
Esta espada enferrujada não vai aguentar, caso precise usá-la além da clareira - pensava Kzarden ao empunhar a espada curta pelo cabo coberto pela tira de couro trançada. O couro já começava a se desfazer logo abaixo da guarda, onde o polegar do antigo dono roçava muito durante os combates, provavelmente por causa do estilo de esgrima bruto adotado. Mas disso não era possível ter certeza, pois a espada fora adquirida justamente do cadáver do viajante, alguns metros atrás da última árvore antes da clareira segura. Que azar... ele chegou tão perto do Riacho Esquecido! O autor do assassinato foi o grande urso-bola tão conhecido de Kzarden e dos lobos. Afinal, como já sabemos, os animais são brincalhões somente dentro da clareira.
A armadura, obtida do mesmo infeliz viajante - apelidado de Humano-Que-Quase-Chegou, ou simplesmente "Huque Quache" - era feita de partes soltas de metal ligadas por fivelas reguláveis, o que permitiu ao jovem ajustá-las ao seu tamanho. Ele não era tão grande quanto Huque, mas a cada ano seu corpo ganhava mais volume e ele achava que chegaria a uma aparência satisfatória em mais dois ou três anos. Não tão satisfatória quanto a de Hoque, cujos bíceps ficavam apertados mesmo na última regulagem da peça de armadura do braço, mas quem sabe um dia?
A coruja Hyumla se aproximou nesse final de madrugada para dar conselhos. Ela não era atroz. Uma coruja atroz seria muito engraçada, pensou ele. Pensando novamente ao vislumbrar os olhos vigilantes do animal, que mais pareciam poços espelhados infinitos de luz dentro de luz, talvez uma coruja atroz fosse assustadora, e não engraçada. Talvez se usassem elmos para tampar os gigantescos olhos, não seriam assustadoras. Mas, pensando bem, se usassem elmos voltariam a ser engraçadas! - Pare de sonhar acordado! - disse ela. - Se ficar devaneando dessa forma lá fora, certamente será morto. Esta é a hora crítica, o momento imediatamente anterior à jornada. Tente manter o controle sobre seus sentidos e não deixe a mente dissolver-se! - A coruja firmou os pés no galho e curvou-se levemente para frente, olhando em volta antes de continuar a falar em um tom mais baixo, quase rouco. - Vejo que já pegou sua mochila e a preencheu com o que precisará. Ande logo antes que o urso acorde! Os olhos do jovem arregalarem-se diante da lembrança dos ferimentos de Huque. O largo peito mal podia ser identificado se não fossem utilizadas as posições de braços e pernas como referência. As costelas apontavam acusadoramente para fora, e a peça de armadura toráxica teve que ser remendada para voltar a ser útil. Até aquele dia Kzarden não teve estômago para enterrá-lo e decidiu esperar até que o mal cheiro saísse, para a festa dos carniceiros de plantão. Ele não pensou a respeito, mas o próprio narrador que vos fala temeu pelo azar que os equipamentos pilhados poderiam trazer! Dizem por aí que aqueles que pilham corpos de viajantes azarados herdam a má sorte...
Uma última olhada na clareira relembrava de forma resumida tudo o que ele viveu nos últimos 22 anos. Os 17 anos finais são os que ele lembra com mais clareza. Resumindo: nadar no riacho; conversar com os animais; conversar com Nomuk pela primeira vez; acordar com os pássaros que cantam em piados fora da clareira e com vozes de tenores dentro da clareira; conhecer o tríbulo brutal que decidiu eclodir da terra justamente na clareira, tornando-se amigável; construir a casa dentro do corpo do ente; rolar com Nomuk na grama e acidentalmente sair da clareira, fazendo-o retornar à natureza selvagem; em seguida, lutar com Nomuk fora da clareira e ganhar uma enorme cicatriz nas costas; ver Nomuk entrando na clareira novamente e pedir desculpas pelo que fez; ver Nomuk sair da clareira novamente e não ser mais hostil com ele; receber viajantes de longe que decidiram morar na clareira - Jort e Bana; descobrir que os humanos são imunes ao efeito calmante da clareira, pois são MIM (Mortais Inteligentes Moldadores); confrontar Jort e Bana com ajuda de Nomuk; sair da clareira e conhecer cidades com Nomuk; não gostar do efeito mental de sair da clareira; retornar; sair mais duas vezes da clareira; começar a mandar Nomuk comerciar na capital. Logicamente muitas outras coisas aconteceram, mas foram essas que vieram à mente naquela hora.
Kzarden saiu da clareira pela quarta e última vez. Não que ele nunca mais vá voltar, mas quando voltar, não será mais o mesmo Kzarden.



2 comentários:
Olá.
Não é a primeira vez que vi seu blog, mas, só agora tive algum tempo para comentar.
Há alguns anos li que um cenário gringo, d20 acho, tinha a proposta de tornar sonhos reais.
Depois de vi alguns filmes e li livros que mencionavam vagamente essa temática. Lovecraft é um deles.
Também pensei em desenvolver um cenário assim, OGL. Mas considerei meus conhecimentos das regras muito básicos e desisti.
Seria um tipo de cenário bem diferente do seu, bem "low power". O que eu acho engraçado, é que um monte de pessoas parece ter idéias semelhantes para um tipo de cenário.
Depois, dou uma lida e comento seus textos. Os desenhos ficaram legais, principalmente do post “Livro I - Capítulo 1, parte 1”, bem condizente com o espírito do cenário. Parabéns, cara!
Você é estudante de Letras?
Até.
Cefer
http://www.rpgmaxcefer.blogspot.com
Olá!
Obrigado pelo feedback, isso é essencial pra manter a motivação.
As inspirações pra criação do cenário estão em um post próprio aqui no blog (http://aldetoron.blogspot.com/2008/04/inspiraes.html)
"Sonho" é um tema bem comum, mas pouco explorado. A mitologia menciona muito, os jogos mencionam muito, mas nunca vi um cenário amplamente baseado em sonhos.
Não sou estudante de letras... Se vc achar algum erro nos textos me avise, por favor!
Aguardo comentários!
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