terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Projeto 99-222 - parte 44

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

    - Podemos dizer que sim, um dragão tarado e pervertido - complementou Berilafa, arrancando mais conversas paralelas das pessoas em volta. Sua expressão era rígida e fria, como se estivesse contando um grande segredo apesar de haver tantas pessoas ouvindo. Logicamente todos ali sabiam do fato, e estavam claramente incomodados por terem que deixar os convidados saberem.
    Os músculos da face de Devdas se contorciam pela aversão à idéia. Ela detestava ter que tomar uma decisão tão repentina, mas se sentiu na obrigação de partir imediatamente para descobrir onde o tal dragão morava e como ele era. Mesmo sem Dourado.
    - E quando ele solicita... oferendas...  aonde vocês levam as moças? - perguntou afinal.
    - Pensei que quisesse esperar seu amigo ficar bom - interveio Nernufi, e Berilafa deixou escapar uma leve expressão de vitória pelos cantos da boca.
    - Vamos deixá-la fazer como quiser, primo. Se querem saber, peço ao meu filho que os leve até o lugar onde deixamos as oferendas - ofereceu o líder, usando a palavra "oferendas" a contragosto. - Não sabemos exatamente onde fica sua toca, mas não deve ser longe de lá.
    - Posso levá-los agora mesmo - ofereceu Fabrak, indicando seu espalhafatoso veículo, estacionado ali perto.
    Anidro e Devdas trocaram olhares, pegaram as mochilas e entraram no carro.

* * *

- É aqui - disse Fabrak, pisando no freio. Com a mão esquerda ele apontava, através da janela do veículo, na direção de uma duna.
    - Naquela duna? Achei que teria um altar ou coisa do tipo - confessou Anidro, incrédulo.
    - Bem, é um dragão da areia. Ele cria um ambiente cheio de ornamentos, inclusive um altar, quando chega a hora de receber oferendas. Ele molda tudo com areia.
    Devdas saiu do carro e pegou sua mochila. Suas correntes desenrolavam-se de seus braços como serpentes, enfiando-se na areia à procura de evidências de algum esconderijo subterrâneo.
    - A toca não deve ficar mais longe - sugeriu a guerreira. - Afinal, ele deve morar perto do oásis para garantir seu suprimento de água. Aliás, não duvido que encontremos algum túnel que leve diretamente para baixo do lugar onde vocês moram - concluiu ela, olhando sombriamente para Fabrak.
    - Você acha que o dragão vive embaixo dos pés do meu povo?
    - Ele precisa de água, e não sinto nenhuma umidade por aqui - disse Devdas puxando uma das correntes de volta. A outra, no entanto, permanecia debaixo da areia.
    - Achou alguma coisa, mana?
    - Achei um túnel. É melhor você voltar, Fabrak, antes que ele sinta o peso do seu veículo na areia. Talvez ele possa sentir a movimentação na superfície, da mesma fora que os vermes.
    - Se você diz...
    O homem se dirigiu rapidamente para a segurança, nitidamente aliviado por não ter sido convidado a seguir com eles. Devdas havia percebido seu medo, exatamente como havia percebido o medo de todos os outros durante a refeição enquanto conversavam sobre o dragão. E ela sabia que a criatura se aproveitava da situação para conseguir o que queria.
    Mais do que isso; o dragão provavelmente havia se tornado preguiçoso pela vida confortável que tinha. Ela imaginava que seria um alvo fácil, de musculatura flácida e cérebro lento, desacostumado com surpresas. E mal podia esperar para cravar suas lâminas naquele monstro depravado.
    - Então vamos descer? - perguntou Anidro, após um longo período que passara obresvando o céu escuro cada vez mais cheio de escadas lunares. Ele se esforçou para direcionar sua atenção para o dragão, já que não havia nada que se pudesse fazer com relação às escadas.
    - Vamos. Vai ser fácil - respondeu a mestra das correntes, cutucando o chão com o pé para encontrar o início da passagem. Logo conseguiu provocar a abertura de um buraco, e a areia logo começou a invadir a abertura.
    Sem perderem tempo, os dois pularam na escuridão, forçando os braços e as pernas contra as paredes estreitas para amortecer a queda. Vários metros abaixo a passagem começava a inclinar e ficar mais larga, até que se transformou em um túnel arredondado mais ou menos horizontal.
    Batendo uma tocha mágica contra a parede de areia compactada, Anidro iluminou o lugar. Com dois metros de diâmetro, o túnel dava uma idéia do tamanho do dragão que o escavara, e as marcas de pequenos dedos por toda a extensão indicavam que as vítimas eram levadas conscientes pelo trajeto.
    Não havia bifurcações e nem objetos largados pelo longo caminho. E pela direção em que seguiam, Devdas estava convencida de que eles estavam indo parar debaixo do vilarejo de Berilafa. As paredes estavam cada vez mais úmidas, o que indicava que estavam próximos do oásis.
    Então eles ouviram um gemido baixo, seguido por um grito agudo. Anidro sugeriu que apertassem o passo, e cada passo adiante permitia ouvir os gemidos com mais nitidez. Pouco tempo depois era possível sentir um leve cheiro de podridão no ar parado.
    - Melhor começarmos a baixar a luminosidade - sugeriu Anidro. - Senão ele vai perceber que...
    Mas o paladino não conseguiu terminar a frase. Uma rajada de vento cortante, carregado de areia muito fina, os atingiu como um raio. Devdas precisou dobrar os joelhos e inclinar o corpo para frente para permanecer de pé. Suas correntes já esvoaçavam à sua volta, como uma emanação de aço.
    Uma voz gutural veio da escuridão adiante, mas nenhum dos dois entendeu o que dizia.
    - Acho que está falando em dracônico - disse Anidro, desconfiado, e em seguida começou a conjurar escudos de proteção através de preces à deusa Villia.
    - EI! - gritou a guerreira, incapaz de ver o dono da estranha voz. - NÓS VIEMOS AVISAR QUE VOCÊ NÃO VAI TER MAIS OFERENDAS!
    Novos grunhidos ininteligíveis ecoaram em resposta, mas dessa vez pareceram carregar as palavras "cheguem mais perto" sob um fortíssimo sotaque. E no instante seguinte um grande aposento se iluminou alguns metros adiante, revelando um grande divã de ouro onde se deitava um enorme réptil marrom com características peculiares - incontáveis espinhos adornavam sua cabeça, sendo que os da mandíbula lembravam barbas. As escamas do corpo eram pontudas também, e pareciam espinhos quando se eriçavam. E também havia um par de grandes membranas que possivelmente funcionavam como asas. Elas começavam na base dos chifres espinhosos, passavam  pelas costas, onde tinham o tamanho máximo, e se juntavam na cauda.
    Apesar de pétreo, o rosto tinha alguma capacidade de expressão e os olhos amarelos brilhavam vividamente, curiosos. Mas havia outras coisas naquela câmara, além do dragão. Era difícil observar o resto enquanto a presença daquela incrível e sobrenatural criatura atraía toda a atenção, mas Devdas e Anidro notaram a existência de muitas ossadas em volta dele. E em meio aos ossos, uma mulher viva.
    Devdas ainda tinha esperanças secretas de que encontrassem simplesmente um dragão devorador de carne humana, e não um estuprador de humanas. Mas a mulher nua, deitada com o rosto no chão e com as pernas escancaradas, não deixou sombras de dúvidas - principalmente porque não estava morta e nem mordida. Ela gemia incessantemente por causa dos enormes buracos ensanguentados em que haviam se transformado sua vagina e seu ânus.
    Sem precisar de mais motivos, Devdas investiu contra o monstro, tomada por uma fúria cega. Suas correntes, cujas extremidades prendiam-se a grandes facões, atacavam o inimigo em movimentos que lembravam ferroadas de escorpião. Um grito de guerra ensurdecedor preencheu cada canto daquele covil, carregado de ódio e sede de vingança.
    Os facões perfuraram os ombros do dragão, servindo a partir de então como apoios que a guerreira utilizou para executar uma manobra aérea que a levaria direto à nuca do monstro. Assim que ela chegou à altura máxima, seus pés tocaram o teto, que era mais alto ali do que no túnel, e ela conseguiu dar alguns passos enquanto descrevia u arco no ar.
    Mas o oponente não era lento e nem possuía músculos flácidos como Devdas previra. Quando percebeu o objetivo da guerreira, o dragão segurou as correntes com as poderosas garras e puxou bara baixo, derrubando a invasora. E em seguida puxou as correntes para si, trazendo Devdas com elas.
    Apesar de atordoada, enquanto se aproximava rapidamente do dragão de areia Devdas pôde ver de relance o que parecia ser o pênis dele, que naquele momento estava ereto e sujo de sangue. E no instante seguinte foi atingida no rosto por uma joelhada.
    Anidro, que mal podia acreditar que acabara de ver um dragão desferir uma joelhada (ele achava que dragões somente mordiam), concentrou-se nas preces que mantinham a irmã protegida dos violentos ataques. Infelizmente ele não podia atacar enquanto estivesse concentrado em manter escudos de proteção tão potentes.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Iniciativa 4e: Doratraks

Os posts da Iniciativa 4e são sempre conjuntos e temáticos, a serem publicados quinzenalmente. Assim, vários aspectos de um mesmo assunto serão cobertos por diferentes autores (veja os links no final do post), dando origem a um suplemento periódico.
O tema desta 23ª edição da Iniciativa 4e é Masmorras. Mas aqui será apresentada...

Mais que uma Masmorra
Após o fim do mundo, quando a vida dá espaço ao silêncio da desolação, uma mente repleta de poderosa criatividade começa a arquitetar planos para um inevitável recomeço. Mas uma paisagem cheia de restos do fim de uma era não é um ponto de partida adequado - o artista precisa de uma tela em branco.
Apesar da necessidade de um recomeço, a divindade não quer se desfazer de seu passado, pois isso seria o mesmo que destruir sua memória. Assim, uma nova camada de terra é criada por cima de tudo, apoiando-se no topo das montanhas mais altas do antigo mundo, que por sua vez havia sido construído sobre as montanhas mais altas de um mundo ainda mais antigo.
Essa "pilha de mundos", ou Onkala (mais conhecida como Doratraks) dá origem a um universo escuro, hostil, muito extenso e absurdamente complexo, habitado por criaturas inimagináveis. Sua existência, repleta de localidades e eventos próprios, passa despercebida pelos habitantes da superfície, mas oferece recompensas indescritíveis àqueles dispostos a explorá-lo.

Fatos sobre Doratraks

Um personagem obtém as seguintes informações com um teste bem-sucedido de perícia:
Exploração CD 10: Há reinos subterrâneos em nosso mundo, onde vivem anões, dragões e todo tipo de abominações. Mas dizem que há coisas abaixo desses reinos subterrâneos.
Exploração CD 15: Existem galerias subterrâneas mais profundas do que se pode imaginar, pelas quais se diz ser possível chegar a outros mundos.
Exploração CD 20: Há outros mundos abaixo deste, mais especificamente os restos deixados por todos os apocalipses pelos quais já passamos. E na parte mais profunda de Doratraks está o Poço dos Desejos, uma pequena câmara que ainda conserva a fagulha criativa primordial do gênese, capaz de realizar qualquer desejo.
Exploração CD 25: O fim do mundo é um evento certo e esperado que deixará poucos (ou nenhum) sobreviventes. E quando um novo mundo surgir por cima dele, depois de muito tempo surgirão criaturas formadas pelas memórias de seus habitantes, desprovidas de consciência racional como a conhecemos. Em vez disso, elas possuem uma inteligência incompreensível e se manifestam fisicamente sob formas variadas, geralmente perturbadoras. Por isso são chamadas Inimagináveis.
Exploração CD 30: Os Inimagináveis não são os únicos habitantes de Doratraks. Há criaturas que desceram e viveram naqueles profundezas, e que eras mais tarde deram origem a novos seres. Além disso, é grande a atividade de dragões e elfos negros.
Exploração CD 35: Os próprios deuses de mundos anteriores existem em Doratrax. Eles não conservam seus poderes, mas continuam possuindo habilidades extraordinárias e muitas vezes controlam grandes regiões.

Usando Doratraks em sua Campanha

Doratraks é uma grande masmorra com múltiplos níveis, uma extrapolação do conceito de Underdark introduzido pelo Forgotten Realms, cujo objetivo é verticalizar o mundo de jogo e criar um tipo de "masmorra definitiva".
Aqui, no entanto, a idéia dessa gigantesca masmorra está vinculado ao conceito de ciclos de criação e destruição, como na mitologia hindu. Assim, é um tipo de Underdark direcionado a mundos que de alguma forma precisam ser reconstruídos através das eras.

Para expandir essa idéia, siga a sequência das eras pelas quais o mundo já passou, "empilhando" uma era sobre a outra, as mais recentes sobre as mais antigas. O resultado será como um grande prédio, sendo cada pavimento uma versão do mesmo mundo.

Características Básicas de Doratraks

Todas as camadas de Doratraks correspondem ao mundo como ele já foi durante uma era passada. Assim, há características comuns a todas elas.

Teto
: Em média 1.000 metros de altura.
Iluminação: Escuridão total. Certos tipos de fungos brilhantes e criaturas com brilho próprio vivem no elevadíssimo teto, lembrando estrelas bizarras e multicoloridas em um céu noturno.
Vegetação: Apesar de ser uma região subterrânea, Doratraks tem uma enorme variedade de plantas únicas, com folhas adaptadas à pouca iluminação ou capazes de absorver estranhas irradiações invisíveis.
Fauna: Doratraks tem grandes regiões abertas, inclusive planícies, bem como lagos, rios e mares. Assim, uma rica fauna cobre as regiões inóspitas, muitas vezes lembrando animais da superfície. O teto elevado permite inclusive a existência de animais voadores.
Rochas: Ruínas e escombros deram origem a muito sedimento, formando cascalho nas áreas abertas. Cordilheiras se transformaram em enormes paredões em contato com o teto (que é a base para o mundo construído na camada superior), cuja necessidade de apoio originou enormes colunas de pedra com centenas de metros de altura. Complexas intersecções entre essas colunas formaram cavernas e pontes naturais, misturando-se a nuvens sólidas petrificadas pelo tempo e pela falta do sol.
Arquitetura: O fim de uma era não traz, necessariamente, a destruição total. Cidades inteiras permanecem intactas, bem como monumentos, castelos, estradas e pontes. Muitos desses lugares são encontrados abandonados, outros foram destruídos pelo próprio tempo, e outros ainda permanecem habitados por nativos de Doratrax. Existem também construções relativamente novas, erguidas por esses nativos (como mind flayers, mortos-vivos, demônios e elfos negros).

Veja a seguir um pequeno exemplo de camada:

A Camada dos Elementos
O nível mais profundo corresponde ao mundo original, como criado no gênese. É o primeiro esforço criativo de uma divindade muito jovem, ainda sem experiência. Seu centro era um lugar muito belo, onde o deus criou as coisas essenciais das quais precisava. O mundo cresceu em volta à medida que ele caminhava em sua jornada de autodescobrimento.
A princípio o deus percebeu o pulso, em sua mente, de padrões simples e básicos - os elementos primordiais. Sua consciência se dividiu para assimilar cada um desses elementos, e assim surgiram novos deuses para acompanhá-lo.
Seus habitantes atuais são escassos, em sua maioria deturpados descendentes de titãs, slaads, genasi e shalmak (o povo-salamandra).

Em Aldetoron

Conforme mencionado, Doratraks foi planejada para ser o Underdark de Aldetoron. Lá, em vez de "eras", cada período tem o nome de "ciclo".
Cada vez que acaba um ciclo, outro é iniciado e há sempre dois deuses recorrentes: aquele que representa a forma de Aldetor no mundo-sonho e Vorth - a personificação de todas as memórias dos ciclos anteriores, ou seja, aquilo que faz Aldetor aprender com seus erros. Leia aqui mais detalhes sobre ele.
Vorth é a razão pela qual Doratraks existe. É o impulso de guardar os restos dos ciclos passados, num misto de saudades e lamentação, razão pela qual surgem as criaturas chamadas Inimagináveis (os principais habitantes de Doratraks).

Trata-se do lugar mais inóspito do mundo-sonho, e seus segredos revelam toda a história de Aldetoron, como um gigantesco e perigoso museu. E a maior recompensa fica em seu nível mais profundo, na câmara onde se encontra o Poço dos Desejos. Lá, o aventureiro que atirar uma moeda poderá materializar todas as suas vontades.

Além das características básicas apresentadas a todas as camadas de Doratraks, é importante mencionar duas outras:

Influência Onírica: Apesar de ser uma característica típica de Aldetoron, a Influência Onírica pode ser renomeada e adaptada para outros cenários. Ela representa o caos natural que domina as áreas mais afastadas e isoladas, e está ligada ao fato de Aldetoron ser um mundo-sonho. Veja aqui as regras para Influência Onírica, e confira aqui as modificações nos personagens de estágio exemplar ou épico.
Efeito Esponja: Outra característica típica de Aldetoron (que você pode verificar aqui), é um fenômeno que permite seus limites planares absorverem material de outros planos, inclusive da Terra. Assim, é possível que os personagens encontrem um submarino encalhado ou um artefato mágico de outro mundo qualquer.

Artigos Parceiros da Edição 23

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Projeto 99-222 - parte 43

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

O povoado onde vivia Fabrak era um grande oásis cercado por construções que, apesar de simples, davam um ar suntuoso devido à arquitetura cheia de curvas e colunas, típica do sul de Lushma. Uma vegetação de proporções exageradas, permeava os espaços entre as belas casas. Panos coloridos serviam como cortinas e toldos, e a luminosidade noturna das luas dava um aspecto misterioso ao local.
    O carro chegou quebrando o clima calmo, os faróis iluminando a estrutura aberta e cheia de colunas quebradas que parecia servir de ponto de encontro dos moradores às margens do lago. A luz forte revelou que uma grande aglomeração ouvia atentamente as palavras de um homem de meia idade com uma barba branca, densa e cheia de tranças.
    Tímidos por causa da súbita atenção conquistada, Anidro e Devdas permaneceram atrás de Fabrak quando saíram do veículo. O menino tinha a impressão de que aquelas pessoas estavam prestes a atacá-los, possuídas por criaturas lunares que teriam chegado ali antes deles, através das escadas. Mas felizmente isso não aconteceu.
    - Meu pai, bons ventos! - disse Fabrak, abrindo os braços e caminhando na direção do homem que estava cercado por todas aquelas pessoas. O senhor, por sua vez, levantou-se da cadeira ornamentada e abraçou o filho.
    - Você os encontrou onde eu mandei procurá-los? - perguntou o homem de pele bronzeada e muitas marcas de expressão no rosto. Sua voz era convicta e bela, e um grande turbante ornava sua cabeça.
    - Sim, pai, na direção onde avistamos a aeronau caindo. Ah - exclamou Fabrak, virando-se para os convidados que terminavam de tirar as coisas do carro - deixem-me apresentá-los à minha família. Este é Berilafa, meu pai, e estas são Effara, Unalah - e assim continuou por vários minutos, dizendo o nome de cada pessoa. Eram algumas dezenas, todas com laços familiares. E várias das mulheres eram esposas de Berilafa.
    Após as boas-vindas e uma rápida conversa, Anidro, que nunca tinha visto alguém com tantas esposas, comentou:
    - O senhor deve ser muito viril.
    As mulheres deram risadinhas e Berilafa tirou um pequeno frasco de uma das dobras de seu manto.
    - Não tenho mais a vitalidade de quando eu era mais jovem, mas este óleo que trouxe da capital facilita minha tarefa. Aliás, se vocês me dão licença, preciso satisfazer minhas mulheres. Podem ficar naquela casa e conversaremos depois que vocês desacansarem.
    A multidão então se dispersou e Devdas ficou muito constrangida com a naturalidade com que Berilafa falava de sua vida sexual, de modo que saiu apressada fingindo um bocejo. Ela não deixou de reparar que vários rapazes a observavam com nítido interesse e começou a pensar em Ceowulf, o marujo que os havia levado à Ilha Sauria. Parecia que havia se passado uma eternidade desde então, mas apesar disso ela conseguia se lembrar perfeitamente do rosto do capitão.
    Alodia ficou muito feliz ao reencontrar suas amigas Estra e Edana e as três permaneceram perto do lago, onde a ex-capitã aceitou as bebidas oferecidas por um grupo de rapazes envoltos por largas túnicas. Ela logo se enturmou e descobriu que suas ex-tripulantes já haviam encontrado namorados e provavelmente se casariam em breve.
    A falta do sol parecia ter mexido com a rotina do povoado. Vários foram dormir, outros participavam de um banquete e alguns poucos ficaram simplesmente sentados ali mesmo, na praça, encostados nas colunas de pedra aparentemente sem pensarem em nada.

Devdas acordou com a aproximação de um pequeno vulto com olhinhos brilhantes. Era Anidro, e ele parecia impressionado por algum motivo.
    - O que foi? Espera aí, você ficou um tempão lá fora, não ficou? - quis saber a irmã, com aquela estranha sensação de quando se acorda em um lugar estranho. Fazia muito tempo que ela não dormia em lugares familiares, mas ela nunca deixou de ter aquela sensação.
    - Eu vi uma coisa muito estranha, mas não quero comentar. É o Berilafa com as esposas, e aquele óleo...
    - Você foi espionar?! - gritou Devdas, logo em seguida baixando o tom e se certificando de que ninguém lá fora havia escutado. - Eu não quero saber o que você viu, e quantas vezes preciso falar dessa sua curiosidade? Lembra-se do que a mamãe dizia?
    - O que foi visto não pode ser desvisto - disse o menino, em tom monótono. - Mas aquele óleo faz cre...
    - Não quero saber - cortou ela. - Agora vai dormir. Pelos deuses, nem parece um paladino!
    Devdas voltou a se virar no colchão de penas, lembrando-se de quando conheceram os paladinos de Villia assim que chegaram em Aldetoron, logo após atravessarem involuntariamente as brumas. Eles disseram que o menino era um prodígio, mas tudo aquilo parecia, agora, mais um sonho do que uma memória.

- Reitero as boas-vindas, pois bons ventos os trouxeram! - disse Berilafa, sentado na extremidade de uma longa mesa ao ar livre. Havia outras mesas, e algumas estruturas em volta indicavam que geralmente aquele lugar ficava coberto por muitos panos, provavelmente por causa do sol, agora ausente.
    - Agradecemos pela hospitalidade - disse Devdas, que comia avidamente os pães e carnes com temperos exóticos.
    - Não pretendemos demorar, partiremos logo e não os incomodaremos mais - apressou-se em explicar a guerreira.
    - Imagine! Lembre-se que pedi ao me filho que os buscasse, e isso não foi à toa.
    - Então... temos algum assunto a tratar? - perguntou Anidro.
    - Consultei os espíritos de meus ancestrais e eles me disseram que vocês derrotaram bandidos, diabos e gigantes. E por isso achei que vocês pudessem nos ajudar em troca de nossa hospitalidade e nosso ouro.
    - Bem... - começou Devdas, meio sem jeito, mas foi interrompida.
    - Nernufi, meu primo, é um excelente curandeiro e ele foi capaz de devolver a vida ao seu amigo meio-dragão - disse Berilafa, apontando um homem de bigodes negros e enrolados.
    - Sim - disse Nernufi, com um sorriso vitorioso no rosto. - A essência dele estava muito próxima do corpo, o que é muito raro, e foi uma tarefa rápida fazer com que voltasse à vida. Mas ele está muito ferido e fraco, recebendo cuidados especiais.
    - E onde ele está? - peguntou Anidro, levantando-se bruscamente e com a voz ligeiramente descontrolada.
    - Em minha casa - respondeu Berilafa, calmamente. - E vai permanecer lá, sem falar com ninguém até ficar melhor.
    Devdas teve a impressão de que estavam sendo chantageados, mas tentou manter a expressão calma. E depois de pensar por alguns segundos, terminou de mastigar e disse:
    - Então vamos esperar ele ficar bom para realizarmos a tarefa que você vai nos dar. Afinal, ele possui habilidades indispensáveis ao grupo.
    Berilafa concordou, para o espanto da moça, e começou a dar detalhes da situação:
    - Um dragão da areia mora aqui perto, em uma caverna. Ele exige oferendas.
    - Que tipo de oferendas? - perguntou Anidro, percebendo que o homem ficou algum tempo em silêncio. Devdas deu um leve tapa de "presta atenção" no irmão e fez sinal para que respeitasse os sentimentos dos outros.
    - Mulheres - disse afinal, causando murmurinhos em volta da mesa.
    - Um maldito dragão tarado? - gritou Devdas, indignada, logo percebendo a reação que causara. - Desculpem, fiquei transtornada...
    Devdas pensava em como um dragão poderia manter relações íntimas com uma humana, e ficou ruborizada por causa da imagem que sua imaginação concebeu.

[Leia a próxima parte]

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Projeto 99-222 - parte 42

[Leia a parte anterior] [Leia do começo]

O bárbaro e a necromante seguiram por um caminho aparentemente aleatório, mas logo Rham notou que sob seus pés havia uma larga estrada sob uma fina camada de areia, pavimentada com ossos largos e curtos como bloquetes. E quanto mais adentravam a Terra dos Ossos, Rham tinha mais certeza de que não poderia haver nome mais adequado para o lugar.
    Uma imponente cordilheira marcava os limites norte e oeste do deserto Holai-Kell, e era exatamente naquele canto da região mais árida de Aldetoron que surgira a surreal aberração óssea cuja área correspondia, não por acaso, à de uma grande cidade. O doentio branco amarelado do cálcio e da areia era a cor predominante.
    Um vento fraco, mas persistente, agitava as partes móveis das típicas estruturas osseototêmicas que brotavam por todos os lados. Mas ao observar com um pouco mais de atenção, Rham percebeu que boa parte da movimentação não era causada pelo vento, e que eles estavam cercados por uma horda de esqueletos curiosos, de vários tamanhos e formatos. O ogro identificou ali ossadas errantes que um dia haviam sido anões, humanos, shivus, haikas e até gigantescos protântilos.
    A maioria havia sido modificada para ter mais braços, caudas, cabeças extras ou membros maiores, com ossos substituídos pelos de outras raças para serem transformados em guardiões mais eficientes. Rham preferiu não pensar no que aquelas criaturas guardavam, ou nas criptas subterrâneas onde necromantes insanos possivelmente ensaiavam planos de dominação e, claro, de imortalidade.

- Mu'arsh ket Tukol - chamou Skelat, abrindo os braços para cumprimentar um desajeitado esqueleto constituído por uma cabeça de réptil, uma curta coluna cheia de costelas, duas maciças pernas e nada mais. Ele carregava uma sacola de couro protegida no interior da caixa torácica, e por isso Rham imaginou que talvez fosse algum tipo de "banco morto-vivo".
    - Então esses são os seus amigos - arriscou o ogro, forçando um sorriso enquanto observava o monstro se comportando como um cachorro feliz.
    - Só este aqui. Ainda não sou capaz de controlar muitos de uma vez - explicou ela.
    - E todos esses outros? - Rham não conseguia esconder o terror causado por toda aquela presença necrótica.
    - Pertencem a Alger, o lich que quero que você conheça.
    - Ah - confirmou o ogro, pensativo, erguendo as sobrancelhas. - E onde ele mora mesmo?
    - Naquela torre - respondeu Skelat, apontando uma estrutura óssea muito alta rodeada por nuvens trovejantes. - Demora muito ir caminhando, então vou providenciar umas montarias.
    Rham imaginou que ela fosse arranjar gigantescos e ameaçadores esqueletos quadrúpedes para que eles pudessem cavalgar, e para sua surpresa foi exatamente o que aconteceu.

* * *

Após se protegerem de imensas ondas feitas de areia e desviarem de um estranho navio que velejava pelo deserto (e cuja tripulação de homens-salamandra ignorou os acenos do grupo), Devdas, Anidro e Alodia permaneciam naquela região desolada, cuja visibilidade era possível graças à luminosidade alienígena provida pelas luas.
    Agora havia, visivelmente, algumas escadas sendo construídas pelas criaturas lunares, cujo objetivo era conectar seus planetóides à superfície de Aldetoron e permitir sua descida. À distância, as escadas pareciam pequenos apêndices, como se as luas estivessem deixando de ser "O" para se transformarem em "Q". Algumas já estavam completas, pois não precisavam ser construídas, bastando a realização de um ritual desconhecido ou simplesmente aguardar seu crescimento natural.
    - Achou alguma coisa? - perguntou Devdas ao irmão. Eles estavam procurando o corpo de Rham havia bastante tempo, e iniciavam naquele momento o sétimo descanso desde que iniciaram a busca.
    - Nada.
    Devido à noite permanente do Pesadelo, eles não tinham idéia de quanto tempo já tinham passado ali, na área onde acreditavam terem caído Rham, Estra e Edana. Nenhum dos três havia sido encontrado, o que não era de se estranhar já que as ondas de areia obliteravam rapidamente qualquer coisa que ficasse parada por muito tempo.
    - Melhor continuarmos andando - sugeriu Alodia, parecendo mais lúcida apesar dos cabelos desgrenhados e olhos abertos demais.
    - Pra você parece fácil falar! Estamos procurando duas mulheres da sua tripulação e você nem ajuda! - explodiu a guerreira de cabelos espetados.
    - Se ficarmos aqui, a areia vai nos cobrir enquanto dormimos - explicou a ex-capitã, aparentemente indiferente ao comentário de Devdas.
    - Então vamos dormir em turnos - interrompeu Anidro. - Não vou sair daqui até ter certeza de que... - e então o menino parou de falar, engasgado com um nó na garganta.
    Devdas veio abraçá-lo e Alodia fez uma careta estranha. O diabo linguarudo continuava rondando.
    Momentos depois os três perceberam um ruído ao longe e se viraram para observar. Era um objeto vermelho com brilho metálico vindo em alta velocidade, deixando um rastro esfumaçado de areia por onde passava.
    Tomando a frente e tomando postura defensiva, Devdas segurou os facões que ficavam nas extremidades de suas correntes e esperou.
    Logo era possível identificar que se tratava de um halinai, ou veículo motorizado (um carro, mais especificamente), tripulado por uma única pessoa. Tinha bancos de couro, vidros intactos, parachoque brilhante e faróis tão potentes que Devdas precisou proteger os olhos com o braço. Uma máquina incomum, mesmo nas cidades, devido ao elevado valor de sua manutenção.
    O ronco do motor e a iluminação frontal desapareceram quando o homem que o pilotava girou a chave ao lado do volante, desligando o veículo. Ele usava roupas claras e folgadas, tinha um nariz longo e encurvado e olhos pequenos, porém brilhantes e joviais.
    - Bons ventos! - cumprimentou, erguendo uma mão aberta. Ele estava sorrindo e parecia convicto de que não estava falando com pessoas hostis. Devdas não sabia se ele era muito confiante ou muito idiota.
    - Quem é você? - quis saber Devdas, desconfiada, sem baixar as armas.
    - Meu nome é Fabrak e você deve ser Revdas. E vocês devem ser Alondia e Enitro - arriscou o homem, com um forte sotaque.
    - Quase isso - disse Anidro. - Como você sabe?
    - Duas moças falaram muito de vocês. Onde estão o meio-dragão e o restante da tripulação? Ah, desculpem, esse deve ser o meio-dragão... - disse, apontando o corpo de Dourado.
    - Você encontrou duas de minhas meninas? Estra e Edana? - adiantou-se Alodia, esperançosa.
    - Sim! Venham, entrem no carro e deixem-me levá-los até a casa de meu pai - ofereceu Fabrak, abrindo a porta sob os olhares curiosos da guerreira e do pequeno paladino. A pirata entrou imediatamente.
    - Elas não falaram nada sobre um ogro, o Rham? - perguntou o menino, mesmo sabendo que provavelmente nenhuma pirata havia reparado no cadáver dentro do saco que eles havia levado a bordo.
    - Elas não falaram nada sobre ogros - disse Fabrak, franzindo a testa e abrindo o porta-malas para que colocassem a bagagem, incluindo o corpo de Dourado. - Vamos, precisamos ir porque logo os shir-nasstak vão chegar.
    E então, após uma longa troca de olhares e nenhuma palavra, os irmãos olharam mais uma vez o terreno em volta, como se fossem capazes de achar o corpo de Rham naquele instante. Depois entraram no carro lentamente, fazendo os amortecedores rangerem com o peso extra.

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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Projeto 99-222 - parte 41

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- Yarn! Shalkpash kun oghro perkmesh'ik? - perguntou para si mesma a viajante do deserto. A mulher usava vestes negras e largas, com um capuz, e havia corrido na direção do objeto que havia caído do céu. Olhando de perto o que ela já imaginava ser uma criatura, constatou tratar-se de um ogro morto havia algum tempo, já que o processo de decomposição deixara horrorosas marcas pelo enorme corpo. Grandes feridas espalhavam-se pelo peito e pelo abdome. Um objeto maior, de onde parecia ter vindo o ogro, descrevia uma perigosa rota aérea rumo ao chão vários quilômetrops adiante.
    Se Rham pudesse ver, estaria observando uma jovem de pele muito branca com acessórios macabros. Ela usava alguns colares de ossos, inclusive com pequenos crânios de primatas e roedores. As pulseiras, os brincos e os anéis tinham a mesma cor esbranquiçada, o que indicava terem sido feitos da mesma matéria-prima.
    A mulher falava o tempo todo consigo mesma, evidenciando os terríveis dentes afiados pelos quais havia trocado os próprios dentes ao longo dos anos, através de rituais sangrentos que a ensinaram a dominar a dor. Ela tinha cheiro de morte e mexia muito os dedos compridos, sob cujas unhas acumulavam-se restos de carne podre. Apesar disso, ela demonstrava graça em seus movimentos e tinha uma beleza selvagem nos traços.
    - Surjes lempash, oghro - disse ela, umedecendo a pele de Rham com um óleo escuro e fedorento. A seguir ela murmurou algumas frases curtas com uma voz grave, continuando o processo manual. Quando terminou, começou a perguntar:
    - Oghro, kash ti pakjat?
    Rham permaneceu inerte.
    - Oggro, tpav ayarvej?
    Ainda nenhuma reação.
    - Ogro, como se chama?
    As pálpebras de Rham revelaram olhos baços e ressecados. Ele piscou muitas vezes e levou a mão à cabeça, como se estivesse com dor.
    - Eu sou Rham - respondeu mecanicamente, parecendo pensativo. - Onde estão... onde estão os... como era o nome dele mesmo...?
    - Rham, meu nome é Skelat e eu devolvi a sua vida - disse a moça, sem cerimônias. Ela tinha um olhar ousado sob as pálpebras semicerradas, e agora que ela havia erguido o rosto era possível ver as pinturas em sua face; traços grossos contornavam os olhos e as maçãs do rosto, das orelhas aos cantos da boca. Outros traços cruzavam a boca da altura da base do nariz até o meio do queixo, de modo que o conjunto formava a imagem de um crânio.
    - Obrigado - disse Rham, sincero. - Não sei como agradecer.
    Ele apalpou os bolsos como se procurasse dinheiro, e então a mão esbarrou na flor que crescia em seu umbigo. Ele a arrancou sem pensar duas vezes.
    - Pegue esta lembrança. É rara... eu acho.
    Skelat pegou a flor e sorriu. O ogro se assustou ao perceber dentes de cobras e coiotes naquele sorriso, mas preferiu não mencionar suas impressões.
    Os dois caminharam até uma estranha formação óssea onde havia uma mochila de couro pendurada. Era uma coluna de cerca de dois metros feita basicamente de fêmures e caixas torácicas. Por trás das costelas havia crânios e tudo era rodeado por uma espécie de corda feita de vértebras e falanges. Parecia a Rham um tipo de obra de arte, ou talvez um totem, mas o que importava era a sombra que aquilo projetava.
    Eles conversaram durante horas sobre o sol duplicado e o Pesadelo iminente. Também especularam sobre o passado de Rham, mas ele definitivamente não se lembrava de nomes ou detalhes de eventos, o que Skelet disse ser normal. E quando a noite caiu o ogro reparou que suas feridas estavam fechadas por uma substância acizentada, semitransparente e gosmenta. Suas costelas e órgãos internos eram visíveis através de um grande machucado cheio da substância.
    - A Terra dos Ossos está cuidando de você, e é melhor que você agradeça - avisou a moça, que Rham descobrira ser uma necromante.
    - Terra dos Ossos? Só por causa deste totem de osso? E eu pensei que fosse você quem tivesse me ajudado - retorquiu o ogro.
    - Estamos nos limites meridionais da Terra dos Ossos, e esta aqui é uma simples amostra do que você vai encontrar mais adiante. Eu só achei a sua essência muito próxima do seu corpo, e por isso só precisei... como se diz... empurrar de volta - explicou Skelat, tirando o capuz agora que não havia mais sol. Ela tinha longos cabelos negros e lisos, presos atrás da cabeça com a ajuda de mais ornamentos ósseos. - É bem difícil a essência de alguém ficar tão ligada ao corpo, a não ser que você seja um aldeukurlos, ou seja, nativo de fora do mundo-sonho.
    - Eu? Não, não nasci fora deste mundo - afirmou Rham, enfático, mas os olhos da necromante o fitavam com interesse cada vez maior.
    - Tem certeza?
    - Sei lá... talvez eu tenha chegado aqui muito pequeno e por isso não me lembro.
    - Podemos tentar descobrir de que mundo você veio. Conheço um lich muito poderoso.
    Rham foi atiçado por uma curiosidade que o impediu de negar a oferta.
    - Bom... você disse que eu tenho que agradecer a Terra dos Ossos, certo? Talvez no caminho eu possa conhecer esse seu amigo lich - cogitou o bárbaro, levantando-se com a ajuda do insólito apoio esqueletal. E em seguida limpou supersticiosamente as mãos nas calças rasgadas ao perceber que havia encostado no objeto. Sua mente viajava pelas idéias decorrentes da descoberta de que poderia ter vindo de outro mundo, e por um momento sentiu um frio na espinha ao lembrar dos argumentos de Jocasius na Taverna do Amigo Morto. "Por alguns instantes tive a mesma sensação de ter morrido em um sonho", tinha dito o companheiro naquela ocasião. E era assim que Rham se sentia agora.
    - Fiz você pensar, hein? - provocou Skelat enquanto pegava sua mochila e guardava suas coisas para poderem partir.
    - Pra uma necromante, você até que é gente boa - soltou Rham. - Você tem dentes afiados e uma maquiagem terrível, mas não é nada má.
    - Oras, Rham... Não costumo me abrir com outras pessoas. Na verdade a última conversa longa e agradável que tive com alguém foi há muito tempo. Era um menino-esqueleto chamado Astur, e por incrível que pareça vocês têm alguns trejeitos em comum.

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Projeto 99-222 - parte 40

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Não foi fácil pegar no sono. Coisas vivas roçavam no madeirame, do lado de fora, e a estrutura toda tremia sob a violência da tempestade de fogo. Ao menos a queda havia provocado um impacto suficiente para afundar boa parte da aeronau na areia, pois do contrário eles não teriam a mínima chance de sobreviver.
    Os irmãos Ablin eram os únicos restantes de um grupo que, inicialmente, tinha cinco integrantes. Jocasius fora o primeiro a partir, quando eles ainda estavam em Gwarer. Rham tombara no combate contra o terrível gigante metamorfo, e agora eles haviam perdido Dourado para a chuva de meteoros.
    Devdas e Anidro mantinham-se abraçados, congelados perante a violência da situação. Conversaram sobre como ficavam assim, abraçados no escuro, anos atrás em seu antigo mundo. O semiplano do terror, ou Ravenloft, guardava perigos constantes e enlouquecedores que os atormentava até o dia em que desapareceram na misteriosa névoa que os levou embora. Mas nada se comparava ao que estavam passando nessas úlimas semanas.
    - Irmã... - começou Anidro, quase sussurrando.
    - O que foi?
    - Sempre me lembro daquele dia na taverna, quando o Dourado pediu aquele prato caro.
    - Sei. Parece que faz tanto tempo...
    - Pode parecer bobagem... - continuou o menino, parecendo sem forças para comentar sobre o assunto - Mas é que não lembro direito de como conhecemos o Joca, o Rham e o Dourado.
    Devdas pensou por alguns instantes e chegou à mesma conclusão.
    - Nunca parei pra pensar nisso, mas me lembro de coisas que fizemos juntos antes daquele dia.
    - Também lembro - rebateu Anidro, erguendo um pouco a voz. - Mas não consigo me lembrar de ter sentado naquela cadeira, ou de ter entrado pela porta da taverna.
    - Ah, sim, você bebeu cerveja naquele dia! - disse Devdas, com tom de reprovação. - E bebidas assim não são para crianças.
    Os dois então se calaram para poderem prestar mais atenção aos ruídos do exterior. Além disso, precisavam ao menos descansar um pouco.
    A capitã Alodia, que infelizmente acabara de perder o título devido à falta de subalternos, estava deitada em outro canto da casa de máquinas. Cada ruído desconhecido que chegava aos seus ouvidos forçava seu corpo a se contrair mais e mais, até que atingiu postura fetal. Sua sanidade ia sendo levada embora por ventos invisíveis que empurravam velas em mastros imaginários através de sonhos confusos pelos mares da nostalgia.

O súbito silêncio acordou os três ao mesmo tempo. A barulheira monótona da tempestade de fogo que embalara seus sonos finalmente havia cessado, atiçando seus cérebros a despertarem para verificar a mudança no ambiente.
    Fendas no teto deixavam passar pequenos fios de areia, e isso era um sinal de que em algum tempo o lugar estaria totalmente invadido pelos finíssimos grãos.
    A passagem por onde haviam entrado estava totalmente bloqueada por escombros, de modo que precisaram abrir uma escotilha. Logicamente o ambiente foi inundado pela areia, pois acima deles já havia se formado um grande acúmulo por causa do "mau tempo". Pela abertura era possível vislumbrar o terrível céu noturno inundado por infinitas luas. Algumas delas tinham brilho próprio, o que deixava a noite com um jeito permanente de ocaso ou crepúsculo.
    - Não acredito! - disse Alodia, a primeira a sair.
    - O que você viu? - quis saber Devdas.
    - Nada.
    - Fala pra gente! - precipitou-se Anidro, interessadíssimo.
    - Já falei, não tem nada aqui. Nem escombros, nem meteoros, nem corpos. Nada.
    Os irmãos saíram e confirmaram com os próprios olhos. Aparentemente uma tempestade de areia havia varrido qualquer evidência do ocorrido no dia anterior, como se nada tivesse acontecido.
    Anidro começou a chorar, explicando que seria impossível ressuscitar os companheiros sem os corpos, ou ao menos algum objeto pessoal deles. Então ele começou a cavar, procurando por Dourado.
    - Se você perder tempo procurando este, vai ser impossível encontrar o ogro que caiu - lembrou Alodia, com um sorriso frio no rosto e os olhos vidrados. Sua voz era baixa e monotônica - A cada instante, onde quer que ele esteja, mais areia se acumula em cima dele.
    - Por que dizer isso? - perguntou Devdas, indignada. - Por que falar assim? Você perdeu a cabeça?
    - Eu perdi tudo - confessou a pirata, soltando uma gargalhada indescritível, a não ser pelo caráter insano.
    Devdas foi ajudar o irmão a procurar pelo amigo soterrado. Poderiam levar muito tempo, e talvez precisassem voltar para o abrigo quando amanhecesse. Alodia permaneceu de pé onde estava, olhando para um estranho vulto ao longe o tempo todo. Ela balbuciava palavras ininteligíveis e parecia recuperar parcialmente a lucidez toda vez que começava a escorrer baba pelo queixo. Os dois irmãos pareciam ocupados demais para perceberem aquela presença, e a pirata tinha a impressão de que se tratava de um humanóide com vários braços caminhando bem devagar na direção deles. A cada vez que o paladino ou a guerreira olhavam para aquele lado, ele se abaixava rapidamente.
    Anidro então se lembrou que suas preces poderiam ajudá-lo, e seus campos de força poderiam ajudar a afastar a areia. E Devdas tinha suas correntes que podiam tatear pelos escombros escondidos sem a necessidade de escavar. Muito tempo se passou até que finalmente resgataram Dourado, e eles lamentaram a morte do amigo enquanto olhavam para o corpo parcialmente desconstruído. Havia muitos ossos à mostra e não havia sobrado muito de sua armadura, e antes que ficassem muito emotivos, Anidro lembrou que seria melhor buscarem as mochilas para poderem sair logo dali.
    - Acabei de me lembrar que não vai ter mais sol por um bom tempo - disse o menino.
    - Não vai amanhecer? - quis saber Devdas.
    - Durante os Pesadelos Laefel é expulso do mundo-sonho.
    - Ah, entendi... E como ele é o sol, significa que não vai amanhecer por um tempo - concluiu a guerreira. - E isso também significa que o deserto não vai esquentar, e por isso podemos caminhar pelo tempo necessário sem risco de morrermos escaldados, certo?
    Anidro confirmou com a cabeça e os dois voltaram novamente os olhares para Dourado no chão. O crânio revelava ainda mais de sua herança dracônica, e esta constatação umedeceu os olhos de Devdas. Ela o pegou e colocou sobre o ombro daquele jeito mesmo, pois não tinham nenhum saco.
    - Agora precisamos ir atrás do Rham - disse Anidro, com tristeza.
    Com a mão livre, Devdas puxou Alodia, que os seguiu silenciosa. Ela continuou olhando o estranho por mais alguns segundos, que estava mais próximo e parecia ter uma língua enorme até a cintura. Apesar de parecer bem real, a pirata decidiu que devia se tratar de uma ilusão.

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Projeto 99-222 - parte 39

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A calmaria não durou muito. Na verdade não chegou a haver calmaria.
    Instantes depois do pequeno grupo de sobreviventes ter alcançado o compartimento de carga do Evaot, sons abafados vinham do lado de fora indicando que os vermes gigantes tentavam abrir caminho pelo casco do veículo. Trovões ígneos retumbavam acima do solo, anunciando uma nova leva de meteoros.
    - O Dourado ainda está lá fora - lembrou Anidro, com olhos aflitos e lacrimejantes. Mas eram lágrimas de coragem, condensadas unicamente pelo sentimento de impotência. Não havia medo em sua voz. Nunca havia.
    - Vocês não devem sair agora - avisou a capitã Alodia. - Acho que não preciso explicar o motivo.
    - Aquela é a casa de máquinas? - perguntou Devdas, apressada.
    - É. Acha mais seguro lá dentro?
    - Acho. E também aproveitamos para descobrir o que nos fez cair neste deserto.
    A pirata concordou, pois sem dúvida eram duas ótimas razões. Anidro olhou em volta e achou suas coisas, e sem pensar duas vezes tratou de pegar seu escudo mágico mordedor, que conseguiu na Ilha Sauria. E quando se juntou às duas moças novamente, notou que Alodia observava alguma coisa. Uma expressão de espanto estampada no rosto.
    - Foi realmente sabotagem! - concluiu a capitã, balançando uma grande tira metálica dentada nas mãos. - Alguém trocou esta correia por uma corda de cipó muito resistente, que logicamente rompeu depois de algum tempo.
    - Então é possível consertar o motor, já que a correia original está inteira! - exclamou Devdas em um repentino surto de felicidade, compreendendo no momento seguinte a besteira que acabara de verbalizar. - Esquece o que eu disse - emendou.
    - Eu tenho tantos inimigos e adversários que é impossível saber quem possa ter feito isso. Mas ainda tem uma coisa que me deixa muito intrigada.
    - O quê? - quis saber o pequeno paladino, sem no entanto tirar os olhos das rachaduras no compartimento de carga, que começavam a aparecer por causa das incessantes investidas de um verme faminto.
    - Costumamos inspecionar os motores antes de decolar.
    - Alguém pode ter entrado depois da inspeção - sugeriu Anidro.
    - Ou alguma de suas piratas é uma traidora - provocou Devdas.
    - Nada disso - refutou a capitã. - Só há uma entrada para esta casa de máquinas e tenho certeza de que ninguém passou por ela depois da inspeção. Mas não acredito que alguma de minhas colegas possa...
    A frase foi interrompida por um estouro de madeira, seguido por um fluxo de areia. O verme gigante finalmente conseguiu entrar, mas não estava nada bem. Sua cabeça estava cheia de calombos por causa das batidas, que indicavam irremediáveis fraturas no crânio - se é que ele tinha um crânio. A seguir ele escorregou para dentro junto com a areia, ocupando metade do ambiente, e suas três mandíbulas tremularam algumas vezes antes dele ficar totalmente inerte.
    - Hahá! - soltou Anidro, mas logo reparou a aproximação de outro verme, que entrou guinchando em dois tons diferentes e simultâneos.
    - Podemos dar conta - disse Devdas, confiante. - Não tem espaço pra mais dois deles ali, e por isso podemos matar um a um, conforme apareçam.
    - Certo - apoiou o irmão, colocando o escudo à frente do corpo. A cabeça reptiliana metálica presa ao escudo pareceu tomar vida, como se fosse um ser vivo cromado.
    Sem nenhum grito de guerra, a guerreira movimentou suas correntes usando somente seus pensamentos, fazendo-as atacar o monstro que se espichava cegamente através da abertura no casco. A areia escorria livremente em volta dele.
    Não era nada agradável olhar para a criatura invasora. Havia muitas fileiras de pequenos cílios percorrendo todo o corpo cilíndrico, que se mexiam convulsivamente sem a presença da areia. O interior da bocarra não tinha mucosa alguma, e parecia cheia de pequenas criaturas secundárias, talvez parasitas, simbiontes ou até mesmo filhotes. A sensação era de muitas coisas se movendo ao mesmo tempo, independentes por todo o corpo, como se o perigo emanasse de todos os lados.
    A figura de Devdas era o contrário. Ela permanecia parada e concentrada. Seus músculos tensionavam nos ombros e nos braços, causando reações nas correntes que tratavam de manter contato físico com o oponente. Os facões rústicos presos nos elos finais cortavam sem piedade, fatiando o que encontrasse. Anidro foi para frente quando uma enorme língua tripartida ameaçou chicotear a irmã, e seu escudo tratou de aparar o ataque. Além disso, a cabeça cromada mordeu o objeto esponjoso, causando novos gritos de dor e fúria.
    Um terceiro verme ameaçou entrar, puxando para trás o corpo do segundo para arrumar espaço. Mas desistiu por algum motivo.
    O combate terminou tão limpo e perfeito que os irmãos se deram conta de que não eram mais as crianças indefesas que precisavam se esconder dos horrores noturnos de sua antiga vizinhança. Devdas era uma guerreira competente, e Anidro era um paladino dedicado ao seu dever.
    A capitã dirigiu a eles um olhar que agradecia, e eles entenderam que ela não podia dizer nada por causa de um nó na garganta. Sua aeronau estava destruída e provavelmente toda sua tripulação havia perecido. Os três se juntaram em um confortável abraço, cuja função era forçá-los a aceitar a calmaria que finalmente pairava no ar. Eles tinham algum tempo até o anoitecer, e por isso resolveram descansar antes de se aventurarem pelo deserto em busca de alguma cidade ou acampamento.

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