeram. Logo Gumbaldak desistiu e foi embora, já que a luta contra Kardag, horas antes, o havia deixado enfraquecido.

Mais tarde, já em meio às trevas, os aventureiros tentavam escapar de um grupo de répteis carnívoros do tamanho de potros, com olhos perturbadoramente amarelos. Eles possuíam uma garra especialmente grande em cada pé, e os corpos tinham listas negras.
    - Eles caçam como lobos - disse Rham, ofegante. - Vamos subir esse barranco e tentar chegar no topo daquela parede rochosa - propôs, coçando instintivamente o umbigo.
    E finalmente após uma cansativa escalada, testemunhada por dinossauros com pescoços do tamanho de árvores, os quatro foram abençoados com uma linda vista do descampado adiante, que seguia até o vulcão. Dali de cima era possível ver manadas de animais gigantescos e observar de perto o voo de criaturas que tinham escamas e penas ao mesmo tempo. Além disso havia um riacho que passava por ali, para completar a recompensa pelo dia difícil.
    O ocaso deixara um rastro lilás no céu que se recusava a ir embora, e as estrelas já mostravam seu brilho. É claro que muitas ficavam escondidas atrás das luas... aquelas luas grandes e medonhas, um pouco mais próximas a cada dia.
    Anidro já havia se recuperado do choque e observava os astros alienígenas com curiosidade.
    - Acho que consigo ver uma cidade cheia de gente naquela lua ali. Tá, provavelmente não tem "gente" lá... Olha, mana, aquela área mais clara que parece uma teia de aranha deve ser a iluminação das ruas!
    Mas Devdas olhava a própria imagem refletida na água, que passava preguiçosamente entre as pedras, e acariciava a caixa nas mãos.

- Vou abrir.
    - Vai abrir? - perguntou Dourado, para confirmar, chamando assim a atenção dos outros.
    - Vou abrir - confirmou ela, simplesmente puxando a tampa. Era como se a caixa nem mesmo estivesse trancada antes, dando a impressão de que um esbarrão qualquer poderia tê-la aberto.
    Um brilho estranhamente opaco se revelou, sem cor. Devdas suava e os olhos se mexiam loucamente para obter toda a informação visual possível sobre o interior do objeto antes de tocar. A coisa ali dentro emanava uma aura fria e cheiro de metal antigo.
    Eram correntes, mais especificamente um par delas. E definitivamente eram armas, já que cada uma tinha algo parecido com um facão rústico preso a uma das pontas. Já a outra ponta estava escondida sob o emaranhado desorganizado.
    Ninguém disse nada, já que se esperava uma reação inicial da guerreira para quebrar o silêncio. Mas ela ainda permancia quieta.
    Devdas pegou um dos facões, e tocá-lo foi... revelador. Ela não sabia por que essa era a melhor definição para o que estava sentindo, mas era como se sua mente tivesse se aberto para alguma dimensão superior no momento em que sua mão tocou o metal gelado. E puxando a corrente, que fazia um som cristalino durante o choque dos elos, ela encontrou a outra ponta. O último elo era preso a uma espécie de espinho, também metálico, mas que parecia vivo. Ele se mexia um pouco.
    Subitamente ela entendeu o que deveria fazer, bastando realizar uma escolha. Onde prender? Nas costas? Talvez no braço fosse melhor. Mas não lhe passou pela cabeça devolver o objeto à caixa, pois isso não faria sentido algum!
    - Mana, o que... - Anidro ia questionar a ação da irmã, mas foi impedido por Dourado. E então eles observaram enquanto ela fincava o espinho na parte inferior do pulso esquerdo, engolindo o grito de dor. As veias do braço protestaram contra a invasão repentina, dilatando e bombeando sangue para fora.
    "Agora a outra." - disse ela para si mesma. Ou não foi ela?
    O riacho foi tingido de vermelho. A guerreira fechou os olhos com força, como se tentasse prender a dor entre as pálpebras, e soltou um segundo grito agoniado.
    Dourado fez que sim com a cabeça e Rham tampou a boca da moça para evitar que tivessem visitas desagradáveis por causa do barulho, mas ela não gritou mais. O sangue parou de escorrer alguns segundos depois, e ela dormiu. Dormiu sabendo que as correntes estavam quase mortas, mas que voltaram à vida com seu sangue. Elas seriam extensões de seus braços, levando seu tato até a ponta dos facões.
    Mas a que preço?

[Leia a próxima parte]

2 comentários:

Trix disse...

Ai ai... e todas a minhas falhas em saves fortitude quase me mataram.... boas lembranças... T_T

article marketing disse...

Good post