O silêncio malcheiroso do subúrbio cobria de melancolia a plataforma da estação de trem. Do horizonte a luz do sol chegava branquíssima após passar pelo nevoeiro úmido, perdendo quase todo o calor apesar de sua intensidade.
O vagão felizmente permanecia relativamente vazio durante todo o meu percurso, pois tratava-se do trecho menos movimentado, antes da capital. Um elfo permanecia de pé apesar de quase todos os lugares se encontrarem vagos, olhando a paisagem tremulante através do vidro da porta automática enquanto um kobold magricela vendia balas, isqueiros e livretos de palavras cruzadas.
No fim do vagão três jovens anões em suas armaduras metálicas conversavam baixo em sua língua. Provavelmente se alistariam em algum exército cujos postos de recrutamento aglutinavam-se em todas as capitais. O do meio, de barba e cabelos ruivos e olhos azuis, com certeza veio de suas planícies geladas em busca de algum dinheiro para a família. Seu elmo de chifres não tinha nenhum sinal de desgaste e acabaria morto como tantos outros em seu primeiro ou segundo combate. Os deuses, no entanto, pareciam preocupar-se somente com suas guerras entre eles, pouco importando quem tombasse em seus nomes. O recrutamento, aliás, seguia a todo vapor e começava a chegar ao subúrbio novamente. Por isso comecei a rezar para que nenhum clérigo me abordasse no caminho do serviço. Não rezei para deus nenhum, é claro, pois além de existirem mais do que posso contar e nenhum em que confiar, pedia em minhas preces para que nenhum deles me enchesse o saco com seus assuntos.
Eu chegava no serviço antes do fim da Madeira Diurna, levando menos de meio período para completar o caminho todo, incluindo a parte da caminhada.
A estação onde eu descia estava pacata como sempre. Os goblins davam bons seguranças ferroviários pois preocupavam-se mais com as bundas das moças do que com o tamanho da minha mochila. E naquele dia tudo de que não precisava era alguém mexendo na minha mochila.
A rua estava apinhada de carros, cavalos, ubatayen e sauros. Os desafortunados que escolhiam seus transportes particulares para irem trabalhar tinham que enfrentar congestionamento todos os dias. Azar o deles e sorte minha.
Um banco de praça depredado era como uma visão pós-apocalíptica. A multidão passava como um rebanho em direção ao abate e as expressões resignadas demonstravam a reação diante de mais um início de semana.
Um ogro aguardava sentado, na calçada, a chegada do mestre-de-obras para abrir o cadeado da construção. Essas criaturas têm a incrível capacidade de esperar por muito tempo sem conversar com os companheiros de espera, o que admiro muito já que prefiria escolher os barulhos a ouvir do que ficar escutando tagarelices dos outros na rua. Claro que isso é por causa da baixíssima inteligência de que dispõem, mas isso não tira o mérito deles.
Mais adiante pelo caminho, uma jovem anã debruçava-se sobre o estojo de maquiagem vermelho. A mão esquerda segurava e a mão direita ia e voltava com o aplicador, esbranquiçando aqui e avermelhando ali, deixando-a atraente aos vindouros clientes. Mas enquanto o chefe não chegava para abrir a loja ela fazia do degrau seu salão de beleza particular.
Finalmente o frio da rua foi trocado pela calidez do estúdio Ramaz, um humilde porém ambicioso antro de talentos emergentes na arte da pintura. Lá estava meu chefe Romafro Ramaz, um homem que há muito passara por seu auge na carreira, e que então aproveitava-se de seu ido prestígio para manter contatos com empresas de publicidade. Ele estava cercado por meus colegas que disputavam sua atenção, sua densa barba como uma muralha natural que ele alisava em postura de proteção.
Estavam todos ali: Noef e seus olhos chorosos, sempre criando imagens para comerciais de perfumes e xampus femininos; Nelena com seu jeito estourado; Romerto e seus dentes amarelos de nicotina, incrível como sempre tinha alguém fumando em seus desenhos; e, claro, os estagiários.
Aproveitando-se de minha chegada, livrou-se de todos com um brusco passo na direção da porta por onde eu chegava. Ele sempre gostou de mim porque eu sempre evitei conversa fiada com ele, e como recompensa conquistei minha própria sala de criação no terceiro andar, com vista para a rua. Para relaxar, nada melhor do que ver aquelas pessoas, carros e animais indo e vindo naquela dança caótica, protegido pela altura e pela camada de vidro da larga janela. Eu chamava aquilo de "aquário".
- Olá, Dalen! O que me diz sobre o cartaz para a Barkastra? - ele perguntou. E ele sabia que não estava pronta, só usava o assunto como desculpa para afastar os abutres. Seus pequenos olhos castanhos, no entanto, pediam socorro.
- Se quiser dar uma olhada... - respondi, ciente de sua necessidade.
Entramos então em minha sala e despejei a mochila sobre a mesinha de canto, onde permaneciam também alguns livros emprestados e ainda não lidos sobre arte clássica. Pensei a respeito de todo aquele alvoroço no hall de entrada com um certo mal-pressentimento.
- Fique o tempo que quiser, chefe, mas o senhor sabe que não trabalho com gente vendo - avisei, esperando que ele saísse dali logo. E com um aceno sem graça ele se retirou com uma expressão meio estranha, desolada. Mas antes de colocar o corpo todo para fora da minha sala, o senhor Ramaz voltou atrás com um passo indeciso. Suas sobrancelhas grossas ligavam-se à barba e ao bigode, aquele volume todo contrastando com a calvície disfarçada com a velha boina.
- Nós vamos fechar, sabe? - confessou finalmente, seguindo com um suspiro. E então a movimentação em volta dele começava a fazer sentido, mas eu sinceramente preferia que a coisa toda tivesse ficado sem sentido mesmo.
Fiquei sem palavras e o silêncio começava a se tornar realmente desagradável, mas eu não podia evitar. Pensava em Illiana, minha namorada grávida, que era uma linda elfa com uma família terrível. Pensava no meu futuro próximo - minha chegada em casa, mais especificamente. Não saberia como contar as novidades nas atuais circunstâncias. Elfas não engravidam com facilidade, mas merda acontece...
- Dalen - disse o senhor Ramaz, cortando minhas divagações - Tenho uma proposta para você, mas é só para você e os outros não podem saber.
Ergui os olhos. Minha mente entrou em um turbilhão de especulações. Incrível minha propensão para divagar através de um milhão de possibilidades antes de me dar o trabalho de simplesmente perguntar. Mas meu chefe me conhecia muito bem e foi direto ao assunto antes que eu pedisse para prosseguir.
- Vamos ter uma reunião esta noite, aqui no prédio, com um editor de uma revista - falou baixando a voz cada vez mais, aproximando-se a cada palavra, sendo que a última frase foi quase uma brisa silenciosa - Você deve conhecer a Laviena.
Claro que eu conhecia. Uma publicação escandalosa que todo mundo lia em segredo. Tinha histórias em quadrinhos mostrando orgias protagonizadas pelos deuses e incitações explícitas contra as guerras sem fim. Tinha editores anônimos e era impressa em gráficas clandestinas. Pessoas envolvidas em crimes morais contra os deuses. Difamadores em escala divina que, no entanto, tinham uma multidão velada de fâs.
Eu mesmo tinha vários exemplares da última edição na mochila, os quais distribuía como bico para um grupo de conhecidos. Uma forma perigosa de fazer dinheiro extra, mas pelo menos eu sempre podia ler os quadrinhos antes de todo mundo. - Chefe, o que quer que seja, estou dentro.
Apresentei aqui algo que venho cozinhando há muito tempo na cabeça. É Aldetoron, mas não no 7º ciclo. Este é o 2º ciclo, lar de incontáveis deuses que acotovelam-se por atenção. Em Aldetoron o ano é 1316.
Quando Aldetor aprendeu a "sonhar acordado", no início do 2º ciclo (pelo ano 200 do sonho), viu que um universo gigantesco (ou vabba) desenrolava-se a seu redor e, quando sua bolha espacial (ou lampa) chegou na Terra no ano 515 do mesmo ciclo (ano 1127 na terra), uma torrente de influências causadas pelas novas paisagens e pessoas inundou seu subconsciente, causando grandes mudanças no sonho. Mais de 800 anos se passaram e eles continuaram por aqui até o final do nosso século XX.
Você não leu errado! Aldetor, seu irmão Gavius, sua mãe Maya e seu pai Laefel passaram mais de 800 anos na Terra no período em que Aldetor estava em seu segundo sonho.
[Leia a parte 2]
O vagão felizmente permanecia relativamente vazio durante todo o meu percurso, pois tratava-se do trecho menos movimentado, antes da capital. Um elfo permanecia de pé apesar de quase todos os lugares se encontrarem vagos, olhando a paisagem tremulante através do vidro da porta automática enquanto um kobold magricela vendia balas, isqueiros e livretos de palavras cruzadas.
No fim do vagão três jovens anões em suas armaduras metálicas conversavam baixo em sua língua. Provavelmente se alistariam em algum exército cujos postos de recrutamento aglutinavam-se em todas as capitais. O do meio, de barba e cabelos ruivos e olhos azuis, com certeza veio de suas planícies geladas em busca de algum dinheiro para a família. Seu elmo de chifres não tinha nenhum sinal de desgaste e acabaria morto como tantos outros em seu primeiro ou segundo combate. Os deuses, no entanto, pareciam preocupar-se somente com suas guerras entre eles, pouco importando quem tombasse em seus nomes. O recrutamento, aliás, seguia a todo vapor e começava a chegar ao subúrbio novamente. Por isso comecei a rezar para que nenhum clérigo me abordasse no caminho do serviço. Não rezei para deus nenhum, é claro, pois além de existirem mais do que posso contar e nenhum em que confiar, pedia em minhas preces para que nenhum deles me enchesse o saco com seus assuntos.
Eu chegava no serviço antes do fim da Madeira Diurna, levando menos de meio período para completar o caminho todo, incluindo a parte da caminhada.
A estação onde eu descia estava pacata como sempre. Os goblins davam bons seguranças ferroviários pois preocupavam-se mais com as bundas das moças do que com o tamanho da minha mochila. E naquele dia tudo de que não precisava era alguém mexendo na minha mochila.
A rua estava apinhada de carros, cavalos, ubatayen e sauros. Os desafortunados que escolhiam seus transportes particulares para irem trabalhar tinham que enfrentar congestionamento todos os dias. Azar o deles e sorte minha.
Um banco de praça depredado era como uma visão pós-apocalíptica. A multidão passava como um rebanho em direção ao abate e as expressões resignadas demonstravam a reação diante de mais um início de semana.
Um ogro aguardava sentado, na calçada, a chegada do mestre-de-obras para abrir o cadeado da construção. Essas criaturas têm a incrível capacidade de esperar por muito tempo sem conversar com os companheiros de espera, o que admiro muito já que prefiria escolher os barulhos a ouvir do que ficar escutando tagarelices dos outros na rua. Claro que isso é por causa da baixíssima inteligência de que dispõem, mas isso não tira o mérito deles.
Mais adiante pelo caminho, uma jovem anã debruçava-se sobre o estojo de maquiagem vermelho. A mão esquerda segurava e a mão direita ia e voltava com o aplicador, esbranquiçando aqui e avermelhando ali, deixando-a atraente aos vindouros clientes. Mas enquanto o chefe não chegava para abrir a loja ela fazia do degrau seu salão de beleza particular.
Finalmente o frio da rua foi trocado pela calidez do estúdio Ramaz, um humilde porém ambicioso antro de talentos emergentes na arte da pintura. Lá estava meu chefe Romafro Ramaz, um homem que há muito passara por seu auge na carreira, e que então aproveitava-se de seu ido prestígio para manter contatos com empresas de publicidade. Ele estava cercado por meus colegas que disputavam sua atenção, sua densa barba como uma muralha natural que ele alisava em postura de proteção.
Estavam todos ali: Noef e seus olhos chorosos, sempre criando imagens para comerciais de perfumes e xampus femininos; Nelena com seu jeito estourado; Romerto e seus dentes amarelos de nicotina, incrível como sempre tinha alguém fumando em seus desenhos; e, claro, os estagiários.
Aproveitando-se de minha chegada, livrou-se de todos com um brusco passo na direção da porta por onde eu chegava. Ele sempre gostou de mim porque eu sempre evitei conversa fiada com ele, e como recompensa conquistei minha própria sala de criação no terceiro andar, com vista para a rua. Para relaxar, nada melhor do que ver aquelas pessoas, carros e animais indo e vindo naquela dança caótica, protegido pela altura e pela camada de vidro da larga janela. Eu chamava aquilo de "aquário".
- Olá, Dalen! O que me diz sobre o cartaz para a Barkastra? - ele perguntou. E ele sabia que não estava pronta, só usava o assunto como desculpa para afastar os abutres. Seus pequenos olhos castanhos, no entanto, pediam socorro.
- Se quiser dar uma olhada... - respondi, ciente de sua necessidade.
Entramos então em minha sala e despejei a mochila sobre a mesinha de canto, onde permaneciam também alguns livros emprestados e ainda não lidos sobre arte clássica. Pensei a respeito de todo aquele alvoroço no hall de entrada com um certo mal-pressentimento.
- Fique o tempo que quiser, chefe, mas o senhor sabe que não trabalho com gente vendo - avisei, esperando que ele saísse dali logo. E com um aceno sem graça ele se retirou com uma expressão meio estranha, desolada. Mas antes de colocar o corpo todo para fora da minha sala, o senhor Ramaz voltou atrás com um passo indeciso. Suas sobrancelhas grossas ligavam-se à barba e ao bigode, aquele volume todo contrastando com a calvície disfarçada com a velha boina.
- Nós vamos fechar, sabe? - confessou finalmente, seguindo com um suspiro. E então a movimentação em volta dele começava a fazer sentido, mas eu sinceramente preferia que a coisa toda tivesse ficado sem sentido mesmo.
Fiquei sem palavras e o silêncio começava a se tornar realmente desagradável, mas eu não podia evitar. Pensava em Illiana, minha namorada grávida, que era uma linda elfa com uma família terrível. Pensava no meu futuro próximo - minha chegada em casa, mais especificamente. Não saberia como contar as novidades nas atuais circunstâncias. Elfas não engravidam com facilidade, mas merda acontece...
- Dalen - disse o senhor Ramaz, cortando minhas divagações - Tenho uma proposta para você, mas é só para você e os outros não podem saber.
Ergui os olhos. Minha mente entrou em um turbilhão de especulações. Incrível minha propensão para divagar através de um milhão de possibilidades antes de me dar o trabalho de simplesmente perguntar. Mas meu chefe me conhecia muito bem e foi direto ao assunto antes que eu pedisse para prosseguir.
- Vamos ter uma reunião esta noite, aqui no prédio, com um editor de uma revista - falou baixando a voz cada vez mais, aproximando-se a cada palavra, sendo que a última frase foi quase uma brisa silenciosa - Você deve conhecer a Laviena.
Claro que eu conhecia. Uma publicação escandalosa que todo mundo lia em segredo. Tinha histórias em quadrinhos mostrando orgias protagonizadas pelos deuses e incitações explícitas contra as guerras sem fim. Tinha editores anônimos e era impressa em gráficas clandestinas. Pessoas envolvidas em crimes morais contra os deuses. Difamadores em escala divina que, no entanto, tinham uma multidão velada de fâs.
Eu mesmo tinha vários exemplares da última edição na mochila, os quais distribuía como bico para um grupo de conhecidos. Uma forma perigosa de fazer dinheiro extra, mas pelo menos eu sempre podia ler os quadrinhos antes de todo mundo. - Chefe, o que quer que seja, estou dentro.
Apresentei aqui algo que venho cozinhando há muito tempo na cabeça. É Aldetoron, mas não no 7º ciclo. Este é o 2º ciclo, lar de incontáveis deuses que acotovelam-se por atenção. Em Aldetoron o ano é 1316.
Quando Aldetor aprendeu a "sonhar acordado", no início do 2º ciclo (pelo ano 200 do sonho), viu que um universo gigantesco (ou vabba) desenrolava-se a seu redor e, quando sua bolha espacial (ou lampa) chegou na Terra no ano 515 do mesmo ciclo (ano 1127 na terra), uma torrente de influências causadas pelas novas paisagens e pessoas inundou seu subconsciente, causando grandes mudanças no sonho. Mais de 800 anos se passaram e eles continuaram por aqui até o final do nosso século XX.
Você não leu errado! Aldetor, seu irmão Gavius, sua mãe Maya e seu pai Laefel passaram mais de 800 anos na Terra no período em que Aldetor estava em seu segundo sonho.
[Leia a parte 2]



2 comentários:
Puta Merda! Excelente! Deu muuuito o clima do 2º ciclo, sem contar que percebi algumas cenas do seu próprio cotidiano... hihihi
É inevitável dizer que seu estilo lembra bastante Stephen King, mas por que será? hehehehhe
Muito bom, aguardo ansiosa a continuação ;O)
Que bom que gostou!
Pra deixar as coisas realistas, nada melhor do que usar o cotidiano ^^
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