quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Volkan

- O senhor é um clérigo? - inquiriu Bornold Punhos-Cerrados, o estalajadeiro, quase alheio ao indivíduo que se apresentava à recepção do pobre estabelecimento.
- Não mais - respondeu Volkan. O homem alto, coberto pelo pesado manto que um dia foi branco não se mostrou incomodado com a pergunta, mas mesmo assim sua resposta foi ríspida. Os dois trocaram olhares e, por um instante, o velho Bornold achou que fosse morrer se continuasse a fitar a estranha figura.
- São três peças de prata, mas perguntei pois se o senhor fosse um dos clérigos de Egzarot que estão de passagem pela cidade deveria informá-lo que a igreja já deixou pago.
- Não sou um clérigo de Egzarot e muito menos quero passar a noite na sua estalagem imunda. Só preciso saber se um anão chamado Ghomba está aqui.

Por um instante Bornold se sentiu paralisado e não conseguiu controlar a tremedeira que começou a tomar conta de seu maxilar.
- Não está - respondeu o estalajadeiro, mentindo, pois Ghomba havia pago uma peça de ouro para que ninguém o incomodasse. Aparentemente o anão estava com uma forte ressaca. Algo muito raro para um anão, aliás... Mas Bornold não ligou mais para essa peculiaridade assim que recebeu a moeda de ouro. Na verdade o velho Bornold Punhos-Cerrados não esperava que alguém fosse realmente aparecer por ali procurando o anão.

A mentira literalmente cheirava mal para Volkan, o ex-clérigo de Malivya. Ele achava que tinha alguma coisa a ver com glândulas sudoríparas ou flatulência, pois o cheiro desagradável invariavelmente pairava no ar e atingia suas narinas quando percebia alguém mentindo. As pupilas também denunciavam o estalajadeiro ao tentarem se esconder do perigo, diminuindo a ponto de tornarem-se pequenas ilhas no mar de lágrimas que começavam a se formar nos olhos do velho Punhos-Cerrados.
- Não tente me enrolar, velho. Qual quarto? - a paciência de Volkan não estava abalada, e continuaria intacta desde que não tivesse que continuar insistindo na conversa.

Os olhos úmidos começaram a se virar para o lado lentamente, tentando contato visual com alguém. O suor escorria livremente desde os ralos fios de cabelo que insistiam em resistir presos ao couro, e algumas gotas já haviam pingado no balcão. O ex-clérigo notou a figura que vinha se aproximando pelas suas costas, provavelmente o segurança do lugar, e imediatamente começou a tomar as providências. Começou a arregaçar as mangas do manto sujo, revelando braços maciços, porém pulsantes. Mais nenhuma palavra foi pronunciada.

O braço girou em uma curva vertical enquanto Volkan dava um pequeno salto no lugar para dar maior impacto no golpe. O meio-orc foi pego totalmente desprevenido, pois esperava que o soco viesse de lado e sua defesa, apesar de rápida, foi inútil. O golpe atingiu o topo da cabeça, e o amontoado de tranças não amorteceu em nada o impacto fulminante. Sem direção, o meio-orc limitou-se a colocar os braços na frente do corpo, formando uma barreira de músculos enquanto se recuperava do choque. Mas o forasteiro não se importou com a barreira física e com alguns murmúrios e gestos rápidos conjurou uma magia de ataque, sendo necessário somente um leve contato com a pele grossa do adversário para que fosse descarregada, drenando completamente a força vital do brutamontes.

O silêncio ainda pairava enquanto as outras pessoas presentes no pequeno hall de entrada da estalagem, sem nem mesmo terem se dado conta do início da briga, viram o segurança caindo como um fantoche com os fios cortados todos de uma vez. Bornold então decidiu não fazer mais perguntas nem ficar no caminho do estranho de manto.
- Quarto 7 - disse ele, resignado.
Volkan tirou cinco peças de prata e entregou ao velho.
- Isso é pela porta que vou quebrar.
Bornold não encontrava palavras para pronunciar.
- Ele vai sobreviver - concluiu Volkan, apontando o meio-orc caído, já caminhando em direção ao corredor que dá acesso aos quartos - Mas o anão não vai.

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