DOVALOS LANSAG SEMPRE ESCONDEU O QUE SENTIA. Se tivesse dor ou estivesse magoado, sorria.
Em um ensolarado dia inundado pelos odores da primavera, no exato momento que eclodiam os primeiros filhotes da felicíssima mamãe pombo negro, Dovalos Lansag e Onisa Lae-Kis se conheceram. "Não parecem violentos" disse ela balançando negativamente a cabeça, sem saber que ele estava encostado do outro lado da árvore, sorrindo sozinho para fingir que não tinha problemas. E ele, sabendo dos modos dos pombos negros, comentou distraidamente - "Esses pássaros são exímios construtores de ninhos de pedra, verdadeiras obras de arte. Essa aí em cima é uma mãe solteira, provavelmente expulsa do bando. Dá pra ver, pois o ninho é feito de simples gravetos sobre uma árvore comum e os olhos não têm a maldade característica. É um comportamento curioso, como se ela dissesse Vejam, não sou má, estou com filhotes, não me matem". A última parte foi falada com voz fina e debochada, com as mãos abrindo e fechando com dedos juntos, imitando um bico de pássaro.
Ela ouviu atentamente, assentindo, mas não riu da piada com o gesto imitando o bico. A declaração de Dovalos encheu o coração dela de tristeza, pois esses pássaros eram realmente caçados por atacarem pessoas sem motivo aparente. Aliás, toda vila ou cidade designava alguns guardas da milícia quando começavam a aparecer os nefastos ninhos de pedra nos arredores. Porém, essa solitária mãe já não seguia mais a "tradição de seu povo". Teria ela atacado alguém antes de ser expulsa? E por que foi expulsa?
Como se tivesse ouvido os pensamentos dela, ele explicou. "Eles são inteligentes, sabe? Digo inteligentes mesmo, racionais. Se pudessem falar e empunhar armas ou usar magia, poderiam ter o próprio reino. Ela com certeza já atacou alguém, mas deve ter se relacionado com algum pombo negro de casta inferior, e a punição é, geralmente, a morte. Ela teve sorte, com certeza fugiu antes da execução".
Onisa passou a acompanhar a pequena família com silenciosa admiração, sob a invisível supervisão de Dovalos. Não queria chamar atenção de potenciais justiceiros que pudessem descobrissem a "ameaça" sobre a árvore.
Três dias depois a mamãe pombo foi morta por um vigilante que passava a cavalo. Onisa chorou, não achou justo. Mas Dovalos conseguiu salvar um dos filhotes e a presenteou: "Cuide dele para que nunca aprenda os modos de seus semelhantes", disse ele sorrindo. Eles se casaram no verão.
Alguns anos depois o filho deles nasceu. Em um fim de tarde chuvoso, por motivos a serem desvendados, Onisa entregou a criança a Hyumla - aquela que é sábia como a coruja. "Cuide dele para que nunca aprenda os modos de seus semelhantes", disse, olhando pela última vez o recém-nascido Kzarden.
Em um ensolarado dia inundado pelos odores da primavera, no exato momento que eclodiam os primeiros filhotes da felicíssima mamãe pombo negro, Dovalos Lansag e Onisa Lae-Kis se conheceram. "Não parecem violentos" disse ela balançando negativamente a cabeça, sem saber que ele estava encostado do outro lado da árvore, sorrindo sozinho para fingir que não tinha problemas. E ele, sabendo dos modos dos pombos negros, comentou distraidamente - "Esses pássaros são exímios construtores de ninhos de pedra, verdadeiras obras de arte. Essa aí em cima é uma mãe solteira, provavelmente expulsa do bando. Dá pra ver, pois o ninho é feito de simples gravetos sobre uma árvore comum e os olhos não têm a maldade característica. É um comportamento curioso, como se ela dissesse Vejam, não sou má, estou com filhotes, não me matem". A última parte foi falada com voz fina e debochada, com as mãos abrindo e fechando com dedos juntos, imitando um bico de pássaro.
Ela ouviu atentamente, assentindo, mas não riu da piada com o gesto imitando o bico. A declaração de Dovalos encheu o coração dela de tristeza, pois esses pássaros eram realmente caçados por atacarem pessoas sem motivo aparente. Aliás, toda vila ou cidade designava alguns guardas da milícia quando começavam a aparecer os nefastos ninhos de pedra nos arredores. Porém, essa solitária mãe já não seguia mais a "tradição de seu povo". Teria ela atacado alguém antes de ser expulsa? E por que foi expulsa?
Como se tivesse ouvido os pensamentos dela, ele explicou. "Eles são inteligentes, sabe? Digo inteligentes mesmo, racionais. Se pudessem falar e empunhar armas ou usar magia, poderiam ter o próprio reino. Ela com certeza já atacou alguém, mas deve ter se relacionado com algum pombo negro de casta inferior, e a punição é, geralmente, a morte. Ela teve sorte, com certeza fugiu antes da execução".
Onisa passou a acompanhar a pequena família com silenciosa admiração, sob a invisível supervisão de Dovalos. Não queria chamar atenção de potenciais justiceiros que pudessem descobrissem a "ameaça" sobre a árvore.
Três dias depois a mamãe pombo foi morta por um vigilante que passava a cavalo. Onisa chorou, não achou justo. Mas Dovalos conseguiu salvar um dos filhotes e a presenteou: "Cuide dele para que nunca aprenda os modos de seus semelhantes", disse ele sorrindo. Eles se casaram no verão.
Alguns anos depois o filho deles nasceu. Em um fim de tarde chuvoso, por motivos a serem desvendados, Onisa entregou a criança a Hyumla - aquela que é sábia como a coruja. "Cuide dele para que nunca aprenda os modos de seus semelhantes", disse, olhando pela última vez o recém-nascido Kzarden.



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