quinta-feira, 22 de maio de 2008

Livro I - Capítulo 3, parte 1

NEDEMUS NODOMASTILUS TINHA, SEM DÚVIDA, TALENTO PARA A MAGIA. De família rica e bem-sucedida, logo cedo começou a estudar em Turkefer - a antiquíssima escola de magia de Mitras. Mas apesar de jovem, esta é apenas metade do currículo de Nedemus, pois durante os estudos dos segredos arcanos acabou desenvolvendo gosto pelos mistérios divinos. Aldetor, o comandante do panteão, o que sonha o mundo e senhor da magia, naturalmente passou a ser seu patrono escolhido. Mas isso é futuro.

OBS: a imagem ao lado é uma cena do futuro, quando Nedemus viaja com Aliandra.

Logicamente a história do jovem que viria a tornar-se o Teurgista Onírico, também conhecido como o Mago Sonâmbulo, tem muito mais detalhes. Para citar um grande obstáculo que Nedemus enfrentou, basta lembrarmos que ele nasceu em berço de ouro. Além disso, seu irmão mais velho, Inukis, já estava predestinado a cuidar de todos os negócios da família Nodomastilus, restando a Nedemus nada mais do que o pesado fardo de desfrutar das facilidades, bens e influência que a fortuna proporciona. E com toda essa estrutura, o jovem, já com seus sete anos, não via motivos de se submeter ao esforço dos estudos, quanto mais os dificílimos estudos arcanos. Ensiná-lo a ler e escrever foi tarefa quase impossível para os tutores particulares - que só não desistiam pela generosa quantia que recebiam - mas enfiar em sua cabeça a história dos reinos e das raças foi realmente impossível. Ele não queria saber - não via necessidade de saber.

Outro grande obstáculo foi a dificuldade de lidar com outras raças. Sua família era de humanos, assim como a maior parte da vasta rede de contatos e aliados. Somente na pré-adolescência, com a mente e conceitos básicos formados, foi que ele conheceu elfos que não eram tutores, anões que não eram tesoureiros ou mercadores, protântilos que não eram construtores de castelos, minotauros que não eram gladiadores e, para por fim na lista - que não é pequena - humanos que eram escravos. Humanos escravos. Que coisa fora do comum, pensava ele, que coisa medonha. Ele teve medo de dar as caras ao mundo e virar escravo, "um medo muito conveniente" - diziam os pais em sérias conversas.

A gota d'água veio na adolescência, quando declarou aos pais que nunca se casaria. A conversa foi longa, e um tênue mas persistente tom de machismo adornava suas convictas idéias. "A vida é feita de diversas formas de relacionamento com pessoas de ambos os sexos, não quero que minhas possibilidades de aproveitar minha masculinidade sejam diminuídas a uma só mulher. Essa é uma violação à minha independência" - disse ele aos pais. "Minha independência, vocês entendem?". O tom estridente da voz combinado à respiração arrítmica contribuiu para a decisão que o pai vinha adiando por tanto tempo.

- Então desfrute de sua independência! Vejo que essas paredes o confinam e os criados desrespeitam sua privacidade. Minha presença e a de sua mãe o incomodam pois colocamos limites às suas ações e direcionamos seu destino além do admissível. Meu filho, você está sufocando aqui. Portanto, vá embora. Nós o libertamos.

Diante do desabafo do pai e iminente libertação, Nedemus teve ânsia, calafrios e dor de cabeça imediatamente. A visão ficou turva. Mas ele viu o pai começar a mover os lábio novamente e alguns sintomas passaram. Ele iria voltar atrás na decisão. Com certeza iria!

- Se quiser voltar algum dia e fazer parte da família, traga histórias de viagens pelos reinos com lições de vida próprias, que nenhum tutor pode ensinar. Traga também alguns amigos, de preferência nem todos humanos. E traga sua esposa. Essas são suas três condições de regresso.

A ânsia voltou multiplicada, mas ele não tinha forças para vomitar. A dor de cabeça e a visão turva emendaram-se, e os calafrios sumiram pelo fim da espectativa, mas deram lugar às lágrimas. E já dando as costas, Tovarus Nodomastilus proferiu as últimas palavras que Nedemus ouviria dele por muito tempo.

- Escolha algum escravo de confiança e leve-o como guarda-costas. - As últimas palavras foram abafadas pela porta que ia se fechando. Sua mãe desmanchava-se em lágrimas, mas não se atreveu a dar adeus. Os criados, obrigados a manter seus postos mesmo diante do clima pesado que pairava, aguardavam o comando para saírem ou executar alguma tarefa.

- Mãe? - As palavras saíam chorosas, engasgadas. - Mãe? - tentou ele novamente, com a voz ainda mais anasalada, os olhos já cerrados para conter as lágrimas, que entretanto escorriam livremente. - Mãe...? - chamou ele pela terceira vez, os joelhos desabando e as pálpebras já tão apertadas que as bochechas pareciam alcançar as sobrancelhas. Sentiu então o conhecido toque das mãos macias em seu rosto, quando não mais esperava. A voz dela saiu baixinha e somente ele ouviu.

- Volte algum dia, meu filho, e traga histórias, amigos e uma companheira como seu pai pediu. Que os deuses te vigiem. - Ela levantou-se (aparentemente) recomposta e dispensou os criados com um aceno. Respirou fundo e saiu também.

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