O vulto negro pairava estático no ar, a milhares de metros de altura, enquanto o vento implacável continuava com a infrutífera tarefa de castigá-lo. Ele, cuja identidade permanece incógnita até então, se ocupa com um complexo ritual realizado puramente através da mente, ficando o corpo completamente parado.
Ali perto, Indretor aguardava em uma nuvem sólida decorada com belos móveis de madeira-ente Sarvilaeniana e tapeçarias finas adquiridas em Turgar. Os cabelos grisalhos que escapavam pelo elmo de chifres eram a única evidência de que havia alguém dentro da armadura negra. Pensamentos cruzavam sua mente como uma frota em meio à tempestade de incertezas.
- Meu pai... - disse ele com uma voz grave e metalizada pelo elmo maciço. Ninguém o ouvia. - Por que precisamos fazer isso?
Ele olhou para as mãos, cujas manoplas continham, em sua estrutura, os fragmentos de sua espada de Cavaleiro da Morte destruída tempos atrás, e as fechou com força enquanto dirigia o olhar para o pai. Era possível vê-lo através de uma abertura.
Levantando-se, o Cavaleiro se dirigiu para a abertura na nuvem para dar uma olhada no andamento do ritual. As grevas castigavam o chão macio.
Muito acima dali, em meio às luas, algo estava sendo criado. Era impossível ver daquela distância, mas Indretor sabia que uma infinidade de vermes gigantes muito especiais estavam sendo juntados, e em volta deles ia se formando uma crosta de pedra feita de asteróides. A base estrutural era nada menos do que um crânio de protântilo com muitos quilômetros de diâmetro.
Os vermes eram capazes de armazenar energia, que seria usada para os propósitos da figura mística que flutuava. Propósitos conhecidos por Indretor, mas sobre os quais ele preferia não pensar.
Logo a estrutura ficaria pronta, tomando forma esférica e um tamanho gigantesco. Se pareceria com uma lua, o que de fato era um disfarce perfeito.
A camada mais profunda de Doratraks teve o silêncio rasgado por um choro de bebê. Um choro que não correspondia a fome, frio ou desconforto, mas sim a impaciência e sede de vingança. Ele queria sair dali e poder... brincar. Ter amigos e se divertir enquanto trata de reivindicar o mundo-sonho para ele. Sua herança.
- Calma, bebê, calma, filhinho... - dizia Maliah enquanto balançava o berço vazio.
- Droga, Maliah - reclamou Filag. Chamas irromperam de seus poros e ele se tornou uma fogueira vermelha. - VOCÊ TEM QUE PARAR COM ISSO!
- Não, Filag! Não...
O ex-deus segurou o berço com as duas mãos e o ergueu no ar. Os panos e o colchão se soltaram e viraram cinzas num instante, e a seguir a estrutura de madeira teve o mesmo destino. O brilho iluminou os outros ex-deuses, que assistiam à cena sem esboçar reação. Eles pareciam satisfeitos no final.
Filag se apagou e voltou para sua cadeira, mas o lugar não retornou à escuridão completa imediatamente devido à pequena fogueira que ainda crepitava no chão. O choro de Maliah se misturou ao do bebê, e ela suplicava:
- Oh, Maya, por que fez isto comigo? Por que tirou meu filho de mim...? Ele está chorando e precisa do meu colo... Ah, Maya...
Fora do sonho, na câmara ao lado do laboratório do projeto 99-222, onde ficava a bolha espacial com a família de alienígenas, um cientista ouviu o que Maya, mãe de Aldetor, disse:
- Atikus lye rialos ianar, Maliah; prastaj iar. - Que significa "Aquili não é um filho, Maliah; é uma aberração".
O cientista não entendeu de imediato, mas foi o estímulo que ele precisava para pesquisar mais a fundo o idioma falado em Aldetoron.


