segunda-feira, 18 de maio de 2009

Projeto 99-222 - parte 9

[Leia a parte 8]

- Bem-vindos de volta! - disse a senhora Rheda, enfática. Os pares de braçoes extras, característicos da raça shivus, saudavam os aventureiros com as palmas das mãos juntas. - Vejo que atenderam ao meu chamado - completou, sorrindo.
- Cadê o túnel? - perguntou Devdas, que apertava o espaço entre os olhos com os dedos, em claro sinal de dor de cabeça.
- Calma, mana! A gente nem entrou na casa ainda e... - mas Anidro não terminou a frase, pois a irmã passou a fitá-lo com os olhos canibais de uma fera disposta a comer os próprios filhotes por diversão. E o silêncio imperou por alguns longos segundos.
- A senhora poderia nos mostrar o que encontrou? - adiantou-se Dourado, cujos dogmas clericais, embora fosse um clérigo da guerra, incluíam a paciência, os bons modos e a justiça. Mas era a paciência que vinha sendo mais requisitada desde o início da viagem. Não que ele achasse de todo ruim a onda de raiva de Devdas, afinal ela cuidou sozinha de um bando de gnolls que tentaram assaltá-los na estrada, antes que os outros pudessem sacar as próprias armas - certo, não foi bem a questão da velocidade, mas simplesmente o fato de a coisa ter se transformado em um espetáculo de sangue estrelado pela guerreira da corrente, de modo que os rapazes preferiram assistir em vez de participar.
- É por aqui - mostrou a shivus.

O casebre de madeira ficava próximo da borda da grande floresta, de forma que não era preciso se embrenhar na mata. Na frente havia um amplo alpendre com colunas de pedra, mais antigas do que a própria casa e que provavelmente serviram de alicerces para sua construção. E em uma das colunas, onde foram amarradas as rédeas das montarias, eram visíveis algumas inscrições ininteligíveis - runas muito antigas. "Não é grande surpresa que haja algo embaixo deste lugar", pensou Dourado.
O interior da casa era aconchegante e bem mobiliado, do mesmo jeito que os quatro se lembravam de ter visto da última vez que estiveram ali para destruir o golem de comida.
- Ali na parede devia ter uma espada - observou Anidro, referindo-se ao suporte vazio preso à parede da cozinha, próxima ao velho forno de metal.
- Eu ia jogar fora - disse Rheda, com tristeza na voz. - Está no porão, junto com outras coisas das quais pretendo me desfazer.
- Jogar uma espada fora? Por quê? - quis saber Rham, cuja presença não se havia feito perceber até aquele momento, apesar de ser um ogro. E a resposta veio através de um singelo balançar de ombros da anfitriã, acompanhado por uma expressão de resignação.
- Posso pegar? - arriscou o ogro.
- Sim, claro.
- Posso pegar um pedaço desse bolo também? - pediu, sentindo-se cada vez mais à vontade.
- Pode pegar. Fiz mesmo esperando que vocês chegassem.
O sorriso de Anidro abriu-se e um torrente de imagens invadiu seus olhos da mente: o bolo que a mãe fazia, o cheiro da massa no forno e os tempos em que ele e a irmã passavam na praia, observando a fumaça sair pela chaminé. Até que um dia as brumas, que sempre se mantinham distantes no mar, resolveram invadir a praia e eles acabaram deixando aquele mundo para chegar neste. E ao completar a cena na memória, o jovem paladino sentiu que estava faltando alguma parte da história. Mas o que isso interessava? Tinham feito bolo... para ele!
- Eshtava uma delíshia - grunhiu Rham, com a boca cheia. E os outros aproveitaram algumas migalhas que ficaram no prato de metal.
- Sem noção - verbalizou Devdas, que notou a profunda tristeza de Anidro. Mas não ligou, afinal a dor de cabeça permanecia em primeiro plano.
- Eu faço mais para quando vocês voltarem - amenizou Rheda, dirigindo as palavras especialmente para o menino. Mas ele mal ouviu, pois naquele momento um pouco de sua infante inocência se foi, lavada com imagens das vísceras do ogro rolando por uma ribanceira. As bochechas inchadas e a respiração acelerada denunciavam seus pensamentos.

No porão, agora limpo de todo o molho de tomate e queijo, algumas tábuas quebradas no chão revelavam uma passagem. Dourado acendeu uma tocha, Rham pegou a espada que seria jogada fora, Devdas soltou a fivela que prendia a corrente e Anidro os seguiu, tristonho.

O túnel era frio e úmido, e uma infinidade de fungos e plantas subterrâneas disputavam as melhores saliências na rocha, já que a parede estava cheia de rachaduras e não exibia mais o explendor de outrora - ou seria outrera? Algumas flores exóticas seguiam visivelmente a direção da tocha, dobrando os caules como se fossem pescoços se esticando, com curiosidade, para perto do calor do fogo. Dourado notou que tinham dentes.
- Cuidado com aquelas plantas - avisou o clérigo, mas Rham já estava mexendo em uma delas e pôde atestar pessoalmente que os dentes eram afiados.
- Droga, por que não avisou antes!? - protestou, "decapitando" as flores uma a uma com a espada nova.
- Rham, elas só deviam estar com fom... - começou Anidro, mas teve a segunda frase cortada no dia. E dessa vez foi porque viu que as plantas mortas estavam se transformando. As pétalas triangulares adquiriram textura de açúcar e os dentinhos pareciam ter se transformado em balinhas.
- Então foi assim que ela fez o golem - concluiu Dourado.

Rham, que ficou alguns minutos "testando" a espada em outras coisas que encontrava por ali enquanto os outros conjecturavam a possibilidade de comer o pequeno cadáver de açúcar, retornou ofegante com uma coisa nas mãos.
- O que é isso? - perguntou Anidro, que notou que o ogro estava meio sem graça.
- Desculpa pelo que eu fiz lá em cima... - disse com dificuldade. - Eu achei uns fungos diferentes ali na frente, depois de fazer uns testes. E usei a espada, olha.

Era um bolo.

[Leia a próxima parte]

1 comentários:

Trix disse...

HAUhAuHaUahUAhAUh
Eu lembro dessa espada... HAuHauHAUah