MUTAVAX MARCHAVA. Seu corpo coberto de escamas reluzentes movia-se em pesadas e longas passadas pelo caminho rochoso. Medindo quase dois metros, o que mais chamava a atenção era sua cabeça reptiliana de expressão forte e marcada, com visíveis barbatanas desde a garganta até as sobrancelhas, dando toda a volta pela boca lotada de dentes afiados. Escamas grossas e pontiagudas brotavam desde as sobrancelhas até a nuca, confundindo-se com as formações calcificadas do crânio que formavam pequenos chifres. Os pés descalços eram grandes e com garras: três para frente e uma para trás. Seu queixo parecia adormecido, lembrava-se vagamente de tê-lo machucado. Aliás, mancava um pouco com a perna direita.Sua armadura já havia sido declarada imprestável tempos atrás, e deixada para terminar de apodrecer junto com o corpo do inimigo. Partes como braçadeiras e tornozeleiras permaneciam usáveis, mas já não ofereciam a proteção ideal. O que restava do escudo pendia desajeitadamente nas costas, mas a espada continuava inteira e seguia na bainha acoplada ao escudo.
Estou sozinho novamente - pensava ele ao começar a descer a encosta. As árvores enfileiravam-se desordenadamente lá embaixo e um caminho serpenteante o levaria à via principal. Ele estava ferido e precisava de remédios ou de um clérigo, e a cidade mais próxima estava ainda a meio dia de viagem.
Já sobrevivi a guerras e traições, não vou sucumbir a uma infecçãozinha à toa...
Apesar de o draconato pensar que estava sozinho, ele não estava. Na verdade ele às vezes ignorava a presença de seu companheiro de viagem, o haika Minius Kitur. Tratava-se de um pequeno ser, mas um grande conhecedor das artes mecânicas. Ele seguia atrás, dando o quádruplo de passos do outro, tropeçando eventualmente enquanto lia e escrevia em seu caderninho de anotações. E enquanto o fazia emitia murmúrios contendo cálculos e lembretes mentais, tão baixinho que confundia-se com algum eco perdido ou com o vento. Nessas horas Mutavax acabava se virando para verificar a origem do som, e então lembrava-se que não estava só. Não que ele tivesse algum problema de memória, nenhum permanente, pelo menos. Acontecia que após seu último contrato como guarda-costas ele saíra muito ferido de um combate com um minotauro, inclusive um forte golpe na cabeça lhe arrancara parte do maxilar e prejudicara temporariamente a memória. Qual era o nome daquele meio-boi mesmo...? Para sua sorte, fora salvo por Minius, o artífice.
Minius "consertara" o draconato. Incluíra alguns implantes mecânicos para substituir o braço, a perna e o maxilar perdidos. E em troca de que?, pode-se perguntar. Oras, fora o haika quem contratara Mutavax para pegar aquele minotauro, e as próteses substituíram, além dos membros perdidos, o pagamento pelo serviço! "Um belo pagamento, vale muito mais do que as duzentas moedas por matar o homem-boi", dissera Minius. "Eu pr-r-refer-r-ria ter mor-r-rido", respondera Mutavax, ainda acostumando-se com o novo maxilar. Logo depois, Minius completou - "Vou seguir viagem com você, afinal, essas próteses são experimentais e preciso acompanhar os resultados". Mutavax suspirou e repetiu a resposta anterior, com um pouco menos de dificuldade. E assim tornaram-se companheiros.
- Ei, Vax, toma - disse o haika, extendendo a mão com medicamentos. E então o draconato lembrou-se que já estava sendo tratado, que não precisaria se preocupar (muito) com as consequências de seus ferimentos.
- Não me chame assim - advertiu ele, e pegou os dois frascos de vidro com soluções de misturas de ervas. Eram pequenos para suas mãos. Uma cena engraçada.
- Já tem três dias que você está tomando isso. Tomara que já esteja cicatrizado, deixa eu ver - e então começou a verificar as juntas entre as próteses e a carne. Mutavax nunca reagia bem nessas horas. Sentia-se como um fraco dependente. E ainda por cima de um haika!



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