ALIANDRA ASKAVO, A FUGITIVA DE VISCERAI, tinha realmente bons motivos para fugir. O que importava se sua mãe e os dois irmão caçulas ficariam sem sua preciosa ajuda, sendo ela a única com renda? - Aliás, uma talentosa guarda-costas. Fugindo, ao menos viveria para voltar um dia. O que importava se Jolm, o único moço que parecia importar-se mais com sua personalidade do que com seu corpo torneado - apesar de recém amadurecido - fosse deixado para trás sem satisfações? Fugindo, ao menos viveria para voltar um dia.
Pelos quatro cantos da cidade mercenários rondavam à sua procura. Amigos pareciam nem conhecê-la, pois se fossem vistos falando com ela, certamente seriam interrogados depois. Em cada esquina ou beco os olhos dos Observadores Famintos não perdiam um detalhe, e Aliandra estava marcada por eles. Tinha data e hora para morrer.
Viscerai não é exatamente um poço de maldade com rios de sangue em meio a um clima caótico. Na verdade, se você pagar as taxas impostas pelas organizações criminosas locais, consegue ter uma vida tranquila e até mesmo um comércio. Os empregadores pagam bem, desde que você aceite qualquer tipo de serviço, e até mesmo trabalhando no templo local os sacerdotes têm serviços sujos para serem realizados, acompanhando também bom pagamento. Ou seja, pagam-se algumas taxas, ganha-se bem e as coisas acabam se compensando. Todos se acostumam com o modo de vida e fica tudo por isso mesmo, desde que você não se incomode por encontrar um cadáver no caminho de casa. Mas não se preocupe, pois isso é culpa de alguém que não fez o próprio trabalho, e pode ficar sossegado que esse alguém dificilmente vai errar denovo. O clima pode-se até dizer que é ordeiro - o poço de maldade é bem fundo e não exala muito cheiro, e os rios de sangue correm sob a terra, e não acima.
Os Observadores Famintos são um tipo de culto, uma organização mesclada à própria ideologia da cidade. Eles exigem somente algumas pequenas taxas para manterem a cidade segura, mas nem sempre cobram de todos. O que eles fazem realmente questão é que, se alguém perder a vida na cidade ou nas redondezas, que o corpo seja entregue a eles. Apesar de ser uma exigência estranha, não há cemitérios em Viscerai.
Aliandra perdeu o pai, que sucumbiu à doença amarela, um mal que surge esporadicamente exclusivamente em Viscerai. Uma carroça passava pedindo o morto - como sempre, os Observadores não falhavam em perceber a morte. Ela rezou para que o eficiente serviço funerário não estivesse vindo para buscar seu pai - e se algum vizinho tivesse morrido? - mas no fundo ela sabia que iriam levá-lo.
Assim como outros antes dela, pensamentos cruzaram sua mente. "Eu poderia ressuscitá-lo, posso juntar algum dinheiro realizando missões e procurar algum clérigo poderoso". E foi então que ela decidiu esconder o corpo e fugir. Mas não foi uma decisão baseada exclusivamente na perda prematura de um ente querido. Ela era uma liundari (ou elfa) e tinha ainda muito o que aprender com seu pai. Seu desenvolvimento físico estava sufucientemente avançado para que pudesse se virar sozinha, mas havia ainda muito o que aprender com seu pai - os liundari vivem muitos anos e têm longa dependência psicológica com a família. E havia ainda o conhecimento secreto, algo que ela nunca teve a oportunidade de descobrir nem do que se tratava. Era o "segredo", não podia haver pressa em saber, ele viria com o tempo. Assim dizia ele, e a perspectiva de nunca descobrir esse segredo de família a assombrava.
Seus pés a levaram finalmente à saída da cidade. Ela se misturou à multidão até ali, passando por trás de carroças e pelo meio do mercado. Era arriscado, mas pior seria seguir onde pudesse ser vista de longe. Agora, se desse mais uns dez passos à frente, em direção à estrada, seria vista com certeza. Não havia tempo para pensar - cada segundo era precioso. Cerca de meio quilômetro adiante ficava a ponte sobre o rio Tavajun. Atravessando-a, chegaria logo à Floresta Vastalir, onde poderia se esconder e seguir viagem pelas sombras das árvores.
Tomando fôlego, caminhou adiante. Aquele final de tarde transformava sua sombra em uma enorme seta apontando para ela, praticamente gritando o aviso de que a fugitiva estava se distanciando. Como que de propósito, não havia nenhum movimento por ali, nem mesmo mercadores indo ou vindo. As construções e muros de pedra iam ficando para trás, tingidos do vermelho crepuscular. Pontiagudas torres com centenas de gárgulas ao longe pareciam observá-la, deixando-a mais preocupada do que as torres de guarda mais próximas. Mas por que essa sensação? Cada vez que olhava para trás sentia-se ameaçada por aquelas torres altas, e não conseguia deixar de olhar naquela direção, mesmo sabendo tratar-se de uma atitude suspeita - quem senão um fugitivo ficaria olhando para trás?
Então ela percebeu. O desconforto, uma mistura de frio na espinha com precognição - seu sexto sentido apitando - acusava aqueles gárgulas secretamente. Suas sobrancelhas inconscientemente desenhavam em seu rosto uma expressão de pavor, pois eles estavam vindo. A princípio dois, mas poucos segundos depois notou que mais uns quatro já vinham avançando pelos flancos, longe ainda. As silhuetas negras no céu vermelho vinham em linha reta, e pouco a pouco os detalhes dos corpos pétreos revelavam-se: garras afiadas nas mãos e pés bestiais, asas coriáceas, feições brutais, dentes saltando dos lábios inferiores e olhos brilhantes de loucura. Os braços e pernas debatiam-se durante o vôo desnecessariamente, como se estivessem ansiosos.
A perspectiva de fuga logo foi deixada de lado diante dessa visão. Seria melhor deixá-los levarem-na aos Observadores do que tentar lutar, mas quase imediatamente o pavor retornou: e se tivessem sido mandados para matá-la? Alguém já podia ter achado o corpo escondido de seu pai, e então ela não teria mais utilidade. Sua carcaça deformada seria exposta como aviso após o ataque dos gárgulas. Nesse momento a cena tomou outra forma em sua mente - via os monstros voadores aproximando-se no ritmo das batidas do coração; a audição a enganava, tornando-se grave e cheia de ecos; o vento adquirira cheiro de sangue; sua visão tornara-se estranhamente clara e aguçada, procurando qualquer coisa que pudesse servir de abrigo. De fato, a visão funcionava melhor do que seus reflexos, e ela caiu. Projetos de lágrimas começavam a se formar enquanto o chão movia-se sob seus pés. Seus músculos, definidos e treinados nas artes da batalha, enrigeceram-se. Lembrou-se de seu instrutor, seu próprio pai, que lhe dera tantas dicas de como lidar com situações como esta.
Levantando-se como pôde, começou a correr mais rápido do que nunca correra, o ar à sua volta transformando-se em um forte vento nos braços, pernas e testa. Já não olhava para trás, seu sexto sentido sabia exatamente a distância entre ela e os perseguidores. A liberdade, ou melhor, o resto de sua vida, estava ao alcance de suas pernas se ela conseguisse correr mais rápido. O vento tornou-se mais forte e seus pensamentos materializaram-se em um grito de agonia, um grito pela sua vida. Mais rápido! Era preciso correr mais ainda!
Sua visão detectou o rio Tavajun à frente, mas em vez de dirigir-se para a larga ponte que o atravessava, desviou-se para a direita, pois iria pular. Não tinha importância o fato de aquilo ser na verdade um abismo - o nível do rio estava quase uma centena de metros abaixo. E ela pulou.
A queda seria longa, e para sua surpresa as paredes do abismo eram bem irregulares. Logo seu corpo atingiu uma imensa rocha, e o impacto a desestabilizou momentaneamente. Somente mais tarde descobriria que quebrou o braço esquerdo e uma costela. A ventania causada pelo rápido movimento descendente a obrigava a manter os olhos semicerrados enquanto o rio parecia crescer diante de seus olhos. E havia muitas rochas lá embaixo.
Os gárgulas não apareceram, provavelmente porque esse salto seria mais mortal do que golpes de garras afiadas. Mas... o que era aquela forma descendo também, em plena queda? Não deveria ela ser a única suicida do dia? Mas não era nada disso - um dos perseguidores não se daria por satisfeito se não a matasse pessoalmente. Talvez quisesse sua cabeça, afinal, deveria haver algo para expor como aviso na cidade.
As garras dos pés pegaram seus ombros e a dor foi lacerante, um grito de dor substituiu o onipresente som da água batendo nas rochas abaixo. As asas do monstro começaram a bater vigorosamente para suportar o peso dos dois, mas a velocidade da queda era tanta que ambos continuavam a perder altitude. Enfim, a cerca de três metros do rio, Aliandra tinha o que precisava. Subiu as pernas, prendendo a cabeça da criatura entre os joelhos. As mãos livres agora trabalhavam para libertar os ombros daquelas garras. Ela estava de ponta cabeça, caso o leitor esteja com problemas para visualizar a cena. Ela finalmente se libertou do agarrão, mas não sem antes perder uns cem gramas de carne quando as garras fecharam-se uma última vez, tentando inutilmente agarrá-la denovo, dessa vez pelas costas. Mesmo assim ela agradeceu pela sorte, pois a queda foi bem menor e ela fugiu da morte.