Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Projeto 99-222 - parte 24

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

O vulto negro pairava estático no ar, a milhares de metros de altura, enquanto o vento implacável continuava com a infrutífera tarefa de castigá-lo. Ele, cuja identidade permanece incógnita até então, se ocupa com um complexo ritual realizado puramente através da mente, ficando o corpo completamente parado.
    Ali perto, Indretor aguardava em uma nuvem sólida decorada com belos móveis de madeira-ente Sarvilaeniana e tapeçarias finas adquiridas em Turgar. Os cabelos grisalhos que escapavam pelo elmo de chifres eram a única evidência de que havia alguém dentro da armadura negra. Pensamentos cruzavam sua mente como uma frota em meio à tempestade de incertezas.
    - Meu pai... - disse ele com uma voz grave e metalizada pelo elmo maciço. Ninguém o ouvia. - Por que precisamos fazer isso?
    Ele olhou para as mãos, cujas manoplas continham, em sua estrutura, os fragmentos de sua espada de Cavaleiro da Morte destruída tempos atrás, e as fechou com força enquanto dirigia o olhar para o pai. Era possível vê-lo através de uma abertura.
    Levantando-se, o Cavaleiro se dirigiu para a abertura na nuvem para dar uma olhada no andamento do ritual. As grevas castigavam o chão macio.
    Muito acima dali, em meio às luas, algo estava sendo criado. Era impossível ver daquela distância, mas Indretor sabia que uma infinidade de vermes gigantes muito especiais estavam sendo juntados, e em volta deles ia se formando uma crosta de pedra feita de asteróides. A base estrutural era nada menos do que um crânio de protântilo com muitos quilômetros de diâmetro.
    Os vermes eram capazes de armazenar energia, que seria usada para os propósitos da figura mística que flutuava. Propósitos conhecidos por Indretor, mas sobre os quais ele preferia não pensar.

    Logo a estrutura ficaria pronta, tomando forma esférica e um tamanho gigantesco. Se pareceria com uma lua, o que de fato era um disfarce perfeito.

* * *

A camada mais profunda de Doratraks teve o silêncio rasgado por um choro de bebê. Um choro que não correspondia a fome, frio ou desconforto, mas sim a impaciência e sede de vingança. Ele queria sair dali e poder... brincar. Ter amigos e se divertir enquanto trata de reivindicar o mundo-sonho para ele. Sua herança.

- Calma, bebê, calma, filhinho... - dizia Maliah enquanto balançava o berço vazio.
    - Droga, Maliah - reclamou Filag. Chamas irromperam de seus poros e ele se tornou uma fogueira vermelha. - VOCÊ TEM QUE PARAR COM ISSO!
    - Não, Filag! Não...
    O ex-deus segurou o berço com as duas mãos e o ergueu no ar. Os panos e o colchão se soltaram e viraram cinzas num instante, e a seguir a estrutura de madeira teve o mesmo destino. O brilho iluminou os outros ex-deuses, que assistiam à cena sem esboçar reação. Eles pareciam satisfeitos no final.
    Filag se apagou e voltou para sua cadeira, mas o lugar não retornou à escuridão completa imediatamente devido à pequena fogueira que ainda crepitava no chão. O choro de Maliah se misturou ao do bebê, e ela suplicava:
    - Oh, Maya, por que fez isto comigo? Por que tirou meu filho de mim...? Ele está chorando e precisa do meu colo... Ah, Maya...

* * *

Fora do sonho, na câmara ao lado do laboratório do projeto 99-222, onde ficava a bolha espacial com a família de alienígenas, um cientista ouviu o que Maya, mãe de Aldetor, disse:
    - Atikus lye rialos ianar, Maliah; prastaj iar. - Que significa "Aquili não é um filho, Maliah; é uma aberração".
    O cientista não entendeu de imediato, mas foi o estímulo que ele precisava para pesquisar mais a fundo o idioma falado em Aldetoron.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Projeto 99-222 - parte 23

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

O império de Mitras se preparava para o alvorecer, e por isso os Dragoeiros das Sombras cediam seu lugar nos céus para os Dragoeiros da Luz, que se encarregariam da segurança aérea a partir de então. Assim, a cena em questão apresentava um belíssimo céu arroxeado com crescentes ondas vermelhas que iam ganhando mais e mais amarelo à medida que a descomunal serpente Laefel revelava seu Olho Direito, também conhecido como Sol.
    Os Dragoeiros das Sombras se dirigiam à Capital Imperial após uma noite movimentada na região de Kanago, e o caminho de volta revelava todo o esplendor  do império arbóreo de Sarvilae a oeste com seu tom esmeralda. Ao norte a desmedida cordilheira que correspondia ao império de Balodin possuía, dentre suas inúmeras montanhas, alguns montes não tão altos que demarcavam o limite com Mitras. Ali ficava a Capital Imperial, também chamada de Cidade das Corujas.
    Um círculo de picos rochosos na face sul da cordilheira delimitava a entrada principal para a cidade, que só era acessível a quem tivesse algum meio de transporte voador. O caminho era um túnel largo e vertical, por onde trafegavam navios voadores de todos os tipos e montarias aladas diversas, incluindo dragões. Por ali entrava também a luz do dia e, assim, devido ao ângulo restrito, por um determinado período correspondente à Água Diurna, a capital era banhada pela luz de Laefel, passando o restante do tempo iluminada por um complexo sistema de espelhos e pedras capazes de armazenar e irradiar luminosidade.
    Muitos gostavam de classificar a capital de Mitras como uma cidade subterrâea, mas na prática sua posição ficava muitos quilômetros acima do nivel do mar, estando sua estrutura acomodada entre montanhas, e não sob o solo.

    Os dragoeiros que chegavam iam deixando suas montarias na área de pouso, de onde seriam levadas para o Ninho, e se dirigiam para suas casas após horas e horas de voo. E então vinha aquela estranha sensação de sentir os pés no chão após tanto tempo no ar, como se o peso do corpo simplesmente não tivesse estado ali por todo aquele tempo. Sensação essa que se intensificava quando as lustrosas armaduras eram retiradas para serem limpas pelos criados e a seguir entregues aos sacerdotes de Villia no templo piramidal, no centro da cidade, onde seriam abençoadas com preces de proteção.
    Ali, do lado de fora do enorme templo e servindo de acesso a ele, ficava a grande Escadaria das Corujas - um único lance de 49 degraus largos, ladeados por esculturas representando corujas de muitos estilos: corujas antropomórficas, com quatro patas, sem patas, com muitas asas ou muitos olhos, entre outras.
    Ao lado de uma delas, mais especificamente da coruja com dois pares de asas e nenhum olho, Jocasius esperava. Sua expressão era séria e tranquila, mas uma nuvem de impaciência rondava sua mente, perceptível somente através de uma minuciosa análise de seus olhos, que perscrutavam os arredores. Ele se virou para aquela estátua e a estudou.
    - Muita pressa e nenhuma visão. Não é de espantar que você esteja nos degraus mais baixos - disse ele, levantando as sobrancelhas e forçando um sorriso. E então voltou o olhar para a praça abaixo, quase vazia naquela hora. - Certas pessoas, por outro lado, parecem não se importar com velocidade - comentou afinal, referindo-se à demora de seu convidado.

Enquanto considerava a opção de ir embora, o teurgista místico se surpreendeu com a aproximação de um homem alto usando correntes ao invés de roupas. Parecia um manto feito de elos vermelhos e brilhantes, pois somente sua cabeça e suas mãos eram visíveis, de modo que sua aproximação era evidenciada pelo som da malha metálica arrastando no chão de pedra.
    - Desculpe-me pela demora.
    - Olá, Vadris. Ou prefere que o chame de Yoshua?
    - Yoshua não existe em Aldetoron - respondeu Vadris, com uma voz ácida. - Agora me diga como conseguiu acordar, sendo que você e os outros foram devidamente preparados para o projeto.
    - Não é sobre isso que vim falar - rebateu Jocasius. - Preciso que você me ajude com algumas coisas lá fora.
    - Fora de Aldetoron?
    - Sim.
    - Temos um grande problema quanto a isso, pois fui preso - revelou Vadris, mas sem ares de preocupação.
    - Você não parece preocupado - provocou o outro.
    - E com o que me preocuparia? Após o julgamento posso ficar preso pelo resto da vida, mas nada pode me impedir de voltar a este mundo e continuar livre com este avatar que criei.
    E então Jocasius fez uma expressão de "má notícia" que causou preocupação, e disse:
    - Sinto informá-lo que muito em breve Aldetoron passará por um Pesadelo dos grandes.
    O homem das correntes pareceu confuso e deixou transparecer sua ignorância acerca dos Pesadelos.
    - E o que isso tem a ver comigo?
    - Durante os Pesadelos é impossível entrar no mundo-sonho. Além disso, qualquer criatura que não derive da consciência de Aldetor é expulsa. Ou seja, qualquer um que não tenha nascido aqui.
    - O que também inclui você, Jocasius.
    - O que me inclui, é claro. Mas conheço alguém capaz de nos manter aqui, em segurança, mesmo durante um Pesadelo. Ele está disposto a ajudá-lo também, desde que você nos ajude lá fora.
    - Eu já disse que estou preso e sem acesso a nada fora da minha cela - respondeu Vadris, impaciente.
    - Lembre-se que você deu  a caixa para a Devdas. A caixa, lembra?
    Vadris foi tomado por um súbito clarão mental que fez um calafrio percorrer seu corpo onírico.
    - Eu poderia...
    - Sim, poderia, desde que ela permita. Venha, vamos andar um pouco enquanto eu explico o que você precisa fazer.

Então os dois foram caminhar pelo belíssimo pomar do Jardim da Sabedoria, onde Jocasius tratou de contar a Vadris coisas que o leitor ainda não pode saber. Foi uma longa conversa.

[Leia a próxima parte]

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Projeto 99-222 - parte 22

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

Indignados, eles descobriram que o orc já havia desaparecido entre as construções locais. Rham ainda segurava o dinheiro que havia recuperado, mas descobriu que não havia sobrado o suficiente ali para cobrir o prejuízo pela perda da arma sagrada, de modo que pegou o conjunto de adagas que estava guardado perto do caixa. Devdas verificou sua preciosa caixa de maneira, que recebeu de Vadris e ainda não tivera a chance de abrir.
    - Vocês - começou a guerreira, dirigindo-se aos clientes do lugar com um tom grave na voz. - Tratem de trazer aquele orc ladrão de volta ou fazê-lo devolver a espada, já que conhecem essa vila melhor do que nós.
    - E por que faríamos isso? - ousou um jovem hobgoblin que acabara de terminar uma latinha de refrigerante, amassando-a com o pé. Os outros pareciam ter a mesma opinião que ele.
    - Porque talvez essa onda de incêndios da região finalmente chegue até aqui - ameaçou ela, tirando uma tocha do apoio na parede. E com isso ela causou uma onda de vogais indignadas que preencheram o ambiente. Anidro e Rham balançavam a cabeça positivamente, e Dourado estava realmente disposto a recuperar a relíquia roubada.
    Então, após um breve silêncio, um meio-orc carrancudo se levantou da cadeira apontando o machado rústico para o teto:
    - Vamos pegar esses forasteiros!
    A turba seguiu o exemplo e cada um se preparou para o linchamento, e por um breve momento só se ouvia o arrastar das cadeiras. Muitos estavam desarmados e os da frente quase desistiram ao vislumbrarem a corrente cravejada balançando ameaçadoramente, o escudo afiado a postos, a lâmina do clérigo e a estranha espada suja de caramelo nas mãos do ogro.
    Vendo a hesitação da massa, mas doido para entrar em ação, Rham resolveu quebrar o gelo e tomou a tocha de Devdas, atirando-a na estante atrás do balcão para que a mistura com as bebidas alcoólicas causasse belos efeitos especiais. O objeto estilhaçou duas garrafas com o impacto e causou o efeito pretendido, de modo que a investida dos quatro companheiros teve um brilhante fundo amarelado, o que conferiu um aspecto extremamente heróico à cena. Os cientistas, que observavam tudo de suas cadeiras no laboratório do projeto 99-222, vibraram de emoção diante das telas. Era um filme de ação ao vivo e sem censuras.

Rham se deixou possuir pela fúria bárbara e começou a rachar crânios, mas os oponentes se mostraram mais ferozes do que o imaginado. Anidro logo adotou a postura defensiva, conjurando escudos mágicos através de suas preces a Villia enquanto Dourado permitia seu lado dracônico ter um pouco do sangue que precisava para lavar as mesas da taverna com jutiça quente.
    Devdas, por sua vez, subiu no grande lustre de latão com a ajuda de sua corrente. Ela parecia dominada por alguma entidade demoníaca enquanto gargalhava, balançando-se no objeto por puro vandalismo até fazê-lo ceder sobre o salão.
    Não houve chance para os aldeões, que fugiram tanto das lâminas quanto da guerreira maluca que balançava as correntes de um lado para o outro, destruindo o cenário. Uma parte da multidão, no entanto, foi transformada em bolos, tortas e balas pelo bárbaro enfurecido.
    - BASTA! - pediu uma meia-orc de cabelos desgrenhados e camisa rasgada. - Vou procurar o estalajadeiro pra vocês - disse ela, arfante.
    Anidro, Devdas e Dourado se contiveram, mas seria muito difícil parar Rham, que já escalava um morro de corpos para chegar aos próximos oponentes. Seu senso de sobrevivência, no entanto, o preveniu que saísse logo dali pois o fogo se alastrava rapidamente.
    A meia-orc saiu correndo para cumprir sua promessa e todos os outros que estavam dentro da estalagem também saíram como puderam antes que o teto desabasse. O fogo já ia se espalhando pelos galpões adjacentes e com certeza consumiria boa parte do quarteirão antes que a chuva caísse. Ou seja, a raiva estava descontada.
    Algum tempo se passou enquanto eles esperavam pelo retorno da mulher.
    - Olha - disse Anidro, mostrando a barriga do ogro revelada pelos rasgos na roupa. - A flor nasceu de novo!
    - Bonita - avaliou Devdas, com uma calma que contrastava muito com seu comportamento de momentos antes. Ela nem parecia cansada.
    - Hmm - fez Rham, acariciando a flor de pétalas pequenas e um grande miolo cheio de sementes, parecido como um girassol.
    - Não, não arranca! - pediu o menino, vendo que a grande mão ocre havia puxado o caule, partindo-o. Ele a levou para perto do nariz e constatou que o cheiro não era muito bom.
    - Olho de Baglávia - disse o bárbaro olhando para Dourado, confirmando o nome. E logo adiante vinha a aldeã trazendo a Vingadora Sagrada nas mãos, exausta e coberta de suor.
    - Encontrei no chão - disse ela, e sem dizer nada sobre a óbvia mentira, o clérigo guardou a arma sagrada.
    Os habitantes locais observavam o estrago causado em volta enquanto a chuva cuidava de apagar as construções flamejantes, secando-lhes as línguas dançantes de fogo que se contorceram antes de desaparecerem completamente.

Logo o lugar estava mergulhado na escuridão molhada, iluminado de leve pelo brilho das estrelas e das luas.
    - Vamos procurar um lugar pra dormir, longe desse povo - sugeriu Dourado em voz baixa, começando a andar.
    - As luas parecem maiores hoje - concluiu Anidro enquanto mordiscava um pedaço de bolo que antes era um pé direito. - Estão bonitas.
    "Mau sinal", pensou o clérigo, sem verbalizar para não criar alvoroço. Ele sabia que quanto maior a distância entre eles e as luas, mais seguros estariam, mas talvez elas simplesmente voltassem a se afastar nos próximos dias. Era o que ele esperava...
    Antes de irem, Rham jogou sua flor nos escombros da estalagem como uma espécie de assinatura pessoal. E a partir de então passou a deixar um olho de baglávia em cada lugar importante por onde passasse, fato pelo qual passou a ser conhecido como Rham Olho de Baglávia.

[Leia a próxima parte]

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Iniciativa 4e: Adiamento

Felizmente esta sexta-feira não vai ter artigos da Iniciativa 4e!

Sim, é uma boa notícia pelo fato desse vácuo ter sido causado por um projeto muito interessante que estamos desenvolvendo, e por isso nosso tempo de dedicação à Iniciativa foi redirecionado.
Se tudo der certo, muito em breve teremos algo bem legal pros mestres! E digo mais: quem quiser saber do que se trata, é bom ir no RPGCON. O quê? Não comprou seu ingresso ainda??

E aproveitando o espaço, eu gostaria de parabenizar a criação da Iniciativa M&M, que recentemente atraiu vários blogs que se uniram para criar material inédito para o sistema Mutants & Masterminds. Fico satisfeito de ver os resultados do trabalho em equipe se refletirem, e espero que a Iniciativa 4e continue servindo de modelo para o aparecimento de outras equipes!

Pra quem quiser saber mais sobre a IM&M, que tal um Google, ou então um Bing?

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Projeto 99-222 - parte 21

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

A noite rugia sobre as planícies, anunciando uma tempestade. Mas enquanto aquelas terras não vissem alguma gota d'água vinda dos céus, o forte vento serviria apenas para espalhar o fogo que consumia os povoados próximos, enquanto raios azulados criavam o contraste branco-azulado contra o vermelho e o amarelo das campinas incendiadas.
    Ugosh era uma aldeia pacífica dedicada ao comércio e quase não participava das questões políticas entre as tribos de orcs e goblinóides.
    Tratava-se de um lugar importante para todos, já que era ali onde se dava a circulação do dinheiro.
    - Dois quartos, por favor - pediu Dourado ao orc estalajadeiro, que se ocupava com malabarismo utilizando adagas. Um amplo salão com grandes mesas servia de refeitório e também era utilizado como taverna. Havia muitos fregueses, mas a maioria pertencia às aldeias próximas e estavam ali para fugir do fogo, buscando abrigo na neutra Ugosh.
    Desnecessário dizer que não havia som de talheres, pois os orcs, meio-orcs e goblinóides não precisam de tais aparatos tecnológicos.
    Subitamente Anidro se deu conta de que ele e sua irmã eram os únicos humanos ali.
    - Uma peça de ouro por quarto - disse o orc, finalmente guardando as adagas e olhando o meio dragão nos olhos.
    - Tudo isso? - reclamou Rham.
    - Só quero descansar... Toma aqui a minha parte - cedeu a guerreira, puxando a moeda da mochila. - Vem, Anidro.
    Pensando duas vezes, Dourado colocou mais uma moeda sobre o balcão de madeira sob os olhares curiosos dos demais clientes.
    - Vamos, Rham.

    A escadaria rangia sob os pés do clérigo, mas o peso do ogro fazia os degraus estalarem perigosamente. A seguir um corredor estreito demais para Rham os levou até o quarto, cuja entrada feita para humanóides medianos representou um desafio quase insuperável.
    Antes de conseguirem sequer avaliar as condições do quarto, os dois tiveram a atenção roubada pelo grito de desgosto de Devdas:
    - Mas não tem nem cama aqui! São amontoados de feno com lençóis sujos em cima!
    - Pelo menos o quarto de vocês tem porta - invejou Rham.
    - Não vale uma peça de ouro - concluiu Anidro.
    - Bem, é o padrão de qualidade que se espera de uma estalagem para orcs - relevou Dourado. - Mas uma peça de ouro não deve ser o preço usual - admitiu, balançando a cabeça e apoiando as mãos na cintura.
    - Mana, o que você acha de...
    Mas ela não estava mais ali, de modo que os três desceram às pressas.

- ... e por isso não posso devolver - ouviram eles, vencendo os últimos degraus e chegando novamente ao salão. Agora havia mais meio-orcs ocupando as mesas. A maioria estava coberta de fuligem e alguns apresentavam queimaduras.
    - Não vai devolver o dinheiro? - quis saber o ogro, encarando ameaçadoramente o estalajadeiro.
    - Veja bem, amigo, me deixa explicar de novo...
    - Vai devolver ou não vai? - cortou.
    - Não.
    Devdas fez um "O" com a boca e ergueu as sobrancelhas. Dourado, vendo no que aquilo poderia dar, tentou uma última vez:
    - Escuta, senhor...
    - Bakar.
    - Certo. Escuta, senhor Bakar, estamos viajando há alguns dias e meus amigos não estão dispostos a discutir seus motivos. Não há nada que o impeça de devolver o dinheiro.
    - Não vou devolver. Esta é uma boa estalagem, por isso podem subir que...
    Naquele momento Rham esticou o braço e meteu a mão atrás do balcão, buscando o dinheiro.

As noites insones ao relento pela qual os aventureiros passaram desde que saíram de Gwarer se misturaram à teimosia do orc e a recuperação das duas moedas não foi o suficiente, o que resultou em uma explosão de emoções que se iniciou com um simples silêncio de aparente satisfação por parte dos quatro. Eles trocaram olhares cansados, porém inflamados pela necessidade de fazer a simples justiça à qual todos os seres vivos têm direito. Mas antes de conseguirem iniciar um sermão sobre os malefícios da extorsão, o estalajadeiro pulou sobre o tampo de madeira e atravessou o grupo trombando com o clérigo, chegando a seguir à rua.
    - Mas o que... Ele pegou a espada, a Vingadora Sagrada! - bradou Dourado.

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Projeto 99-222 - parte 20

 [Leia a parte anterior] [Leia do começo]

- ... e foi assim que a fiz implorar que eu terminasse de uma vez - concluiu Rham, explicando a experiência íntima que teve com a amazona halterofilista.
- Não queremos saber do que fez com ela, Rham - explicou Devdas, pacientemente. - Eu perguntei a respeito da flor que você disse que nasce no seu umbigo. E sinceramente achei desnecessária a descrição da posição "balanço dos ovos tortos", bem como a imitação dos gemidos dela.
- Eu dei a flor pra ela - contou, com as faces rubras.
- Você arrancou? - questionou Anidro. - Eu queria ver!
- Vai nascer de novo, e rápido - explicou Dourado, finalmente intervindo. - Mas vamos logo nos preparar; partiremos para o sul hoje mesmo em direção ao porto de Nagovir, de onde pegaremos um barco para a Ilha Sauria.
- Que pena não termos encontrado o Jocasius... Vou sentir falta dele - confessou o pequeno paladino.
- Ele não deixou pistas - explicou-se Dourado. - Procurei novamente esta manhã, mas é como se ele tivesse partido de propósito, sem deixar notícias.
- Ele às vezes dizia que estava "prestes a acordar a qualquer momento", como se estivéssemos vivendo um grande sonho. Será que ele... meio que acordou? - especulou a guerreira de cabelos espetados, cujo penteado fora adotado permanentemente.
- Eu não queria ter que falar sobre isso, pois é um assunto que é sempre discutido entre o clero e eu já tive que ler tanto a respeito... - começou Dourado, com uma expressão de cansaço mental. - Vocês sabem que vivemos neste mundo chamado Aldetoron, que é o mundo sonhado por Aldetor, o Criador, certo?
- Mas isso não é um tipo de metáfora? - sugeriu Devdas, quase querendo mudar de assunto e balançando a cabeça para afastar os infinitos pensamentos que tal conceito fazia surgir em sua mente.
- Não, não é uma metáfora. É real.
- Por que não disse antes? - sensurou o ogro, fingindo se importar.
- Vejam bem... Isso não é um segredo. Como eu disse, fala-se sobre isso por aí, mas a maioria simplesmente não se importa.
- Mas então por que o Jocasius ficou tão intrigado se é algo tão simples assim? - perguntou Anidro, confuso.
- Não sei responder a essa pergunta, mas a grande questão é a seguinte: Aldetor dorme e sonha este mundo, mas nós não estamos dormindo como ele! Somos sua criação e vivemos despertos em seu mundo-sonho. Então que impressão é essa, que o Jocasius tinha, de estar prestes a acordar sendo que quem está dormindo é Aldetor? Esse é o ponto-chave que queria discutir com ele, e foi por isso que concordei que ele ficasse estudando na biblioteca da cidade.
- E se nós... estivermos dormindo também? - soltou Rham, e imediatamente teve uma forte onda de dor de cabeça devido ao esforço necessário para produzir tal frase. Mas nenhum deles fazia idéia do quanto o ogro estava certo; muito menos ele mesmo.

***

Novamente montados em ubatayen, os aventureiros seguiram rumo ao sul. O império de Itgar se estendia até a borda sul do continente, separada a oeste do império de Lushma (também conhecido como Sogoma) por uma imensa cordilheira que delimitava o deserto Holai-Kell.
O grande reino de Sarmate, subordinado ao império de Itgar, correspondia a metade daquelas planícies e era muito comum ver grupos de amazonas garantindo a tranquilidade das estradas, de modo que a adição de uma pitada de sorte garantiu que a viagem transcorresse tranquila até seus limites meridionais. Mais ao sul, no entanto, estava o reino de Amanor, um lugar governado por orcs, goblinóides e demais humanóides monstruosos (com ou sem pelos e garras).
Havia um cheiro de queimada no ar, fato devido à soma de dois fatores: construções de madeira e rivalidade entre tribos. E justamente por causa dessa conveniente distração os companheiros conseguiram avançar vários quilômetros sem problemas com asaltos ou coisas do tipo.
- Já estamos chegando? - perguntou Anidro.
- Não - respondeu Devdas, pela oitava vez nos últimos 30 quilômetros, apertando os olhos para enxergar adiante por causa da fumaça causada por um incêndio próximo. O crepitar se fazia ouvir como se o fogo estivesse mastigando a madeira com dentes incandescentes.
- Vejam, tem uma estalagem lá na frente. Mas onde será que estamos? - perguntou-se Dourado, logo a seguir vendo um meio-orc coberto de fuligem e tossindo, de quem obteve a informação em troca de algumas moedas de cobre.
- Aquela é a *tosse* vila de Ugosh. A única por aqui que *tosse muito mais forte* ainda não teve nenhuma casa incendiada - disse o ser de pele ocre, guardando as moedas no bolso furado.
- Então é para lá que vamos - disse o paladino virando-se para os outros. - Só espero que não queime esta noite...
- Não me importo - confessou Devdas. - Só preciso descansar.... Ei, moço, suas moedas caíram no chão.
- Obrig- *tosse*
E então seguiram para a estalagem de Ugosh, cujo estalajadeiro estava prestes a aprender uma importante lição sobre o valor do dinheiro...

[Leia a próxima parte]

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Projeto 99-222 - parte 19

 [Leia a parte anterior] [Leia do começo]

- Mana, preciso fazer xixi.
- Já estamos chegando na taverna; aguenta mais um pouco - respondeu a guerreira, que ainda tinha a expressão "não é mais seguro" martelando na cabeça. O que isso poderia significar? Os kytons saberiam do que estavam falando?
- Então fala pro Dourado comprar logo a armadura dele... Vai vazar aqui!
- Pronto - anunciou o clérigo da guerra, triunfante, trazendo a armadura completa que acabara de comprar no grande mercado de Exgwar.
- Nem acredito que voltamos pra essa cidade - disse Devdas, e então inspirou o ar carregado de aromas. Sua perna estava restaurada, bem como o braço de Rham, graças à bondade de uma clériga de Villia. Logicamente uma generosa doação fora oferecida antes do favor, o que sob a ótica de alguns poderia ser classificado como "comércio de membros".
- Precisamos procurar Jocasius para ver se ele descobriu alguma coisa - lembrou Dourado. - Talvez aquelas coisas que ele falava tenham alguma relação com o que os kytons disseram.

A cidade emanava o clima de aconchego que os aventureiros buscavam após dias em locais hostis. E a taverna era o lugar ideal para gastar as últimas forças antes do descanso, principalmente porque precisavam pegar a recompensa. Mas Dourado sentiu um comportamento estranho, notando que alguns grupos de amazonas se deslocavam apressadas entre as torres de vigia, e outras permaneciam atentas em cima da muralha, mais rígidas do que o usual, como se esperassem que algo fosse acontecer.
- Boa tarde, caros aventureiros! - cumprimentou Shayene, garçonete da taverna O Amigo Morto, com sua frase padrão. - Pelo jeito conseguiram lidar com a última missão.
- Cadê o Nario? - perguntou Devdas.
- Posso ir ao banheiro? - cortou Anidro, e seu pedido foi concedido. A garçonete então apontou onde estava o anão: tentando a sorte com algumas amazonas.
- Ei, anão - invocou o ogro, louco para ver sua parcela do ouro. Afinal o porão da senhora Rheda já estava livre de diabos.

O intermediador de missões estava sentado em uma mesa com três mulheres, sendo que uma delas tinha o braço mais largo do que a cabeça dele. Sua atenção voltou-se para Rham, que vinha a passos largos.
- Viemos... nós viemos... - começou o guerreiro, entorpecido pela atração causada pela amazona de bíceps superdesenvolvidos. - Olá - disse a ela, com voz de tonto, sentando-se à mesa e ignorando o chamado de Devdas, que havia encontrado uma mesa vazia do outro lado do salão.
- Olá - respondeu a mulher, com voz grossa.
- Quer fazer sexo? - arriscou Rham.
- Sou comprometida - respondeu ela, sem deixar de sorrir por causa do convite explícito.
- Com ele? - quis saber o ogro, apontando para o anão.
- Não, com ela - disse a amazona, quase ofendida, mostrando a guerreira ao lado com um gesto de pescoço. Tratava-se de uma mulher de olhos apertados e rosto redondo, absurdamente atraente, e as duas enroscavam as pernas sob a mesa. O anão interveio:
- Não me atrapalhe, ogro, estou tentando convencer essas duas a me deixarem vê-las em ação. - E após uma longa pausa, notando que Rham não havia entendido, completou - Em ação, você sabe, se pegando na cama.
- Ah, mas eu não quero só ver - explicou Rham.
- Certo - disse a grandona, levantando-se com ar de impaciência. - Aceito o seu convite se você conseguir me derrubar ali - desafiou, mostrando a pequena arena improvisada.
- Eu? - indagou Nario.
- Não... O do ogro. Sem armas.
A outra amazona ficou empolgada com a situação, o que demonstrou instintivamente ao se ajeitar na cadeira como se houvesse algo impedindo-a de ficar parada.

O ogro e a humana se dirigiram ao pequeno espaço reservado para brigas na taverna, que no momento não estava sendo utilizado. Havia manchas de sangue na pedra e todos os rostos se viraram naquela direção, ficando mais animados.
- O que aconteceu? - perguntou Anidro, mas os companheiros não sabiam, de modo que se limitaram a olhar também para aquele lado.
Sem cerimônias o ogro desferiu o primeiro soco, com pressa de clamar seu prêmio. A amazona recebeu o golpe de bom grado, bem como os seguintes, até que conseguiu encontrar a posição certa para agarrá-lo, levando a briga para o chão sob gritos e assobios de aprovação da platéia que se juntava.
Os dois rolaram algumas vezes e ela ficou por cima, imobilizando-o com as poderosíssimas pernas. Ele era mais de um metro maior do que ela, mas isso não importava na horizontal. Além disso, ela acabara de criar uma distração a seu favor, roçando os quadris e provocando em Rham uma reação em cadeia que o fez produzir baba em profusão.
A maioria das pessoas já estava de pé, acompanhando a frenética troca de socos até que eles não conseguiam mais continuar. E o motivo era o fato de eles estarem rindo tanto que os braços perderam força, e por isso resolveram alugar logo um quarto.

Os outros tentaram, sem sucesso, localizar Jocasius na cidade. Havia dias que ninguém o via na biblioteca e nem na taverna, e tampouco sabiam para onde ele tinha ido.
Voltando à taverna Anidro resolveu dormir, e após pegarem o dinheiro com Nario, Devdas e Dourado ficaram conversando com Kisha, a companheira da amazona que enfrentou Rham. Além de terem descoberto o fato óbvio de elas terem uma relação aberta, ficaram sabendo também que na madrugada passada um navio voador havia "sequestrado" uma torre do casarão da baronesa Bricia.
- Quem fez isso? - perguntou Dourado.
- COMO fizeram isso? - complementou Devdas.
- Fergus Gancho Aéreo é um pirata dos ares, e seu navio voador é equipado com um enorme gancho que possibilita o roubo de coisas grandes. Mas ninguém imaginava que fosse capaz de roubar uma torre inteira, arrancando-a do resto da construção!
- E o que havia na torre? - quis saber o clérigo.
- Todos os tesouros da baronesa, bem como suas duas filhas Eda e Cyst - explicou Kisha, com ares de assombro. Os olhos negros e brilhantes quase desapareciam entre as pálpebras apertadas, e o cabelo liso estava trançado e erguido em um coque. As roupas de couro reveladoras, sempre em moda entre as amazonas, amplificavam sua beleza.
- E alguém sabe para onde foram?
- Para a Ilha Sauria, ao sul do continente. A líder das amazonas, Arlene Orgulho Rubro, está organizando uma expedição. Até agora o pirata não pediu resgate pelas filhas da baronesa, mas talvez ainda seja cedo para isso.
- Acredito que ela não vá levar muitas guerreiras nessa expedição, pois a cidade perderia proteção - considerou Dourado.
- Isso mesmo - disse Kisha.
Devdas e Dourado se entreolharam.
- Ouvi dizer que na Ilha Sauria vivem gigantes druidas que se transformam em dinossauros.
- Tem alguma recompensa? - perguntou Devdas
- Ah, sim, é claro que a baronesa recompensará quaisquer heróis que tragam suas filhas, com ou sem o tesouro, de volta - disse a mulher, que viu o brilho nos olhos dos interlocutores diante da iminência da aventura.

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